Alergologia e imunologia

COVID-19 e vacinação materna: um tiro no escuro? | Colunistas

COVID-19 e vacinação materna: um tiro no escuro? | Colunistas

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Taiane Ferraz

8 min há 91 dias

Somando-se às angústias causadas pela pandemia, aquelas que, porventura, encontram-se na maternidade ainda precisam lidar com as incertezas e o medo perante à vacinação – isso porque as infecções maternas são as principais causas de morte fetal, malformações e atraso no desenvolvimento. A maior responsabilidade com o autocuidado devido à gravidez faz com que as gestantes percam o sono quando se trata da segurança de vacinas, sobretudo as contra o novo coronavírus, visto que se tratam de um terreno ainda pouco conhecido. Desse modo, a pauta do nosso assunto de hoje é a segurança das vacinas do COVID-19 em grávidas: como atuam as vacinas? Grávidas podem receber qualquer tipo de vacinação? Há benefícios para o feto? As vacinas contra o SARS-CoV-2 são seguras para gestantes? Se sim, quais gestantes podem ser vacinadas?

Como atuam as vacinas?

As vacinas são compostas por fragmentos vivos ou inativados de antígenos que, quando entram no organismo, desencadeiam resposta imunológica capaz de produzir anticorpos duradouros contra o patógeno com que teve contato. Assim, a real intenção das vacinas é estimular a imunização sem que o indivíduo precise passar pelo processo da doença.

Existem quatro tipos de imunizações: microrganismos vivos atenuados; fragmentos de microrganismos mortos; toxóides; e imunoglobulinas. Dessas, somente aquelas realizadas com os germes vivos são contraindicadas para gestantes.

Grávidas podem receber qualquer tipo de vacina?

Sem sombra de dúvidas, a única forma de proteger o bebê durante a gestação é vacinando a mãe. Entretanto, há restrições quando se trata de imunização, visto que algumas vacinas podem ser teratogênicas quando administradas em período gestacional, ou podem desencadear a infecção materna, a saber as vacinas compostas por microrganismos vivos.

No rol de imunizantes com fragmentos vivos, estão: Tríplice viral, Varicela (Catapora), Febre Amarela e BCG. Contudo, em situações de risco – como áreas de foco de transmissão de doenças, como a febre amarela – a vacinação pode ser realizada com supervisão médica.

Por outro lado, as vacinas feitas de germes inativos são de fundamental importância para a segurança gestacional, principalmente quando se trata da vacinação contra a gripe, presente no Programa Nacional de Imunização, já que as gestantes são uma significativa fração dos casos graves de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

Há benefícios para o feto?

A resposta é SIM! Quando a mãe é vacinada, anticorpos IgG ultrapassam a barreira placentária e podem desencadear a proteção do bebê nos 12 primeiros meses de vida, aproximadamente.

Logo, falar sobre imunização materna é também falar sobre a preservação da vida do bebê enquanto lactente, visto que nesse período a resposta humoral é expressivamente ineficiente contra infecções.

As vacinas contra o SARS-CoV-2 são seguras para gestantes?

É chegada a hora da discussão mais esperada. Ainda que estudos clínicos comprovando a eficácia da vacina do COVID-19 em grávidas não tenham sido terminados, muito já se especula e se orienta sobre a segurança da imunização.

Pesquisas realizadas em torno das vacinas de mRNA (sobretudo Moderna e Pfizer) apresentaram resultados satisfatórios no quesito segurança, uma vez que não causaram efeitos teratogênicos em testes realizados com cobaias animais.

Desse modo, por não se tratarem de imunizantes compostos por microrganismos vivos, as vacinas de mRNA do novo coronavírus não apresentam riscos para a formação fetal, o que já representa um aspecto importante para a classificação quanto à segurança, amenizando o medo das “mães de pandemia”. Além disso, as vacinas do COVID-19 possuem a tecnologia das vacinas do tétano, coqueluche e influenza – as quais estão presentes no calendário de vacinação das gestantes e não apresentam quaisquer riscos para mãe e bebê.

Por enquanto, a OMS não recomenda a vacinação em massa das gestantes, todavia também não faz nenhuma contraindicação, por entender que a decisão deve ser resultado de uma avaliação conjunta entre médico e paciente. Por outro lado, o Ministério da Saúde do Brasil recomenda a vacinação de gestantes pertencentes aos grupos de risco, que saberemos mais a seguir.

Quais gestantes podem ser vacinadas?

Para responder essa questão, vamos tomar como base as orientações do Ministério da Saúde do Brasil, da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e dos consensos entre associações de ginecologia e obstetrícia de alguns estados brasileiros.

As associações de ginecologia e obstetrícia dos estados do Rio de Janeiro e de Santa Catarina, juntamente com orientações do Ministério da Saúde, julgaram ser grupo de risco as gestantes que:

  • Receberam transplante de órgão sólido;
  • Possuem problemas respiratórios graves, incluindo fibrose cística e asma grave;
  • São portadoras de anemia falciforme;
  • Recebem terapias de imunossupressão (aumentando a probabilidade de infecção);
  • Possuem doença renal crônica (estágio 5) ou necessitem de diálise;
  • São portadoras de patologia cardíaca significativa, congênita ou adquirida;
  • Fazem parte da linha de frente no controle da COVID-19;
  • Têm idade ≥ 35 anos;
  • São obesas;
  • São portadoras de diabetes;
  • São hipertensas crônicas.

Dessa forma, é recomendado que as gestantes inseridas nesses grupos sejam vacinadas, cabendo aos profissionais da saúde ceder orientação e informação para as mães sobre riscos e benefícios até então conhecidos sobre a vacina do COVID-19.

Ademais, é necessário frisar que, por ser uma doença em constante e rápida evolução, tais orientações podem vir a sofrer modificações. Até o presente momento, tais conselhos ainda são válidos.

Conclusão

A partir de todo o exposto e de todo o conhecimento que já temos previamente com o avanço da pandemia, podemos concluir que a vacinação é mais do que necessária para a preservação da vida e o controle da infecção por coronavírus, tornando-se, assim, um verdadeiro pacto social. Em se tratando da vacinação em gestantes, ainda que estudos científicos não estejam totalmente finalizados, podemos entender que, por não se tratar de imunizante composto por vírus vivo, e ser feita de uma tecnologia já conhecida e muito utilizada, a vacina do COVID-19 pode sim ser segura tanto para mãe, quanto para o feto – já que testes realizados mostraram que não houve efeitos teratogênicos. Contudo, justamente por não terem sido concluídos tais estudos, o Ministério da Saúde e a Febrasgo orientam que a vacinação seja feita somente em grávidas inseridas em grupos de risco, sendo necessários maiores conhecimentos sobre qual a eficácia e em que período gestacional a vacina será indicada para promover maiores resultados.

Ademais, também vale o questionamento: se as grávidas representam um número expressivo nos casos de SRAG, por que a vacinação não pode logo se estender às que estão fora dos grupos de risco? Não seria benéfico, assim como a vacinação contra o vírus Influenza, prevenir possíveis complicações respiratórias? Certamente, só teremos respostas para essas perguntas futuramente, já que, por se tratar de um problema parcialmente conhecido, muitas orientações e conhecimentos pré-formados podem mudar. Enquanto isso, cabe a todos nós a responsabilidade do distanciamento social e da higiene minimamente necessária para frear a disseminação do SARS-CoV-2.

Gravidinhas, por mais difícil que seja, mantenham-se calmas e cuidem da sua saúde e dos seus bebês!! Enquanto não se pode vacinar todas as gestantes contra o COVID-19, coloquem a carteirinha de vacinação em dia, vacinem-se contra a gripe!!!

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

PINHEIRO, Pedro. Vacinas na gravidez: indicações e contraindicações. MDsaúde Disponível em: <https://www.mdsaude.com/gravidez/vacinas-na-gravidez/>. Acesso em 09 de março de 2021.

TINÉ, Luíza Mitos e verdades sobre a vacinação em gestantes. Blog da saúde – Ministério da Saúde. 11 de abril de 2019. Disponível em: <.http://www.blog.saude.gov.br/index.php/servicos/53841-mitos-e-verdades-sobre-a-vacinacao-em-gestantes>. Acesso em 10 de março de 2021.

Folhapress. Mulheres grávidas podem tomar vacina contra COVID-19? Veja o que dizem especialistas. Folha de Pernambuco. 04 de março de 2021. Disponível em: <https://www.folhape.com.br/noticias/mulheres-gravidas-podem-tomar-vacina-contra-covid-19-veja-o-que-dizem/175050/>. Acesso em 10 de março de 2021.

OLIVIERI, Juliana. Vacinas contra COVID-19: gestantes e lactantes devem receber? Pebmed. 22 de janeiro de 2021. Disponível em: <https://pebmed.com.br/vacinas-contra-covid-19-gestantes-e-lactantes-devem-receber/>. Acesso em 10 de março de 2021.

SGORJ/SOGISC. Orientação prática para prevenção de COVID-19 – gestantes e lactantes. 18 de janeiro de 2021. Disponível em: <http://www.sogisc.org.br/docs/vacinacao-covid.pdf>. Acesso em 10 de março de 2021.

Recomendação FEBRASGO na vacinação de gestantes e lactantes contra COVID-19. FEBRASGO. 29 de janeiro de 2021. Disponível em: <https://www.febrasgo.org.br/pt/covid19/item/1208-recomendacao-febrasgo-na-vacinacao-de-gestantes-e-lactantes-contra-covid-19>. Acesso em 10 de março de 2021.

A vacinação da gestante. FEBRASGO. 13 de setembro de 2017. Disponível em: <https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/199-a-vacinacao-da-gestante>. Acesso em 10 de março de 2021.

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