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Como o surgimento da covid-19 afeta a atenção à doenças pré-existentes na sociedade? | Colunistas

Como o surgimento da covid-19 afeta a atenção à doenças pré-existentes na sociedade? | Colunistas

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MARIA FERNANDA CORREA RAMOS

9 min há 11 dias

Diante da realidade de país emergente, com enorme população e uma gestão básica escassa, a COVID-19 pode causar mais vítimas indiretas, caso se negligencie as grandes doenças infecciosas clássica.

Cenário e Perfil Populacional Brasileiro em um contexto pré COVID-19

Primordialmente, uma pandemia com dimensões vistas nos últimos meses ocasiona, por si só, inúmeras problemáticas, contudo, no Brasil, essas nuances tornam-se ainda mais preocupantes, visto que o cenário de má gestão, pouco investimento e perpetuação de dilemas básicos não é atual. Nessa perspectiva, alguns tópicos específicos devem ser analisados com maior cautela:

Saneamento Básico ainda não é para todos.

No Brasil, cerca de 47% da população ainda não possui acesso ao serviço de coleta de lixo, rede de esgoto, e acesso à água tratada. Esses dados explicam a enorme incidência de doenças de fácil prevenção, as DRSAIs, doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado como malária, parasitoses intestinais e giardíase, por exemplo. Em outras palavras, o país encontra uma enorme barreira sanitária que é responsável por grande parte dos casos assistidos pela atenção primária e que seriam facilmente resolucionados caso houvesse investimento em promoção de condições sociais básicas, garantindo melhor escoamento de pacientes na rede hospitalar a longo prazo.

figura 1.
Internações por carência de saneamento básico no período de 2009 à 2018

As doenças crônicas são uma realidade dequase metade da população.

De acordo com o IBGE, mais de 45% dos brasileiros possuem, pelo menos, uma doença crônica, como diabetes e problemas cardiovasculares, ou seja, o sistema de saúde já possui uma alta demanda de pacientes na atenção primária. De acordo com o estudo de ‘Estatística Cardiovascular 2020’,  por exemplo, cerca de 72% das mortes no Brasil devem-se à doenças crônicas não-transmissíveis, entre as quais as doenças cardiovasculares participam com a maior parte: 30%, com destaque para as Doenças Isquêmicas do Coração, Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Insuficiência Cardíaca, alertando a necessidade de gerir a pandemia sem esquecer da realidade nacional.

figura 2
Doenças crônicas no Brasil.

Grande parte da população possui pouco ou nenhum acesso à educação e à informação.

A realidade do analfabetismo, evasão escolar, desafios socioeconômicos por falta de oportunidades e desinformação são uma realidade para grande parcela da população brasileira, consequentemente, muitos não possuem instrução ou até disponibilidade de um profissional em casos de possíveis patologias.

Figura 3
pessoas de 14 a 29 anos com nível de instrução inferior ao médio completo, por motivo de abandono escolar ou de nunca ter frequentado a escola.

Remanejamento do Sistema para a COVID-19.

A atenção primária, já com poucos recursos, é remanejada para atender pacientes da COVID-19 e, devido a falta de gestão, ao invés de haver um planejamento de distribuição, ocorre competição de recursos, e, por consequência, a assistência à doenças comuns à população são deixadas para segundo plano, ocasionando impasses a longo prazo. Por consequinte, cirurgias eletivas, procedimentos que não são considerados de emergência, foram diminuídas e até mesmo canceladas promovendo uma enorme fila de espera de pacientes que perdem a cada dia mais qualidade de vida. Outro estudo, em que Margareth Portela, pesquisadora da Fiocruz, teve participação, registrou o aumento de mortes de pacientes sem COVID logo nos seis primeiros meses da pandemia e aponta que no Rio, por exemplo, a mortalidade de pacientes por insuficiência cardíaca depois da pandemia aumentou quatro pontos percentuais, evidenciando o remanejamento quase total de recursos para a pandemia e menor assistência a outros casos.

Empecilhos ligados às Fake News

Ao compararmos a atual pandemia com outros episódios ao longo da história, percebe-se que essa apresenta alguns fatores característicos da geração pós globalização. Diante disso, grande parte da população mundial  possui acesso à internet, todavia, tal acessibilidade gera uma discussão com duas principais vertentes, em outras palavras, o meio virtual permite propagação de informações a larga escala,  algo benéfico a nível informacional, porém, concomitantemente, a internet engloba dados, conhecimentos e opiniões de inúmeras naturezas, não necessariamente sendo todas verídicas. Nesse sentido, indivíduos leigos acerca de assuntos científicos detém espaço para divulgar informações de cunho dissimulado, as fake news, facilitando a propagação de dados falsos e levantamento de grandes massas na sociedade que defendem posicionamentos prejudiciais a nível populacional, tendo como exemplo o retorno do movimento anti vacina.

figura 4
gráfico retrata queda brusca nos índices de vacinação, principalmente, no último ano

Em síntese, vivemos na era da desinformação e, nessa realidade, confunde-se, muitas vezes, opinião com ciência, coisas distintas. Dessa forma, as fake news prejudicam não só a atenção à COVID, mas, principalmente, à outras doenças que já possuem prevenção através de vacinação, como difteria, tétano, sarampo, rubéola e caxumba, já que o questionamento da veracidade das vacinas para o atual vírus, colocam em questão as outras já existentes e, a longo prazo, podem fazer com que patologias já erradicadas retornem à sociedade devido a alta taxa de pessoas em defesa do movimento contrário ao plano nacional de operalização de vacinas

Consequências ao Sistema a Curto e Longo Prazo

Assim como outros acontecimentos marcantes à existência humana, a COVID-19 induz algumas resultantes, não só a nível fisiológico, mas à sociedade como um todo. 

Curto Prazo

Aumento da Taxa de Mortalidade.

Aumento da Desigualdade Social.

Aumento de casos de adoecimento psicológico.

Exposição de populações e grupos vulneráveis.

Sobrecarga do sistema de saúde e diagnósticos tardios.

Longo Prazo

Retorno de doenças erradicadas.

Escasso levantamento de dados.

Maiores dificuldades de resolução de problemáticas básicas, já que o sistema, agora mais do que nunca, está sobrecarregado.                     

novos grupos em vulnerabilidade, como pessoas que contraíram a doença e ficaram com sequelas.

Considerações Finais

Diante do exposto, torna-se nítido que a COVID-19, ao se deparar com um país com condições escassas na saúde, principalmente relacionada à ausência de consolidação da atenção básica, encontrou viabilidade para se propagar e causar danos ainda mais graves. Portanto, vê-se que a gestão da assistência multidisciplinar brasileira não prioriza estratégias de promoção e prevenção em saúde, ocasionando um desafio logístico, logo, ao lotar hospitais, saturar UTIs, a COVID-19 esgotou estoques de medicamentos e isso teve consequências fatais para quem precisou de atendimento médico por outros motivos. Nesse sentido, como aponta Focault, o Estado, ao invés de atuar na causa, atua na consequência, fazendo manutenção  da problemática, analogamente, a não priorização de investimentos na atenção primária dificulta o escoamento de pacientes de baixa complexidade, afetando a atenção à casos emergenciais, como o atual vírus, e outras doenças já pré existentes na população.

Autora: Maria Fernanda Ramos

Instagram: https://www.instagram.com/mafer.cramos/

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

Mortes por outras doenças aumentam na pandemia, dizem pesquisadores da Fiocruz –

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/04/29/mortes-por-outras-doencas-aumentam-na-pandemia-dizem-pesquisadores-da-fiocruz.ghtml

Covid-19 não pode deixar avançar outras doenças infeciosas, apelam especialistas-https://www.dw.com/pt-002/covid-19-n%C3%A3o-pode-deixar-avan%C3%A7ar-outras-doen%C3%A7as-infeciosas-apelam-especialistas/a-53424145

Com o mundo parado pelo Coronavírus, outras doenças também podem avançar-https://exame.com/mundo/com-o-mundo-parado-pelo-coronavirus-outras-doencas-tambem-podem-avancar/

Pandemia causa queda de 27 milhões de procedimentos de saúde em 2020-https://www.opovo.com.br/noticias/saude/2021/09/13/pandemia-causa-queda-de-27-milhoes-de-procedimentos-de-saude-em-2020.html

Antes, durante e depois da pandemia: que país é esse?-

https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/reportagem/antes-durante-e-depois-da-pandemia-que-pais-e-esse

Boletins Epidemiológicos – Linha do tempo-

http://www.aids.gov.br/pt-br/centrais-de-conteudos/boletins-epidemiologicos

EQUILÍBRIO ENTRE COMBATE À COVID-19 E ASSISTÊNCIA A DOENTES NÃO-COVID É UM DOS GRANDES DESAFIOS DO SNS

https://www.tcontas.pt/pt-pt/MenuSecundario/Noticias/Pages/noticia-20201103-01.aspx

Vamos sentir durante muitos anos a falta de assistência a doentes não-covid”

https://www.publico.pt/2020/10/25/sociedade/noticia/vamos-sentir-durante-anos-falta-assistencia-doentes-nao-covid-1936543

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