Residência Médica

COVID-19 e residência médica: como a pandemia transformou a atuação de residentes

COVID-19 e residência médica: como a pandemia transformou a atuação de residentes

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Sanar Residência Médica

8 min há 50 dias

A pandemia transformou e impactou de forma profunda a atuação de profissionais de saúde, e os médicos residentes não foram exceção. Pelo contrário: a relação entre COVID-19 e residência médica foi intensa e atingiu as mais diversas especialidades, de maneiras variadas.

Enquanto algumas áreas foram prejudicadas pela suspensão de cirurgias e atendimentos, outras precisaram se dedicar exclusivamente para pacientes com COVID-19 e não paralisaram suas atividades.

Para entender mais sobre o impacto do novo coronavírus nos programas de especialização e como COVID-19 e residência médica se relacionam ao longo deste 1 ano de pandemia, a Sanar Residência Médica conversou com a Profa. Vera Koch, responsável pela Residência Médica na FMUSP, e com Dr. Vinicius Miolla, presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes e R2 de Geriatria no Hospital São Lucas da PUCRS.

A residência médica antes da COVID-19

Os programas de residência médica viviam o seu normal, com cada profissional atuando em sua especialidade e de acordo com a matriz de competências da CNRM (Comissão Nacional de Residência Médica), afirma Vinicius Miolla.

“A COVID-19 transformou a residência médica, pois praticamente todos os residentes tiveram que participar de atendimentos em plantões de UTI, de emergência ou na cobertura em setores de enfermaria. Mesmo especialidades que não têm envolvimento clínico com COVID (oftalmologia e otorrinolaringologia, por exemplo), tiveram que ajudar de alguma forma por causa da alta demanda de pacientes”, diz.

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Ele aponta também que outro impacto foi a desfiguração de algumas residências devido a suspensão de atividades. “Cirurgias foram canceladas, laboratórios foram suspensos por tempo prolongado e o perfil de internação mudou, afinal foram muitas internações por COVID-19 e menos internações de outras doenças que, antes, eram comuns”, complementa Vinicius. “Dessa forma, na pandemia houve a necessidade do residente fazer um tipo de atendimento que não fazia antes em pacientes com COVID-19, também houve a suspensão de procedimentos em ambulatórios e cirurgias e tudo isso desfigurou de certa forma as residências de algumas especialidades”.

A profa. Vera Koch acredita que os programas de residência não mudaram na pandemia, mas que a mudança foi para adequá-los a uma situação de exceção. “Práticas do dia a dia foram impossibilitadas pela pandemia, como no caso de consultas ambulatoriais de rotina e cirurgias eletivas. Por outro lado, tivemos que lidar com um aumento geométrico de casos de COVID-19 em emergências, unidades de internação e UTIs. Para tanto, os residentes participaram da força de enfrentamento da crise em rodízio com suas atividades regulares”, informa.

Programas de residência impactados pela pandemia

“Todas as áreas foram impactadas, pois houve redução do treinamento para atividades de rotina e eletivas, mas sem dúvida as residências mais comprometidas foram as cirúrgias”, afirma a profª Vera Koch, da FMUSP.

Vinicius concorda: “especialidades cirúrgicas ambulatoriais, como oftalmologia, cirurgia plástica, otorrinolaringologia, dermatologia, que possuam demanda maior por cirurgias eletivas e ambulatoriais. Os centros cirúrgicos ficaram fechados por muito tempo”, diz.

Ele também aponta que muitos residentes tiveram que lidar com pacientes com os quais não estavam acostumados. “Caiu todo mundo de paraquedas, no meio de uma pandemia, com pacientes graves, de uma forma que ninguém esperava. E assim, muitos residentes tiveram dificuldade em fazer aquilo que realmente gostariam quando se inscreveram no programa de residência médica: um cirurgião plástico quer fazer cirurgias, um cirurgião urológico quer operar e atuar em ambulatório, mas por causa da COVID-19, muitos desses atendimentos foram realocados”, exemplifica.

O presidente da ANMR também diz que especialidades clínicas como endocrinologia e geriatria, que dependem de ambulatórios, tiveram prejuízos com as paralisações.

Em contrapartida, especialidades como medicina intensiva, pneumologia, infectologia e clínica médica lidaram não com paralisações, mas precisaram atuar com atendimento exclusivo para COVID-19, complementa o médico.

O impacto também foi em aspectos emocionais, como relata a professora Vera Koch. “Todos sabiam que precisávamos dar apoio ao enfrentamento da crise. Por outro lado, tínhamos conhecimento de que a capacitação específica de cada área estava sofrendo, em alguns programas mais do que outros. Mas a volta da normalidade não estava em nossas mãos, então foi preciso lidar com muita angústia, nossa e dos residentes”.

Ações para lidar com a pandemia na residência

No caso do Hospital das Clínicas da USP, foi preciso atuar de forma conjunta e rápida. “Foi uma construção coletiva e no começo foi difícil, pois tudo teve de ser montado às pressas. O HC recebeu uma incumbência gigantesca para ser referência com casos moderadamente graves e graves, por isso o Comitê de Crise HCFMUSP organizou cursos de capacitação e conjuntos de normas clínicas práticas, além de um serviço de apoio psicológico e psiquiátrico”, conta Vera Koch.

Os residentes participaram de atendimentos na emergência, enfermarias e UTIs, sempre sob supervisão. Porém, com a extensão da pandemia, aumentou a preocupação para rodiziar os médicos entre seus programas de especialidades e o atendimento à COVID-19. “Com a melhora da pandemia, pudemos retorná-los aos programas definitivamente e programar a reposição do conteúdo”, revela a especialista. “O apoio dos residentes foi vital no enfrentamento da crise. Eles estão de parabéns”, acrescenta.

Na visão de Vinicius Miolla, da ANMR, todos foram pegos de surpresa no começo. “Porém, a partir de junho, foi feita uma regulamentação da CNRM pela qual os residentes poderiam atuar, no máximo, 24 horas por semana com atendimentos a pacientes de COVID-19, e as outras 36 horas eles deveriam atuar em sua especialidades. A regulamentação foi muito feliz ao lembrar que, apesar do contexto, os residentes precisam estar vinculados à sua especialidade”. As exceções são em programas de residência de especialidades como Medicina Intensiva, que atua muito em UTI e, por isso, têm mais chances de contato com vítimas de COVID-19.

O presidente da ANMR também lembra que o Ministério da Saúde disponibilizou cursos e manuais para preparar os residentes em sua atuação contra a COVID-19, e que o mesmo foi feito por alguns hospitais. Apesar disso, “muitos residentes precisaram dar plantão sem se sentirem 100% preparados, mas houve um esforço para fazer isso da melhor forma. Afinal, o residente é recém-formado e está no início da prática hospitalar, então é normal faltar experiência para que o residente sinta-se preparado”.

COVID-19 e residência médica: presente e futuro

A situação inesperada de um contexto de pandemia, algo nunca visto antes, trouxe alguns aprendizados e também perspectivas de médio e longo prazo para a residência médica, de acordo com a responsável pela Residência Médica na FMUSP.

“Nunca lidamos com uma situação como essa, então houve aprendizados em relação a conteúdo cognitivo, de habilidades e também sob o ponto de vista de um teste do limite de cada um para lidar com estresse, dor e sofrimento. A COVID-19 tem sido uma experiência dura, mas ímpar que leva a amadurecimento pessoal e profissional. A pandemia nos colocou numa situação de exceção”, opina.

Vinicius avalia que, de forma ampla, todas as residências sofreram algum impacto com eventuais perdas em carga horária, atuação em laboratório, em cirurgias e em atendimentos de pacientes. “Quem fez residência em áreas cirúrgicas, por exemplo, sai com menos cirurgias realizadas do que sairia em outras épocas”, afirma.

Por isso, além da preparação para a prova de residência, é fundamental se preparar para a imprevisibilidade da pandemia, diz o médico. “Não sabemos qual será a situação no futuro. Podemos estar em um mundo quase normal no ano que vem, mas podemos estar como agora. Por isso, quem for fazer a prova de residência para especialidades que foram prejudicadas na pandemia deve avaliar se vale a pena entrar na residência em meio a esse contexto ou não”, finaliza.

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