Ciclos da Medicina

Consequências do uso indiscriminado dos “kits covid” | Colunistas

Consequências do uso indiscriminado dos “kits covid” | Colunistas

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A infecção pelo SARS-CoV-2 desafia o mundo. É a maior emergência na saúde pública internacional já declarada. Além da dificuldade em manejar a doença, a lotação nas UTIs, falta de insumos médicos, falta de profissionais para atuar na linha de frente, distribuição lenta das vacinas, novas variantes do vírus, baixos estoques de oxigênio, alta transmissibilidade do vírus e tratamento medicamentoso não disponível agravaram ainda mais a situação da pandemia e deixou o Brasil à beira de um colapso do sistema de saúde.

Desde o início da pandemia, antes da existência de alguma possível vacina, muitos medicamentos utilizados em outras doenças foram propostos como possibilidades terapêuticas contra COVID-19 (por conta dos mecanismos de ação viral no organismo humano) – entre eles a cloroquina e a hidroxicloroquina, a ivermectina, a nitazoxanida, o remdesivir e a azitromicina. Mesmo sem comprovação de eficácia, vários países iniciaram o uso desses medicamentos e o Brasil está entre eles, criando, então, o “kit-covid”.

Com o passar do tempo, foram surgindo inúmeras pesquisas sobre a eficácia desses medicamentos que, ao se mostrarem negativas, fizeram os países gradativamente descartarem os protocolos que envolviam essas drogas. Mas, no Brasil, enxurradas de falsas alegações e testemunhos levaram a contínuas brigas políticas pautando então, a manutenção/descarte dos protocolos que envolviam esse kit que, consequentemente, continua circulando e criando problemas ainda maiores que serão apresentados a seguir.

Como é a infecção viral?

A reprodução viral ocorre em uma sequência de eventos que envolve a entrada do vírus em uma célula capaz de sustentar o processo. A sequência de eventos é composta por adsorção, penetração, desnudamento, replicação, maturação e liberação.

A adsorção é a união do vírus ao receptor celular (proteína, carboidrato, lipídeo) de forma física. Os receptores de atuação dos vírus são diferentes conforme sua composição. A próxima etapa é a penetração do vírus na célula, que ocorre de modo diferente para vírus envelopados e não envelopados. Nos envelopados (caso do coronavírus) há formação de vesícula ao redor do vírus por invaginação da membrana plasmática da célula hospedeira. E então, há ação do endossoma, cujo baixo pH permite fusão do envelope com a membrana desta organela.

A etapa seguinte é o desnudamento, a separação física das proteínas do capsídeo e genoma viral. Após essa etapa, o genoma fica livre no citoplasma para dar início à síntese de material genético viral. Então ocorre a maturação, quando há produção de proteínas estruturais e estas se associam para formação da partícula viral em sua estrutura completa. A partir desse ponto, pode ocorrer a liberação que, nos envelopados, pode ocorrer por brotamento (usa membrana celular) ou exocitose (usa membranas internas).

Figura 1 – Ciclo viral do SARS-CoV-2 – Fonte: http://www.risingtidebio.com/coronavirus-vaccine-treatment/

Como os mecanismos de infecção inspiraram o kit covid

Sabendo o ciclo viral do coronavírus, pesquisadores procuraram medicamentos já existentes no mercado que pudessem agir nos pontos críticos desse ciclo (o ataque à célula hospedeira, a inserção do material genético, a replicação dos componentes virais – genéticos ou estruturais, montagem do vírus e disseminação dos vírus montados no hospedeiro).

Com o entendimento dos mecanismos de ação dessas drogas e elucidação do ciclo viral, foram desenvolvidos diversos estudos para provar a eficácia desses medicamentos ou a possibilidade de um coquetel medicamentoso que fosse capaz de impedir a infecção das células humanas com o vírus da SARS-CoV-2.

Figura 2 – Possíveis drogas para o combate do coronavírus e sua relação com o ciclo viral – Fonte: https://www.invivogen.com/spotlight-covid-19-treatment-repurposed-drugs

Implantação do kit covid

Em meio a um número crescente de casos e mortes, uma parcela dos médicos, uma parcela da população e até o Ministério da Saúde defenderam o suposto tratamento precoce (kit covid – hidroxicloroquina, a azitromicina, a ivermectina e a nitazoxanida, além dos suplementos de zinco e das vitaminas C e D) contra o coronavírus. Além de não ser reconhecido, o kit chega a ser contraindicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

O potencial da hidroxicloroquina contra a covid-19 começou a ser explorado a partir de um pequeno trabalho publicado na China e ganhou forças quando médico francês Didier Raoult e por sua equipe seguiram os estudos. E, de acordo com as conclusões, os benefícios desse fármaco eram ainda maiores se a azitromicina (antibiótico) fosse administrada em conjunto. Ainda no primeiro semestre de 2020, o estudo foi considerado inválido, não fazendo diferença nas taxas de mortalidade e necessidade de UTI ou oxigênio. Mas nesse ponto, a droga já havia sido promovida pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (que já havia, inclusive, anunciado que o laboratório do Exército Brasileiro iria ampliar a fabricação da hidroxicloroquina).

A partir do segundo semestre de 2020, a ivermectina passou a ganhar destaque como outra promessa contra a covid-19. Mais uma vez a pesquisa usou dados incertos. A dose proposta para combate do vírus, quando calculada para humanos, era dez vezes superior ao limite considerado seguro, representando risco de efeitos colaterais gravíssimos e de possível overdose nos pacientes.

Já em setembro de 2020, um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na Lancet, afirmou que a azitromicina não leva a melhoras em pacientes hospitalizados e, portanto, não tem indicação de uso para casos graves.

Outro vermífugo, a nitazoxanida, ganhou destaque para o controle do coronavírus. Alguns dias depois, os resultados do European Respiratory Journal se mostraram muito fracos e sem aplicação prática.

O único fármaco que não teve respostas negativas foi a dexametasona. Um estudo da Universidade de Oxford, revelou o medicamento como um valioso aliado para os quadros que necessitam de internação (mas não relacionado à tratamento precoce).

Concluímos, então, que até o momento não existe comprovação da segurança e eficiência de nenhum remédio como preventivo para o coronavírus. Mas o uso indiscriminado dos medicamentos citados traz consequências tanto ambientais quanto para os indivíduos que os usarem.

Figura 3 – KIT COVID – Fonte: https://revistanews.com.br/2020/08/03/bento-goncalves-ja-distribuiu-413-kits-do-tratamento-precoce-da-covid-19/ e http://www.bentogoncalves.rs.gov.br/noticia/3307-kits-do-tratamento-precoce-contra-covid-19-ja-foram-distribuidos-em-bento

Efeitos adversos do uso do kit covid

Hidroxicloroquina e cloroquina têm fórmulas diferentes, mas atuação similar – seu uso indiscriminado está relacionado à aumento do risco de prolongamento do intervalo QT em pacientes com insuficiência renal, risco de hipoglicemia grave, possibilidade de hemólise e distúrbios psiquiátricos, distúrbios do sistema nervoso e distúrbios oculares.

A azitromicina é um antibiótico, portanto, seu uso pode propiciar infecção bacteriana secundária e levar a seleção artificial de bactérias, podendo conferir resistência.

A ivermectina, nas doses recomendadas para o tratamento precoce da covid, podem levar à intoxicação, em alguns casos mais graves, pode ser necessário transplante hepático. Como foi o caso de um jovem que tomou 18mg diários do remédio e apresentou hepatite medicamentosa.

A dexametasona é um glicocorticoide que, com uso intenso, aumenta o risco de infecções (imunossupressão), gastrite (ou úlcera) e desenvolvimento de diabetes mellitus, hipertensão e glaucoma.

Em relação às consequências ambientais, fala-se sobre o efeito dos fármacos despejados em rios ou solo. Além dos problemas já conhecidos da presença de antibióticos e anti-inflamatórios (resistência bacteriana, problemas reprodutivos em animais).

Conclusão

Ao fazer a prescrição de qualquer medicamento é necessário que o médico tenha respaldo técnico e embasamento científico, seguindo a medicina baseada em evidências. Não é ideal receitar um fármaco por pressão social, do paciente ou do hospital. É importante que a busca por um medicamento eficaz no tratamento precoce seja continuada, mas que seu uso só seja realizado em massa após comprovação científica, a fim de se evitarem casos de complicações, como as aqui citadas, por uso indiscriminado de substâncias inúteis aos tratamentos.

Enquanto a vacina não está disponível em massa e nenhum tratamento precoce se mostra eficaz, é necessário que a população colabore ao máximo com as medidas de distanciamento social, uso de máscara e álcool em gel.

Autora: Gabrielle Schneid

Instagram: @g.schneid

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Gostin, LO. The great coronavirus pandemic of 2020 – 7 critical lessons. JAMA 2020; 324:1816-7

http://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp/artigo/1312/o-kit-covid-e-o-programa-farmacia-popular-do-brasil#C1

https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/02/11/medico-alerta-que-uso-de-ivermectina-contra-covid-pode-gerar-hepatite-aguda.htm

https://www.em.com.br/app/noticia/bem-viver/2021/02/15/interna_bem_viver,1237874/kit-covid-entenda-mecanismos-de-remedios-indicados-e-reacoes-adversas.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/02/cientistas-alertam-para-riscos-ambientais-de-uso-em-excesso-do-kit-covid.shtml

https://noticias.r7.com/saude/kit-covid-pode-causar-resistencia-bacteriana-alertam-medicos-21012021

https://www.metropoles.com/brasil/letalidade-da-covid-no-brasil-aumenta-com-lotacao-de-utis

https://www.invivogen.com/spotlight-covid-19-treatment-repurposed-drugs

https://medicalxpress.com/news/2020-02-drugs-first-line-treatment-coronavirus-outbreak.html

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