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Covid-19 e doença hepática gordurosa não alcoólica: duas pandemias cruzadas | Colunistas

Covid-19 e doença hepática gordurosa não alcoólica: duas pandemias cruzadas | Colunistas

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Joana Menezes

7 min há 16 dias

1      Introdução

A pandemia do SARS-Cov-2 provou ser um sério desafio para o sistema de saúde global. Desde o final de 2019, já são mais de 180 milhões de casos confirmados e notificados, e mais de 4 milhões de mortes registradas em todo o mundo. Inicialmente, a doença era considerada como respiratória; hoje, sabe-se que o acometimento vascular tem sido mais assertivo em termos de definição, mas sistemática, quanto a sintomatologia. Além disso, sabe-se que o envolvimento sintomático do trato gastrointestinal é possível em COVID-19.

Ao mesmo tempo, também bastante devastadora, mas silenciosa, a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), é a enfermidade crônica do fígado mais comum na atualidade, devendo se tornar a principal causa de transplante hepático a partir de 2020. A prevalência global da doença é estimada em cerca de 20% da população global, acometendo principalmente pacientes portadores de síndrome metabólica.

Com o decorrer dos casos de internação e de necessidade de terapia intensiva, sabe-se que os pacientes infectados com COVID-19 são considerados mais frágeis quando possuem comorbidades associadas como as doenças metabólicas subjacentes, incluindo hipertensão, doença cardiovascular, diabetes mellitus tipo 2, doenças pulmonares crônicas (por exemplo, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica e enfisema) e síndrome metabólica. 

Dessa forma, a síndrome respiratória aguda grave causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), o patógeno da COVID-19, tornou-se uma ameaça global à saúde humana. O comprometimento do fígado tem sido frequentemente relatado como uma manifestação comum, embora seu significado clínico ainda não esteja completamente claro, particularmente em pacientes com doença hepática crônica subjacente.

2      Impacto do COVID-19 em pacientes com DHGNA

O SARS-Cov-2, assim como qualquer outro vírus, precisa se tornar intracelular para utilizar a maquinaria enzimática da célula hospedeira e assim produzir mais cópias de vírus. Para que isso ocorra, o vírus utiliza sua proteína S (proteína Spike), localizada no envelope viral, para se ligar à ECA2 (enzima conversora da angiotensina 2) e a outras proteínas celulares, para que possa sofrer endocitose pelas células do hospedeiro e se tornar intracelular.

A entrada do vírus nas células também depende de uma serina protease, a TMPRSS2 (protease transmembrana, serina 2), utilizada pelo SARS-CoV-2 para infectar as células. Portanto, a entrada do SARS-CoV-2 nas células pode ser bloqueada tanto por anticorpos neutralizantes da proteína S quanto por inibidores de TMPRSS2.

Quanto aos receptores da ECA2, sabe-se que são expressos no epitélio do trato respiratório superior, como a nasofaringe (sendo, o principal local de replicação viral), no pulmão, em células epiteliais alveolares tipo II e em células ciliares. É válido acrescentar que o receptor de ECA2 também é expresso no endotélio vascular, na borda em escova do intestino, nos enterócitos e nos colangiócitos.

No fígado, os receptores da ECA2 são expressos principalmente em colangiócitos (60% das células) e em células endoteliais, ao invés de hepatócitos (cerca de apenas 3% das células) ou células de Kupffer (onde os receptores ECA2 estão ausentes).

Atualmente, acredita-se que os receptores de ECA2 nos enterócitos seriam capazes de predispor a translocação viral para o fígado com potencial atividade para o sistema reticular. A partir disso, um conjunto de moléculas marcadoras de superfície celular (cluster celular imune inato) no fígado seria ativado a partir de alterações inflamatórias e produção de citocinas pró-inflamatórias.  Os pacientes com COVID-19 grave, desse modo, apresentam uma elevação dos biomarcadores inflamatórios, proteína C reativa (PCR), ferritina sérica, D-dímero e interleucinas (IL-6 e IL-2, principalmente). Vale salientar que níveis aumentados de IL-6 ocorrem na DHGNA e podem representar um marcador ou mediador de aterosclerose nesses pacientes. É importante ressaltar que o aumento da citocina MCP-1 também é um marcador adicional em pacientes com COVID-19 e DHGNA.

Além disso, a DHGNA também foi associada a maior probabilidade de função hepática anormal de admissão para alta e maior tempo de eliminação viral, dos pacientes infectados pelo novo coronavírus. O risco de apresentação grave de COVID-19 aumenta pela coexistência de obesidade e DHGNA, apontando para um papel específico e adicional para mecanismos patogênicos envolvidos no início e progressão da DHGNA.

3      Conclusão

As características pandêmicas e a alta taxa de letalidade da infecção por SARS-CoV-2 aumentaram preocupações sobre os mecanismos de lesão em pacientes em risco. Evidências chinesas indicaram que os indivíduos mais vulneráveis ​​ao COVID-19 sofrem de doenças pré-existentes. A COVID-19 frequentemente se desenvolve em pacientes com grandes anormalidades metabólicas, incluindo doença do fígado gorduroso (doença hepática gordurosa), que é parte de uma pandemia crônica junto com o acúmulo de gordura corporal (obesidade). Neste contexto, durante as anormalidades metabólicas, a expansão da gordura metabolicamente ativa, a qual é considerada uma condição de excesso de gordura, é paralela às alterações inflamatórias crônicas, desenvolvimento de resistência à insulina e acúmulo de gordura na configuração da DHGNA.  A interação deletéria das vias inflamatórias cronicamente ativas em DHGNA e agudamente em pacientes infectados com COVID-19 pode explicar o dano hepático em um subgrupo de pacientes e pode condicionar um desfecho pior em pacientes com DHGNA metabolicamente comprometidos. Assim, a DHGNA deve ser considerada um indicador de prognóstico durante COVID-19 e, por outro lado, o monitoramento a longo prazo de pacientes com DHGNA que foram acometidos por COVID-19, pode ser necessário. Finalmente, um outro desafio no diagnóstico e tratamento de pacientes com DHGNA é reduzir a vulnerabilidade às doenças não transmissíveis, aumentando a resiliência individual para surtos futuros.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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     Referências

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