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Coordenação motora fina: a perícia das mãos | Colunistas

Coordenação motora fina: a perícia das mãos | Colunistas

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Imagem de perfil de Ana Beatriz Santana

Não se engana aquele que associa a coordenação motora fina à destreza das mãos humanas. Quando os nossos ancestrais assumiram a postura bípede, esses delicados e inteligentes instrumentos tornaram-se livres para contribuírem em uma das grandes marcas do avanço humano: as habilidades motoras.

Não só apreender objetos, mas principalmente desenvolver a capacidade de manipulá-los, a partir de movimentos coordenados, seria o início da perícia manual.

Um dos grandes marcos na História da inteligência humana está marcado no surgimento da escrita. O ato de segurar um lápis e manipulá-lo de tal forma a traçar símbolos numa folha de papel exige o recrutamento de diversos músculos da mão, assim como um planejamento de movimentos que percorrem vias do nosso sistema nervoso central e periférico.

Ao presenciar uma criança recortando figuras de uma revista, um artista em sua tela, um pianista e um cirurgião, estamos diante de exemplos de motricidade fina. Para tanto, diversos agentes, como os núcleos da base, a medula espinal, pequenos músculos e ossos, atuam unindo suas competências para manejar objetos, a partir de movimentos delicados e precisos.

Neste texto, falaremos de forma breve sobre a fisiologia do movimento e sua modulação, assim como sobre quais são os fatores que influenciam no desenvolvimento da coordenação motora fina.

O que é coordenação motora fina?

Destreza. Precisão. Controle.

Motricidade global e motricidade fina: qual a diferença?

A unidade motora do movimento é o músculo. Grupamentos musculares podem, portanto, atuar de forma conjunta para executar diferentes formas de motricidade, entre elas a global e a fina.

A motricidade global, sendo a primeira que aperfeiçoamos na infância, está  associada aos grandes músculos, que nos permitem movimentos amplos como empurrar caixas e correr. A motricidade fina, por outro lado, está relacionada aos movimentos mais refinados, que exigem perícia manual e são executados por pequenos músculos. A motricidade fina permite-nos o ato da costura, o de manejar o arco e flecha e de tocar instrumentos musicais, por exemplo.

                     Figura 1. A Mão do violinista, 1912. Óleo sobre tela. Giácomo Balla

As habilidades motoras finas, como abotoar camisas e desenhar figuras, envolvem a coordenação de músculos pequenos e coordenação entre olhos e mãos. Estas habilidades permitem às crianças um maior senso de responsabilidade e cuidado pessoal (PAPALIA; OLDS, 2000).

A fisiologia do movimento: os caminhos da motricidade

A geração do movimento

A geração do movimento envolve três etapas: estratégia,tática e execução.

Na estratégia é definido o objetivo que se almeja atingir ao executar determinado movimento e qual movimento melhor atingiria essa finalidade. A etapa da tática, por sua vez, envolve sequências de contrações musculares que são necessárias para atingir de forma precisa o movimento desejado. Podemos citar o córtex motor e o cerebelo como estruturas envolvidas nessa etapa. Já na execução, em que ocorre atuação especial do tronco encefálico e da medula espinal, há ativação de neurônios e de interneurônios para que o movimento desejado ocorra, além de ajustes durante sua realização.

Diante dessa breve explanação sobre o processamento e execução dos movimentos, vimos que vários agentes estão envolvidos. Entretanto, ao focarmos nos movimentos voluntários finos, destacam-se estruturas como o córtex cerebral e os núcleos da base.O processamento das informações segue um caminho que inicia no córtex cerebral, o qual cria ordens e comandos para os músculos.

Durante o planejamento do movimento, o córtex cerebral envia impulsos e informações para os núcleos da base. Esses, atuando como zonas de processamento, transmitem os impulsos para possibilitar a realização do próximo movimento para regiões como o tálamo e, a partir dele, temos a retransmissão em direção ao córtex.

Os músculos então recebem as coordenadas para ajustar o movimento por meio dos tratos do sistema motor piramidal.

Mas como essa informação alcança os músculos? Essas ordens passam pelas vias do sistema piramidal e conectam-se com os núcleos dos nervos cranianos e com os neurônios motores da medula espinal por meio de sinapses, para que assim possam atingir os músculos alvo.

A modulação

Mas como determinar se o comando que chega aos músculos irá gerar um movimento mais grosseiro ou mais sutil? Como organizar a intensidade e a precisão do movimento voluntário?

Um movimento voluntário é caracterizado por várias características, dentre elas o seu nível de intensidade e velocidade. Para tanto, é necessário que, previamente, tenhamos um mecanismo de previsão dos próximos movimentos e de ajuste do movimento já em execução.

Para isso, contamos com os centros motores acessórios, como os núcleos da base. Os núcleos da base tem diversas funções, que influenciam na nossa memória, nos movimentos oculares e nos processos de motivação e recompensa. Mas aqui trataremos do seu papel em modular os nossos movimentos e, com isso, permitir que realizemos atos voluntários finos de forma bem coordenada.

A localização dos núcleos da base trás uma grande vantagem: por não estarem tão próximos uns dos outros, funcionam como uma interconexão para diversas vias, atuando na união funcional do corpo.

Esses núcleos  atuam como zonas de retransmissão, uma vez que captam e processam informações aferentes do córtex e depois retransmitem para o tálamo. Dessa maneira, funcionam como moduladores do movimento. O tálamo, por sua vez, direciona essas informações para o cérebro, em especial de volta ao córtex e ao tronco encefálico.

Figura 3. Núcleos da base. Fonte: NETTER, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

O desenvolvimento da coordenação motora fina

Desde os primeiros anos de vida até os nossos últimos suspiros, estamos aprendendo novos movimentos e nesse processo de aprendizagem existem não só erros de execução, mas também diversas correções até que esse novo gesto esteja bem consolidado no nosso aprendizado.

Por meio de treino e repetição, o cerebelo ajusta e reajusta os movimentos visando atingir a melhor qualidade de execução, até chegar em estágios de automatização. Sabe quando alguém é tão bom em algo que aparenta realizar uma atividade de forma automática? Um dos grandes responsáveis por isso é o cerebelo, o qual exerce função relevante quando falamos da força, intensidade,e ritmo, contribuindo, dessa forma, na coordenação motora fina.

A motricidade fina precisa ser trabalhada desde cedo e para que isso ocorra, um ambiente propício nos anos iniciais da vida exige diversos fatores, que incluem não só uma boa nutrição desde o período fetal, como também o papel da escola com atividades que estimulem a exploração manual das crianças no manejo de objetos, como o ato de recortar, pintar, manipular massas de modelar e brincar com blocos de montar. Essas atividades exigem movimentos mais sutis para e uma acuidade visual, desenvolvendo a importante coordenação óculo-manual. Fatores intrínsecos e biológicos da criança também atuam no desenvolvimento dessa motricidade, como ocorre nas que apresentam maior desenvoltura para desenhos, por exemplo.

Correlação clínica: Síndrome de Williams

A Síndrome de Williams é uma condição genética que foi descrita pelo médico P. Williams em 1961, ao observar crianças com características similares como atraso mental, problemas cardiovasculares e comprometimento da motricidade fina.

Indivíduos com síndrome de Williams têm maiores dificuldades para executar atividades que exigem motricidade fina, tais como escrever, realizar operações matemáticas e utilizar a tesoura, atividades essenciais nos anos escolares iniciais. Devido a isso, crianças e adolescentes portadores da Síndrome enfrentam dificuldades no ambiente escolar, tornando nítido a necessidade de um corpo docente e infraestrutura capacitados para recebê-los em suas demandas, uma vez que pode prejudicar não apenas no desenvolvimento cognitivo, como também a forma de expressão da criança e, por conseguinte, sua vivência social.

Conclusão

A coordenação motora fina, portanto, não é restrita aos cirurgiões, pintores e musicistas. Essa habilidade se faz presente no ato histórico de escrever, e no cotidiano ao abotoar camisas, amarrar cadarços, servir uma xícara de chá para a visita. Esses são poucos exemplos de como esses sutis movimentos são cuidadosamente orquestrados por pequenos e variados músculos, recrutados de maneira ricamente complexa, rápida e planejada.

Autora: Ana Beatriz Santana

Instagram: @anabeatriziv

Referências:

BALDO, Marcos Vinícius C. Fisiologia do Movimento Humano. 2a sedição, 2004.

FMUSP – https://www5.usp.br/noticias/saude-2/fmusp-estuda-estresse-de-jovens-com-a-sindrome-de-williams-beuren/

GUYTON, A.C. e Hall J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 13a edição. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2017.

Kenhub – https://www.kenhub.com/pt/library/anatomia/nucleos-da-base

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.