Colunistas

Covid-19 e as glândulas salivares: uma “nova” ferramenta de multiplicação | Colunistas

Covid-19 e as glândulas salivares: uma “nova” ferramenta de multiplicação | Colunistas

Compartilhar

Giuliana Fulco

7 min há 15 dias

Na metade de 2021, pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP publicaram um estudo que demonstra que o vírus Sars-Cov-2 possui a capacidade de, não só infectar, mas também se replicar dentro das células das glândulas salivares humanas. Os achados do estudo são compatíveis com outros realizados em 2020 e no início de 2021, um pelo National Center for Clinical Research in Oral Diseases da Universidade de Sichuan, quando se começou a teorizar que a razão pelo qual o coronavírus está tão presente na saliva, e por conseguinte é tão contagioso, é que, de alguma forma, ele invade a glândula salivar e consegue eliminar suas partículas virais por meio dela. Esse mecanismo pode nos ajudar a compreender como a transmissão do vírus ocorre e como ele afeta o organismo, auxiliando a aprimorar também as medidas de prevenção e tratamento do vírus.

As teorias

Desde o início da pandemia, diversos cientistas e grupos por todo o planeta têm corrido contra o tempo tentando decifrar os enigmas por trás da transmissão e fisiopatologia do COVID-19, uma vez que, tão antes compreendemos essa doença, poderemos desenvolver melhores planos para tratá-la e salvar uma quantidade maior de vidas humanas, com o menor prejuízo possível. Tendo isso em mente, não demorou para ser percebido que o vírus apresentava um padrão de transmissão por secreções respiratórias e da saliva, particularmente da última. Isso não é uma surpresa, uma vez que o trato respiratório está em constante contato com a cavidade oral, e portanto, não é inesperado que carregue em sua extensão os microrganismos presentes nele. Até então, se pensava no COVID como um vírus respiratório baixo (e hoje sabemos que pode afetar ambos os tratos respiratórios alto como o baixo). A questão é que havia uma quantidade significativa de material genético viral na saliva, persistente, e que as vezes poderia aparecer em testes antes mesmo da infecção pulmonar se consolidar ou demonstrar algum sintoma.

Em função dessa observação, uma hipótese que surgiu foi que já deveria existir uma colonização viral na própria glândula salivar, talvez até como origem da infecção, ao invés de ser um produto do trato respiratório. De acordo com a teoria, o vírus conseguiria infectar essas linhagens de células e assim, se manter presente na saliva. A descoberta que corroborou com essa ideia foi a de que a expressão da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA 2, enzima que funciona de receptor para o coronavírus conseguir se estabelecer) é maior nas glândulas salivares menores (linguais, bucais e palatinas) do que nos próprios pulmões. Essa também seria uma explicação de causa de infecções assintomáticas, já que se o vírus permanece somente na glândula salivar, sem invadir o resto do sistema, ocorre uma tendência à minimização de sintomas respiratórios, como tosse e desconforto respiratório, ou até mesmo dos característicos do COVID-19, como anosmia.

Os estudos que impulsionaram as teorias

Um estudo, publicado em maio deste ano, já havia pontuado as questões da ECA 2 (e do TMPRSS2, outro fator decisivo para a entrada do coronavírus na célula e aumentado na localização) e trazido a cavidade oral como ponto chave da cadeia fisiopatológica do Sars-Cov-2, tanto para a cadeia de transmissão, como para alguns tipos de sintomas específicos, como a perda do paladar. Já o da Universidade de Sichuan demarcava o território oral, especificando as glândulas salivares, como possível reservatório de coronavírus, pelos mesmos motivos.

A primeira pesquisa a trazer esta perspectiva, no entanto, é o de Jukun Song et al, em maio de 2020, que foi o primeiro a pontuar que muito se estudava sobre os sinais e sintomas do COVID e sua cadeia de transmissão, mas nenhuma atenção havia sido dada ao estudo das glândulas salivares. Ele não foi capaz de elucidar um mecanismo que esclarecesse o fenômeno por completo, porém conseguiu determinar que existia uma expressão ao menos moderada de ECA 2 e TMPRSS2 nas células das glândulas salivares, implicando que o coronavírus poderia ter acesso ao seu nicho de infecção no corpo humano através das glândulas salivares. Os resultados dessa pesquisa dialogam bastante com os obtidos pela FM-USP.

O estudo da FM-USP e como ele complementa os demais

  Até então, a invasão das células das glândulas salivares pelo vírus era algo especulativo. Com a pesquisa, esse cenário ficou um pouco diferente. Os pesquisadores fizeram uso de amostras post-mortem das glândulas salivares maiores (parótida, submandibular e sublingual) e menores, recolhidas por autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassonografia em pacientes testados positivamente para COVID-10 com RT-qPCR. Também foram utilizadas técnicas de imunohistoquímica, microscopia eletrônica e análise histopatológica para avaliar a presença do vírus.

  Partículas virais foram encontradas nas autópsias, além de degeneração de organelas nas células infectadas. Esses achados nos demonstram que o coronavírus consegue invadir as células desse tipo de glândula, além de, possivelmente, conseguirem se replicar dentro delas. É sugerido que a degeneração de organelas não poderia ser em decorrência do método utilizado para realização dos exames, porque para isso, ocorreria em menor escala. Esse achado acaba sendo sugestivo da replicação viral dentro da célula, destruíndo algumas de suas organelas no processo e criando aglomerados de nucleocapsídeos.

  Um outro achado, consistente com os estudos anteriores, foi a forte expressão dos mesmos receptores ECA2 e TMPRSS2 nas células do epitélio ductal e dos ácinos serosos. Sendo assim, fica evidenciado que a doença afeta as glândulas e por isso é tão contagiosa pela saliva.

Conclusão

  Desta forma, é imprescindível que os estudos relacionados à fisiopatologia do novo coronavírus continuem, sejam eles epidemiológicos ou estudos que analisem a morfologia das estruturas afetadas por ele e sua fisiopatologia. Os estudos das glândulas salivares supracitados fornecem uma justificativa patológica para a utilização de saliva como método diagnóstico do COVID e demonstram a sua importância para a história de transmissão e evolução da doença, uma vez que a saliva se mostrou relevante para a propagação viral. Assim, o progresso do entendimento que possuímos para prevenir e tratar o Sars-Cov-2, que tanto progrediu desde sua misteriosa aparição no final de 2019, continuará se otimizando até que atinjam máxima excelência.

Autora: Giuliana Fulco

Instagram: @giu.fulco

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências

  1. TO, K.K. et alTemporal profiles of viral load in posterior oropharyngeal saliva samples and serum antibody responses during infection by SARS-CoV-2: an observational cohort study. [S. l.], 2020. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/covid-19-epidemiology-virology-and-prevention/abstract/87. Acesso em: 3 jul. 2021.
  2. MATUCK, B.F. et alSalivary glands are a target for SARS-CoV-2: a source for saliva contamination. [S. l.], 21 maio 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33834497/. Acesso em: 3 jul. 2021.
  3. HUANG, N. et alSARS-CoV-2 infection of the oral cavity and saliva. [S. l.], 25 mar. 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33767405/. Acesso em: 3 jul. 2021.
  4. XU, J. et alSalivary Glands: Potential Reservoirs for COVID-19 Asymptomatic Infection. [S. l.], 9 abr. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32271653/. Acesso em: 3 jul. 2021.
  5. SONG, J. et alSystematic analysis of ACE2 and TMPRSS2 expression in salivary glands reveals underlying transmission mechanism caused by SARS-CoV-2. [S. l.], 9 jun. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32441816/. Acesso em: 3 jul. 2021.
Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.