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Conhecendo o inimigo: patógenos que representam risco de pandemia | Colunistas

Conhecendo o inimigo: patógenos que representam risco de pandemia | Colunistas

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Isabelle Stapf

7 min há 47 dias

            Cientistas do mundo todo buscam antever quais patógenos poderiam representar risco de novas pandemias no futuro. Esta busca é importante pois estimula pesquisas na área, que podem diminuir os danos trazidos pelas novas doenças. Além disso, alertam que o cenário encontrado hoje no mundo é extremamente propício para o desenvolvimento de pandemias.

Introdução

            Em dezembro de 2019, na província de Wuhan, China, foram relatados casos de pneumonia de origem desconhecida. Posteriormente, seria identificado um vírus até então desconhecido como causador desta doença: o SARS-CoV-2. Com alta virulência, este patógeno foi responsável pela disseminação mundial da doença em poucos meses, e hoje, quase um ano e meio após os primeiros casos chineses, as consequências mundiais são catastróficas: mais de 143 milhões de casos confirmados e de 3 milhões de mortes, com os números crescendo a velocidades assustadoras; colapsos nos sistemas de saúde ao redor do mundo; e consequências sociais e econômicas imensuráveis.

Início da pandemia do coronavírus, na China, tem sido investigado pela OMS (https://www.nsctotal.com.br/noticias/um-ano-inicio-pandemia-coronavirus-origem-e-futuro-da-doenca – acesso em 22/04/2021)

            A sensação é a de que ninguém poderia ter previsto tal cenário. E, de fato, as consequências superaram as piores expectativas da população. No entanto, ainda em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado para os riscos de uma emergência na saúde pública derivada da SARS (síndrome respiratória aguda severa). Além disso, já se previa a possibilidade de uma doença que poderia provocar uma grave epidemia internacional, causada por um patógeno atualmente desconhecido.

Lista “blueprint” de doenças prioritárias

            Em fevereiro de 2018, a OMS publicou uma revisão de sua lista de agentes patogênicos prioritários. Essa lista elenca os principais patógenos que podem vir a causar uma emergência de saúde pública. Seu objetivo é alertar a comunidade científica para a necessidade de pesquisa e desenvolvimento de tratamentos e vacinas para ajudar a controlar os possíveis surtos. Na lista de 2018, estavam elencadas oito doenças: febre hemorrágica da Crimeia-Congo; doença do vírus ebola e febre hemorrágico de Marburgo; febre de Lassa; síndrome respiratória coronavírus do Oriente Médio (MERS) e síndrome respiratória aguda severa (SARS); infecção pelo vírus Nipah e doenças relacionadas aos henipavírus; febre de Vale do Rift; vírus zika; e doença x.

É interessante destacar a presença, na lista, da síndrome respiratória coronavírus do Oriente Médio (MERS), síndrome respiratória aguda severa (SARS) e a “doença X”, esta representando o conhecimento de que pode ocorrer uma grave epidemia, provocada por um patógeno atualmente desconhecido. Todas estas doenças remetem à pandemia de COVID-19, sendo possível perceber que esta já havia sido “prevista”, de certo modo.

Uma “tempestade quase perfeita”

            Não é à toa que esse estudo das possíveis pandemias futuras se faz tão necessário. O professor Matthew Baylis, da Universidade de Liverpool, disse, em entrevista à BBC, que “criamos uma tempestade quase perfeita para o surgimento de pandemias”. Essa “tempestade” diz respeito a diversas questões socioambientais da atualidade, como o aquecimento global, a destruição do meio ambiente, a invasão humanas às áreas naturais e o agronegócio. Estas questões trazem em comum o aumento do contato com a vida selvagem e o possível contato com doenças desse meio.

            As evidências científicas atuais sugerem que, em ambientes com menor biodiversidade, como aqueles utilizados para agricultura e pecuária em larga escala, há um maior risco de infecções de algumas doenças, especialmente aquelas presentes em animais. Diversos surtos de doenças com esse mecanismo já foram catalogados. O Brasil, segundo essa lógica, é um país com alto risco de ser a origem de uma nova pandemia.

            Nesse contexto, a OMS estimula a adoção do conceito de saúde “One Health”. O conceito “One Health” ou “Saúde Única” propõe que se abra um espaço nas discussões científicas para um conceito de saúde que integre a saúde humana, animal e ambiental. Dessa forma, se buscaria a adoção de medidas efetivas para prevenir e controlar estes possíveis surtos futuros.

Conceito de “One Health”, que engloba saúde ambiental, humana e animal (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:One-Health-Triad-en.png – acesso em 22/04/2021)

Os patógenos:

A OMS monta a lista “blueprint” levando em consideração alguns fatores, como o potencial dos patógenos de promover uma emergência de saúde pública, a ausência de meios de tratamento e prevenção e a dificuldade diagnóstica. No entanto, a última revisão da lista foi feita antes da pandemia.

Cientistas buscam reconhecer padrões para estratificar quais doenças da vida selvagem representam mais riscos para os seres humanos (https://www.bbc.com/portuguese/geral-52955588 – acesso em 22/04/2021)

            Tendo em vista o cenário pandêmico, pesquisadores brasileiros publicaram uma carta na revista The Lancet, um dos periódicos de maior prestígio na área da Biomedicina. Nesta carta, alertam para o risco do surgimento de novas doenças no Brasil, tendo em vista os retrocessos atuais nas políticas socioambientais no país. Além disso, defendem a criação de um sistema integrado de vigilância de doenças silvestres, além da cooperação transfronteiriça e multilateral para seu controle.

Conclusão

            Existem esforços contínuos para determinar quais são os patógenos que oferecem risco de desenvolvimento de novas pandemias e emergências na saúde pública mundial. No entanto, mais do que apenas elencar estes patógenos, é importante compreender duas coisas: que a situação ambiental que vivemos hoje é um enorme fator de risco para o surgimento destes novos surtos; e que a comunidade científica deve voltar seus esforços para tentar minimizar os danos destas pandemias futuras.

Autora: Isabelle Stapf

Instagram: @isastapf

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

OMS divulga lista de doenças e patógenos prioritárias para pesquisa e desenvolvimento em 2018 – https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5595:oms-divulga-lista-de-doencas-e-patogenos-prioritarios-para-pesquisa-e-desenvolvimento-em-2018&Itemid=812

Pesquisadores alertam para risco da emergência de novas doenças – https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisadores-alertam-para-risco-da-emergencia-de-novas-doencas

Coronavírus: os cientistas que tentam prever qual pode ser a próxima pandemia – https://www.bbc.com/portuguese/geral-52955588

Epidemias, um outro risco do aquecimento global – https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/08/17/interna_internacional,1176745/epidemias-um-outro-risco-do-aquecimento-global.shtml

Pandemia de COVID-19 – https://pt.wikipedia.org/wiki/Pandemia_de_COVID-19#Hist%C3%B3ria

Casos de coronavírus pelo mundo – https://especiais.gazetadopovo.com.br/coronavirus/casos-no-mundo/

One Health: você conhece o conceito de saúde única? – http://bioemfoco.com.br/noticia/one-health-conceito-saude-unica/

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