Alergologia e imunologia

CoronaVac: a polêmica envolvendo a eficácia da vacina chinesa | Colunistas

CoronaVac: a polêmica envolvendo a eficácia da vacina chinesa | Colunistas

Compartilhar

Em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan (China), o vírus SARS-CoV-2 emergiu, sendo responsável pela doença COVID-19 (COronaVIrus Disease 2019), que se propagou rapidamente pela China e, no primeiro semestre de 2020, atingiu todos os continentes, passando a ser considerada uma pandemia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 18 de março de 2020 já havia mais de 214 mil casos da doença no mundo. As recomendações para contingência da pandemia seguiram os protocolos da influenza, pelas semelhanças clínicas e epidemiológicas.

Vários tratamentos antivirais e imunomoduladores foram ou estão sendo testados em vários estágios da doença, a fim de evitar desfechos desfavoráveis ou fatais. Mas o controle efetivo da COVID-19 e possível erradicação só virá através de uma vacina.

Necessidade da vacina

Achados epidemiológicos datados até 11 de fevereiro de 2020 foram usados para classificar a COVID através do Quadro de Avaliação de Gravidade Pandêmica (PSAF) para avaliação de risco (transmissibilidade e gravidade clínica). Esse classificou a COVID-19 como uma doença de grande transmissibilidade e gravidade clínica. Apesar da relevância, essas informações são modificadas conforme as ações em saúde, rotina, disponibilidade de EPIs e suprimentos, estrutura dos serviços de saúde e vigilância; sendo também importante ressaltar questões culturais, ações governamentais, logística e colaboração da população; sendo necessárias constantes reavaliações de gravidade.

Segundo a Forbes, a taxa de mortalidade mundial está em torno de 2,2%. Apesar do percentual ser aparentemente baixo, 2.245.649 vidas foram perdidas diretamente pela COVID-19 até o dia 02 de fevereiro de 2021. Para que o número de mortes não seja ainda maior, a busca pela vacina se tornou uma das prioridades mundiais.

Figura 1 – Número de casos e mortes por COVID-19 até 02/02/21 3:22 PM – Fonte: Universidade de Johns Hopkins

Etapas de pesquisa necessárias para uma nova vacina

Para a aprovação de uma nova vacina, é necessário que ela seja segura e eficaz. Para isso, existe um rigoroso processo, divido em fase pré-clínica e clínica.

Após possíveis imunizantes serem desenvolvidos, a fórmula do imunizante é testada em laboratório (células cultivadas e animais), comprovada segurança e potencial imunogênico, começam os testes da fase clínica em humanos. São 3 fases de testes. A fase I consiste na aplicação em poucos voluntários saudáveis (20 a 100), demonstrada a segurança em humanos, parte para a fase II, cujo interesse é avaliar a capacidade de tornar o voluntário imune à doença, fazendo uso de grupo recebendo placebo como grupo controle. A fase III, última antes da obtenção de registro sanitário, tem como objetivo demostrar a eficácia em ensaio “duplo cego” (milhares de voluntários – incluindo grupos de risco – recebem vacina ou placebo) são acompanhados para verificar desenvolvimento de anticorpos ou efeitos adversos. Então a vacina é avaliada por órgãos de vigilância sanitária (no caso do Brasil, a Anvisa).

CoronaVac

A vacina foi desenvolvida pela Sinovac Life Science Co., Ltd. É preparada com o SARS-CoV-2 (cepa CZ02) cultivada em células Vero – uma linhagem estabelecida a partir de células renais de Cercopithecus aethiops (macaco verde africano).

Após a replicação nas células Vero, o vírus é inativado (fica incapaz de se replicar) com substâncias químicas (procedimento utilizado em outras vacinas também aprovadas, como a da Influenza). Depois é acrescentado a ele o hidróxido de alumínio (adjuvante) para melhorar a resposta imunológica.

Essa vacina tem como vantagem logística a refrigeração em geladeira, custo inferior a outras vacinas que estão no mercado; além da tecnologia de produção já ser conhecida pela eficácia (aumentando a capacidade de produção em larga escala).

A eficácia da vacina

A Coronavac foi testada com 12,5 mil voluntários em 16 centros científicos no Brasil (incluindo outras fases de estudo). Os voluntários eram profissionais da saúde da linha de frente do combate à COVID (risco alto e contínuo de exposição). No dia 12 de janeiro de 2020 o instituto Butantã informou 50,38% de eficácia global no estudo clínico da vacina (acima do patamar de 50% recomendado pela OMS), logo, a vacina poderia ser incorporada ao Plano Nacional de Imunização (PNI).

O número 50,38% significa que a probabilidade de contrair a doença diminui nesse valor.

O que é o valor de 78% apresentado?

A eficácia global não é o único número relevante para a vacinação, ele relata apenas a probabilidade de não adquirir a doença. Logo, deve-se também saber, em caso de doença, como seria a proteção para casos graves. E é exatamente aí que entram os outros dados divulgados.

No caso de contrair a doença existe 77,96% de proteção para casos sintomáticos; além disso, 100% de proteção para não ocorrer evolução para casos graves (hospitalização/UTI) – nenhum voluntário vacinado precisou ser encaminhado para UTI (mas o número de casos graves da pesquisa foi muito baixo para ter significância estatística).

Figura 2 – Taxas de eficácia da Coronavac – Instituto Butantan

Por que a vacina ajudaria o Brasil?

Apesar da estatística apresentada mostrar que ainda há chances de adoecimento, o que mais preocupa no momento é a grande demanda por leito em UTI e as mortes. Mesmo que o Brasil continue com casos leves a moderados da doença (ainda tenha demanda de certa assistência), as preocupações essenciais seriam reduzidas. A vacinação em massa da população seria capaz evitar quase todas as mortes por COVID-19 e reduzir a ocupação dos leitos em UTI.

Tendo como ponto de vista a realidade brasileira de emergência sanitária, com falta de leitos, falta de oxigênio e elevado número de mortes, é interessante que se proporcione a vacina o mais rápido possível.

Figura 3 – Número de casos de COVID-19 confirmados, mortes e recuperados (valores totais e, abaixo, a atualização do dia 02/02/21 até às 17:56

Figura 3 – Número de casos de COVID-19 confirmados, mortes e recuperados (valores totais e, abaixo, a atualização do dia 02/02/21 até às 17:56

Conclusão

O vírus SARS-CoV-2 continua se disseminando mundialmente. O número mundial de mortes já é de 2.245.649 pessoas, tendo o Brasil como destaque (segundo maior número de mortes e terceiro em maior número de casos).

A realidade do Brasil no atual cenário conta com o elevado custo para manutenção dos leitos de UTI, taxa de ocupação alta das UTIs (algumas cidades chegando a 100%) e falta de oxigênio. Considerando a logística de acesso às vacinas e tecnologias necessárias para armazenamento e produção em massa, o ideal é que se proporcione a Coronavac para a população, para que possamos atingir a imunidade de rebanho e não seja necessário buscar outra proposta de imunizante com espera ainda maior.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências:

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222020000200900

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-54492020000100414

ABBAS, A. K et al. Imunologia Celular e Molecular. Elsevier, 8ª ed. 2015

https://coronavirus.jhu.edu/map.html

https://www.saopaulo.sp.gov.br/coronavirus/vacina/#:~:text=A%20CoronaVac%20%C3%A9%20produzida%20com%20v%C3%ADrus%20inativados%20do,COVID-19%201%20O%20v%C3%ADrus%20%C3%A9%20isolado%20em%20laborat%C3%B3rio

https://www.gazetadopovo.com.br/parana/quanto-custa-estado-uti-covid-19-pandemia/

https://jornalggn.com.br/noticia/coronavac-tem-eficacia-global-de-5038-anuncia-butantan/

Compartilhe com seus amigos: