Medicina da Família e Comunidade

Comportamento da transmissão do vírus após vacina da covid-19 | Colunistas

Comportamento da transmissão do vírus após vacina da covid-19 | Colunistas

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Imagem de perfil de Rebeca Riff

Primeiramente cabe esclarecer quais são os tipos de vacinas e suas diferenças aplicadas no Brasil contra a Covid-19?

Atualmente existem 4 tipos de vacinas liberadas para aplicação no Brasil, que são:

CoronaVac: É produzida pelo Instituto Butantan (no Brasil), em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. 

Tecnologia: antígeno do vírus inativado (morto), é uma técnica segura, utilizada há anos e amplamente estudada. Quando injetado no organismo, o vírus não é capaz de provocar nenhuma doença, porém induz a uma resposta imunológica.

Ensaios clínicos: Os ensaios clínicos da CoronaVac, que foram realizados no Brasil tiveram a participação exclusivamente de profissionais da saúde (12.500 voluntários), ou seja, pessoas que possuem uma alta exposição ao vírus.

Número de doses / intervalo: Necessita de duas doses de aplicação, com o intervalo de 2 a 4 semanas de diferença.

Faixa etária: é para maiores de 18 anos.

Armazenamento: A temperatura de conservação é de 2 a 8 graus celsius, e necessita ser consumida todas as doses, depois do frasco aberto, em até 8 horas.

Registro emergencial: Seu registro de uso emergencial foi aprovado em 17 de janeiro de 2021.

Eficácia: Possui uma eficácia de 51% em infecções sintomáticas e preveniu COVID-19 na forma grave e hospitalização em 100% da população estudada.

AstraZeneca: Foi produzida pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a universidade de Oxford. No Brasil, ela é reproduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Tecnologia: A tecnologia utilizada é a do vetor viral (vetor adenovírus recombinante), que utiliza o adenovírus, infectante em chimpanzés; ele é manipulado geneticamente para que seja inserido o gene da proteína “Spike” (proteína “S”) do Sars-CoV-2. 

Ensaios clínicos: O número de voluntários do estudo realizado no Brasil foi de 10.000 pessoas.

Número de doses / intervalo: Possui a indicação de aplicar duas doses da vacina, com intervalo de 4 a 12 semanas entre elas.

Faixa etária: indicada são para os maiores de 18 anos. No dia 10 de maio (2021), a ANVISA recomendou a suspensão imediata da aplicação do imunizante em gestantes, como modo de precaução devido ao surgimento de evento adverso grave registrado (acidente vascular cerebral hemorrágico).

Armazenamento: A temperatura de conservação é de 2 a 8 graus celsius. Registro concedido em 12 de março de 2021.

Registro emergência: Registro concedido em 12 de março de 2021.

Eficácia: após a 1ª dose possui 76%, dos 22 aos 90 dias após a aplicação; depois da 2ª dose, a eficácia sobe para 82,4%, para casos sintomáticos; porém para casos graves da doença, a eficácia é de 100%, já que não foi registrado internações. (o registro de eficácia foi a partir do estudo registrado no artigo: “Single Dose Administration, And The Influence Of The Timing Of The Booster Dose On Immunogenicity and Efficacy Of ChAdOx1 nCoV-19 (AZD1222) Vaccine”, site da FioCruz).

Pfizer: É produzida pela farmacêutica Pfizer em parceria com o laboratório BioNTech.

Tecnologia: se baseia na tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). A função do mRNA sintético é de dar as instruções ao organismo para a produção de proteínas encontradas na superfície do novo coronavírus, que estimulam a resposta do sistema imune.

Ensaios clínicos: Teve 2.000 pessoas como voluntários em estudos no Brasil.

Número de doses / intervalo: É indicado a aplicação de 2 doses, com o intervalo de pelo menos 21 dias entre elas.

Faixa etária: autorizada a partir dos 12 anos. Este é o primeiro imunizante indicado para o grupo menores de 18 anos.

Armazenamento: Pode ser armazenada por até cinco dias em temperaturas de 2 a 8°C; entre -25 e -15ºC por até duas semanas e entre -90 e -60ºC após este período.

Registro emergência: foi concedido o registro definitivo (contra a covid-19) no Brasil, concedido em 23 de fevereiro de 2021.

Eficácia: A eficácia comprovada em adultos foi de 95% para enfermidade sintomática e 100% para internações; em adolescentes entre 12 e 15 anos, após a 1ª dose foi de 75% e após a 2ª dose foi de 100%; e para adolescentes acima de 16 anos, a comprovação foi superior a 95%.

Janssen: O responsável por sua produção é grupo Johnson & Johnson juntamente com o laboratório Janssen-Cilag. 

Tecnologia: utiliza a tecnologia de vetor viral, com o adenovírus do sorotipo 26 (Ad26).  

Ensaios clínicos: Teve 7.500 pessoas como voluntários em estudos no Brasil.

Número de doses / intervalo: É o único imunizante autorizado no Brasil que necessita somente de uma dose de aplicação.

Faixa etária: autorizada para maiores de 18 anos.

Armazenamento: A temperatura de armazenamento indicada varia entre 2 e 8 graus celsius, possui prazo de validade de quatro meses e meio e depois de aberto o frasco precisa ser utilizado em até seis horas.

Registro emergência: O registro foi concedido em 31 de março de 2021.

Eficácia: A eficácia divulgada pela própria é de 66,9% de eficácia para casos leves, em indivíduos acima de 18 anos; e eficácia de 76,7% após 14 dias de vacinação e de 85,4% após 28 dias de vacinação, ambos, para casos graves.

Diante das informações acima, surge o questionamento: como se comporta a transmissão do vírus da covis-19 após a vacinação?

É de conhecimento de que mesmo após a vacinação o vírus continua a circular e que não adianta uma só pessoa da mesma família se vacinar e as outras não, pois o vírus segue infectando. Todos, que tiverem indicação, tem que realizar a imunização para estarem protegidos. 

A princípio, o objetivo ideal seria a criação de uma vacina capaz de gerar ‘imunidade de rebanho’, a qual resultaria num bloqueio imediato da transmissão do vírus, em pelo menos 70% da população. 

Como a busca por este tipo de imunizante além de extremamente custoso demandaria um tempo do qual não se dispunha em tempos de crise e urgência como o de uma pandemia busca-se então a segunda melhor alternativa, a qual seria realizar a vacinação de pelo menos 60% a 70% da população mundial para que haja de fato uma menor circulação do vírus. 

O maior desafio dessa metodologia, porém, seria a imensa diversidade econômica mundial, não congruência de políticas sanitárias e limitada disponibilidade de vacinas, desta forma mesmo às portas do segundo ano de pandemia a busca por uma imunização global de pelo menos 60% da população ainda se encontra bastante distante. 

Com a vacinação acontecendo progressivamente, tem surgido uma pergunta frequente: mesmo depois de vacinado, o vírus tem o mesmo nível de transmissão do que antes da imunização completa? Alguns estudos tem verificado que a transmissibilidade tem se mostrado em queda. 

Porém, como a aplicação dos imunizantes e os estudos são muito recentes, ainda não foi possível chegar em um consenso seguro sobre o tema.

 No artigo ‘Prevenção e atenuação de Covid-19 com as vacinas BNT162b2 e mRNA-1273’ que compara a eficácia das vacinas da Pfizer e da Moderna, mostrou que após a vacinação completa, a transmissibilidade do vírus SARS-CoV-2 diminui em 40% na faixa etária entre 16 e 57 anos (com um intervalo de confiança de 95%).

Já em um estudo realizado na Inglaterra, publicado em 28 de abril de 2021, em ‘Public Health England’, que é a agencia de saúde pública da Inglaterra, com o título de ‘Impact of vaccination on household transmission of SARS-COV-2 in England’ , relatou que a probabilidade de transmissão domiciliar é de 40% a 50% menor para famílias em que os casos-índices são vacinados 21 dias ou mais antes do teste positivo, isso quando comparado com pessoa não vacinadas; os efeitos foram semelhantes tanto para quem foi imunizado com a Pfizer quanto com a AstraZeneca. A idade dos participantes era menor a 70 anos.

Um outro ponto importante de ser citado, seria a transmissão dos anticorpos pós imunização, através da amamentação. Por meio da Lei Federal n º 14.190/21, que inclui como grupo prioritário no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 de gestantes, puérperas e lactantes, bem como de crianças e adolescentes com deficiência permanente, com comorbidade ou privados de liberdade.

As vacinas que devem ser evitadas no período puerperal seriam as que utilizam o “vetor viral” como base, por sua alta incidência de trombofilía nas pacientes (mães). 

Por meio de estudo realizado pelo Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), realizado pelo Instituto da Criança e do Adolescente, indicou presença de anticorpos no leite das participantes do estudo, as quais foram imunizadas pela CoronaVac (produzida pelo Instituto Butantan), transmitindo uma relevante carga de anticorpos aos lactentes. 

Outro ponto identificado foi que a segunda dose fornece um incremento significativo no nível de anticorpos das gestantes e que se mantiveram no leite materno (IgA), sendo extremamente importante por possuir uma coleção de anticorpos acumulados ao longo da vida da gestante, mesmo após alguns meses de amamentação, haja vista que ocorreria uma reposição mais frequente desses anticorpos devido ao aleitamento recorrente ao bebê. 

Também foi constatado de que já há uma certa transferência de anticorpos através da placenta, pelo anticorpo IgG, porém se mantém por um período mais curto no sistema do infante.

Estudos equivalentes com resultados similares foram realizados em Israel, Estados Unidos e a Espanha só que utilizando as vacinas da Pfizer, Moderna e AstraZeneca. Como o estudo foi realizado com a CoronaVac e ela é o imunizante mais prevalente no Brasil, ficou registrado que ela é eficaz para o objetivo.

Por se tratarem de imunizantes recentes criados com o objetivo de combater uma patologia ainda pouco explorada em alguns aspectos, ainda são raros os estudos conclusivos acerca dos efeitos da vacinação sobre a taxa de transmissão e os efeitos secundários pós vacinação para cada um dos imunizantes utilizados, uma constante que se tem observado em quase todos estes, porém, é necessário realizar a imunização rápida e efetiva da população, com qualquer das vacinas disponíveis, a fim de se conseguir, ao menos, uma redução expressiva na taxa de transmissão do vírus.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências

Site ANVISA, tipos de vacinas Brasil: 

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas

Instituto Butantan, site: 

https://butantan.gov.br/covid/butantan-tira-duvida/tira-duvida-noticias/quais-sao-as-diferencas-entre-as-vacinas-contra-covid-19-que-estao-sendo-aplicadas-no-brasil

Ministério da saúde, site: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas

CoronaVac, site Ministério da saúde: 

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas/coronavac

CoronaVac, site Organização Mundial da Saúde (OMS): 

https://www.who.int/news/item/01-06-2021-who-validates-sinovac-covid-19-vaccine-for-emergency-use-and-issues-interim-policy-recommendations?gclid=CjwKCAjwj8eJBhA5EiwAg3z0m75Hpq_twyR8GSzKATFXOiUNRGxA1DFhSTF_Qg8gx8miGVuEJczSVxoCQbQQAvD_BwE

AstraZeneca, site Ministério da Saúde: 

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas/astrazeneca    e 

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2021/comunicado-suspensao-da-vacina-da-astrazeneca-para-gestantes

Artigo – AstraZeneca: “Single Dose Administration, And The Influence Of The Timing Of The Booster Dose On Immunogenicity and Efficacy Of ChAdOx1 nCoV-19 (AZD1222) Vaccine”, revista ‘The Lancet’; 🡪 Site FioCruz: https://portal.fiocruz.br/noticia/vacina-covid-19-fiocruz-tem-eficacia-geral-de-82

AstraZeneca eficácia, site Fiocruz: https://portal.fiocruz.br/noticia/vacina-covid-19-fiocruz-tem-eficacia-geral-de-82

Pfizer, site Ministério da Saúde: 

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas/pfizer

Janssen, site Ministério da Saúde: 

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas/janssen

Artigo Pfizer: Prevenção e atenuação de Covid-19 com as vacinas. BNT162b2 e mRNA-1273; Publicação: 22 julho 2012; Revista virtual: N Engl J Med 2021; 385: 320-329 DOI: 10.1056 / NEJMoa2107058. Link site: https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa2107058

Artigo Pfizer: Segurança, imunogenicidade e eficácia da vacina. BNT162b2 Covid-19 em adolescentes. Publicado em N Engl J Med 2021; 385: 239-250 DOI: 10.1056 / NEJMoa2107456. Em 15 de julho de 2021. Link do site: https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa2107456

Artigo Inglês, Pfizer – AstraZeneca: Impact of vaccination on household transmission of SARS-COV-2 in England. publicado em 28 de abril de 2021, em ‘Public Health England’. Link site: https://static.poder360.com.br/2021/04/public-health-1stdose-abr2021.pdfImunização pelo aleitamento materno, link site: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/anticorpos-da-covid-19-em-maes-vacinadas-estao-presentes-em-leite-materno-diz-estudo/