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Conhecendo o hipotireoidismo: Do quadro clínico até o diagnóstico e ao tratamento | Colunistas

Conhecendo o hipotireoidismo: Do quadro clínico até o diagnóstico e ao tratamento | Colunistas

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Introdução

O hipotireoidismo é uma síndrome endócrina resultante de uma deficiência na produção ou na ação dos hormônios da tireoide, esse déficit consequentemente  causa uma diminuição do processo metabólico de todo o corpo, o que caracteriza o quadro clínico do paciente com tal patologia. Atualmente é a doença tireoidiana mais prevalente, acometendo 2% da população brasileira e 15% da população idosa (acima dos 60 anos). É uma doença amplamente feminina, numa proporção de 8:1 e pode ser subclassificada em alguns tipos:

  • O hipotireoidismo primário: É decorrente de alterações primárias na glândula tireoide, levando a um mau funcionamento desta e consequente prejuízo para o metabolismo, é o principal causador do hipotireoidismo (responsável por 9 em 10 casos), sendo causado principalmente pela síndrome de Hashimoto, outras causas são, uso de medicamentos(amiodarona e lítio), procedimentos médicos (radioiodoterapia, tireoidectomia).
  • O hipotireoidismo secundário: O secundário por sua vez, normalmente se dá em consequência de falha hipofisária, normalmente uma deficiência na produção do hormônio TSH (Tireoestimulante).
  • O hipotireoidismo terciário: O terciário se dá principalmente por uma deficiência no topo da cascata hormonal, no hipotálamo, normalmente ocorre uma diminuição, parcial ou total da produção do hormônio TRH (Liberador da tireotrofina) que desencadeia o processo patológico do hipotireoidismo.
Glândula tireoide. Fonte: Doutor tireoide
Glândula tireoide. Fonte: Doutor tireoide

Quadro clínico

O quadro clínico do hipotireoidismo é bem característico, decorrente da lentificação do metabolismo corporal, os principais sinais e sintomas são: Astenia, diminuição dos reflexos superficiais (reflexo de aquileu mais lentificado), pele seca e áspera, parestesias pelo corpo, sonolência, sensibilidade ao frio, edema periorbital, alterações no ciclo menstrual (aumento ou diminuição), Ganho ponderal, Bócio, Constipação intestinal, alterações de memória e de cognição, rouquidão, diminuição da concentração, artralgia, palidez, queda de cabelos, cefaleia, madarose (queda dos pelos das sobrancelhas), bradicardia, alterações de audição, dispneia ao esforço, hipertensão diastólica (convergência das pressões), derrame pericárdico, derrame pleural, dor precordial e ascite.

A diminuição do metabolismo vai causar também alterações nos exames laboratoriais dentre elas as principais são: Aumento do colesterol total, aumento da apoproteína B, aumento da Homocisteína, Aumento das transaminases, da CPK, da DHL, do CEA e da CK-MB, além de diminuição do sódio sérico e da vitamina D.

Diagnóstico

O diagnóstico do hipotireoidismo é eminentemente laboratorial, pois as manifestações clínicas são inespecíficas para chegar ao diagnóstico completo dessa patologia. Na suspeita de um quadro de hipotireoidismo (presença de sinais inespecíficos associado ao quadro de fatores de risco) o primeiro exame que deve ser solicitado é o TSH, o hormônio tireoestimulante, a partir do resultado desse é que se define a conduta.

Caso ocorra uma alteração desse TSH e ele venha elevado, solicitasse o T4 livre ou T4 total, um desses dois vindo alterado, no caso reduzido, fecha-se o diagnóstico de hipotireoidismo primário.

Caso o TSH venha normal, porém o paciente apresente sintomas clínicos indicativos de hipotireoidismo repete-se novamente esse TSH e solicita-se T4 livre, para a investigação de hipotireoidismo primário ou central(secundário e terciário).

Por fim, caso o TSH venha diminuído deve-se seguir investigação para diagnóstico de hipertireoidismo e não para hipotireoidismo, assim solicita-se T3 e T4 livre.

Ademais, existe o hipotireoidismo subclínico, que tem como característica um TSH muito alto e o T4 livre e T4 total dentro da normalidade, nesse caso o diagnóstico, inicialmente não pode ser fechado, mantendo apenas a hipótese e em seguida, após 12 semanas refazer os exames de TSH e T4 livre. Além disso, o Anti-TPO, um anticorpo autoimune, pode ser solicitado para auxiliar na escolha de se iniciar ou não o tratamento do paciente.

Observação: Os valores de referência são – TSH entre 0,4 e 4,12 mcUi/ml; T4 Total entre 6,09 e 12,23 mcg/dl; T4 livre entre 0,58 e 1,64 ng/dl; T3 total entre 87 e 178 ng/dl.

Tratamento

O tratamento inicial é realizado com a levotiroxina, o hormônio T4 (nome comercial Puran) ele deve ser tomado diariamente, em jejum e 30 minutos antes da primeira refeição do dia, lembrando que ele é um remédio de uso contínuo que deve ser tomado durante o resto da vida. Em pacientes saudáveis e não idosos, a dose é calculada pelo peso, recomenda-se a dose plena de 1,6 µg/kg/dia. Por sua vez aqueles pacientes idosos, ou com alguma doença cardíaca prévia devem fazer dose inicial de 25 µg/dia e escalonar a dose quinzenalmente duplicando-a até atingir a dose adequada para o tratamento da doença (para esse escalonamento deve-se realizar a medição do TSH, para avaliar o efeito da medicação).

Por sua vez, o hipotireoidismo subclínico nem sempre deve ser tratado, há indicação apenas quando paciente apresenta um TSH acima de 10 mcUi/ml ou então quando ele apresenta um TSH entre 7 mcUi/ml e 10 mcUi/ml e tem menos de 65 anos ou então mais de 65 anos com sintomas clínicos do hipotireoidismo. Nesse caso o tratamento é feito com uma dose reduzida, recomenda-se o uso de levotiroxina com doses entre 25 e 75 µg/dia com avaliação do TSH para identificar a boa resposta ao tratamento. Observação: Naqueles pacientes com hipotireoidismo subclínico em que se escolhe não fazer a reposição hormonal é recomendado a repetição do TSH para uma nova avaliação após 6 meses. Após o início do tratamento, é preconizado um acompanhamento para ajuste da dose do hormônio até que esse alcance seu potencial terapêutico e a tireoide atinja sua normalidade, para isso recomenda-se a monitorização do hormônio TSH,  com esse sendo repetido a cada 2 meses até atingir valores dentro do padrão esperado, após atingir a meta terapêutica recomenda-se acompanhamento semestralmente, no primeiro ano e após o 2 ano acompanhamento anual.

Autoria: Saulo Borges de Brito

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Email:saulobb99@gmail.com

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

1) VILAR, Lucio. Endocrinologia Clínica. [Barueri – SP]: Grupo GEN, 2020.