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COVID-19 em gestantes: o que sabemos até agora? | Colunistas

COVID-19 em gestantes: o que sabemos até agora? | Colunistas

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Carolina Monte

8 min há 64 dias

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Em estudos prévios sobre COVID-19, suspeitava-se não haver diferenças significativas entre acometimento e gravidade da doença entre grávidas e não grávidas, exceto na presença de condições crônicas de saúde (obesidade, hipertensão arterial, diabetes). Entretanto, com as informações atuais, já se considera a gestante como grupo de risco para a COVID-19.

Já sabemos que gestantes devem ter cuidado redobrado quando se trata de COVID-19. Vamos aprofundar mais o assunto? Vem com a gente!

Como a COVID-19 se manifesta em gestantes?

A gestação é um período marcado por alterações fisiológicas no organismo da mulher, além de grandes emoções e receios. Olhando para o passado, durante as infecções causadas pelos vírus SARS-CoV (2002), influenza H1N1(2009) e MERS-CoV (2012), gestantes apresentaram febre, tosse e dispneia.

Quando se fala em Coronavírus, verificou-se até agora que grávidas infectadas podem desenvolver quadros leves (febre e tosse seca), variando desde a ausência de sintomas até quadros graves e óbito. Especialmente na metade da gestação e puerpério, há maior risco para gravidade (síndrome respiratória aguda grave, também conhecida como SARS). Por isso, gestantes e puérperas até o 14º dia de pós-parto são consideradas grupos de risco para a COVID-19. Ademais, gestantes também apresentam alterações em sua imunidade e baixa tolerância à hipóxia (redução da concentração de oxigênio nos tecidos), o que também fortalece a classificação da gestante nesse grupo de risco. Mesmo assim, ainda não há evidências que indiquem que a gravidez aumente as chances de contrair SARS-CoV-2.

A febre costuma ser a manifestação mais prevalente entre as gestantes (40%), embora não acompanhada de mialgia. Em segundo lugar, está a tosse (39%). Devemos lembrar que a idade materna avançada, o índice de massa corporal (IMC) e comorbidades prévias, como diabetes (a mais prevalente), foram os fatores de risco com maior relevância naquelas que desenvolveram doença grave com necessidade de cuidados intensivos.

Complicações da COVID-19 na gestação

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos emitiu relatório realizado com gestantes e mulheres não grávidas em idade reprodutiva demonstrando maior taxa de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), assim como maior necessidade de ventilação invasiva e maiores taxas de óbito nas gestantes quando comparadas às não grávidas. Mesmo não estando no relatório do CDC, já foi apontado que também há mais chance de ocorrência de eventos tromboembólicos.

O Ministério da Saúde recomenda o uso do Escore de Alerta Obstétrico Modificado objetivando identificar gestantes ou puérperas com potencialidade de apresentar quadros mais graves. Com base nesse Escore, deve-se prestar mais atenção naquelas gestantes ou puérperas que apresentarem dois ou mais sintomas de alerta amarelo ou um ou mais sintomas de alerta vermelho.

Escore de Alerta Obstétrico Modificado.
Fonte: autoria própria, adaptado de (Poon, Yang et al. 2020) e Portal PEBMED

Entre as complicações citadas em estudos científicos, pode-se citar o aborto espontâneo, a ruptura prematura de membranas, restrição do crescimento intrauterino, sofrimento fetal e trabalho de parto ou parto prematuro (mais comum). A internação em UTI neonatal foi frequente nos recém-nascidos de mães com COVID-19. A febre e a hipoxemia são responsáveis pelo aumento do risco de trabalho de parto prematuro, rotura prematura de membrana, prematuridade, cesárea e aumento do risco de complicações fetais. A hipertermia (aumento da temperatura corporal), quando no primeiro trimestre, pode aumentar a chance de malformações congênitas, embora ainda tenham poucos dados sobre essa questão.

Transmissão vertical

Tendo em vista o cenário caótico da pandemia, um receio recorrente está relacionado à transmissão vertical do vírus. A transmissão vertical representa a transmissão da mulher para o bebê no período pré-natal ou intraparto.

As evidências sobre essa temática ainda são inconclusivas. Há estudos que apontam a possibilidade de aparecimento de sintomas semelhantes ao da mãe infectada no recém-nascido. Por outro lado, outras fontes científicas indicam impossibilidade de transmissão transplacentária, pelo leite materno e líquido amniótico. Ademais, caso ocorra transmissão vertical, já que alguns estudos apontam transmissão transplacentária com viremia transitória com carga viral de apenas 1% das gestantes sintomáticas, a mesma parece não ser afetada pelo tipo de nascimento, clampeamento tardio do cordão umbilical, contato pele a pele, amamentação ou alojamento conjunto. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda a manutenção do aleitamento materno e reforça os seus benefícios para a mãe e o recém-nascido.

Outra grande complicação é a escolha entre parto normal e cesárea, já que a literatura demonstra que gestantes infectadas pelo vírus e que evoluem para um quadro grave associado à comorbidade possuem riscos aumentados de passarem por uma cesárea de emergência ou parto prematuro, o que pode elevar consideravelmente o risco de morte materna e neonatal. Contudo, o parto vaginal (ou normal) não é contraindicado, salvo em caso de complicações.

Como forma de prevenção, alguns hospitais e maternidades têm adotado isolamento no momento do parto, impedindo a presença de acompanhante antes, durante e após o parto. Segundo o Ministério da Saúde, o acompanhante pode estar presente no parto mesmo que a paciente seja positiva para Sars-Cov-2, desde que não tenha revezamentos e o visitante não pertença ao grupo de risco para o vírus. Inclusive, esse direito é apoiado na Lei 11.108/2005, conhecida popularmente como a Lei do Acompanhante.

Prevenção é o melhor remédio!

A prevenção em gestantes e puérperas deve ser a mesma da população geral. Ou seja, deve incluir o uso de máscaras, higienização das mãos com água e sabão (preferencialmente) ou álcool em gel, medidas de isolamento social e práticas de etiqueta respiratória. Ok, entendi, mas como fica o meu pré-natal?

Por conta das recomendações de distanciamento social, teleatendimentos e contatos por telefone podem ser feitos durante o acompanhamento pré-natal. Entretanto, as consultas presenciais devem ser feitas da seguinte maneira:

  • Gestante inferior a 11 semanas: teleconsulta para coleta da anamnese e comunicação de como vai ser feito o pré-natal durante a pandemia.
  • Entre 11 semanas e 14 semanas de gestação: consulta presencial, com anamnese, exame físico completo, exames laboratoriais, ultrassom para confirmação da idade gestacional e ultrassonografia morfológica com translucência nucal no 1º trimestre.
  • Entre 16 e 18 semanas: teleconsulta.
  • Entre 20 e 22 semanas de gestação: consulta presencial.
  • Entre 26 e 28 semanas de gestação: consulta presencial, com realização do exame para investigação da diabetes mellitus gestacional (teste oral de tolerância à glicose) e administração da vacina DTPa.
  • 32 semanas de gestação: consulta presencial.
  • 35 semanas de gestação: consulta presencial.
  • 37 semanas de gestação: consulta presencial, com coleta de RT-qPCR para Sars-CoV-2.
  • 38 semanas de gestação: teleconsulta.
  • 39 semanas e cada semana até o parto: consulta presencial.

É importante conversar com a gestante sobre a disponibilidade da Equipe de Saúde de forma presencial em caso de necessidade ou incapacidade de resolução por teleconsulta. Se em algum momento o teleatendimento não for possível, as consultas presenciais devem ser realizadas em gestantes de risco habitual com 11, 20, 28, 32, 35, 37 e 39 semanas e nas semanas seguintes até o parto.

Atenção! As consultas e procedimentos de rotina durante o pré-natal das gestantes com sintomas da síndrome gripal devem ser adiados por 14 dias.

Autora: Carolina Monte

Instagram: @carolmonte98 e @simplificando.curriculolattes

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Gestantes e Covid-19: últimas atualizações – https://pebmed.com.br/gestantes-e-covid-19-ultimas-atualizacoes/

Covid-19: Manifestações clínicas, fatores de risco e desfechos maternos e perinatais em gestantes – https://pebmed.com.br/covid-19-manifestacoes-clinicas-fatores-de-risco-e-desfechos-maternos-e-perinatais-em-gestantes/

Quais complicações a Covid-19 pode trazer para gestantes? –

https://aps.bvs.br/aps/quais-complicacoes-a-covid-19-pode-trazer-para-gestantes/

Gestantes no contexto da pandemia da Covid-19: reflexões e desafios – ESTRELA, FERNANDA MATHEUS et al . Gestantes no contexto da pandemia da Covid-19: reflexões e desafios. Physis,  Rio de Janeiro ,  v. 30, n. 2,  e300215,    2020 .   Available from . access on  30  Mar.  2021.  Epub July 24, 2020.  http://dx.doi.org/10.1590/s0103-73312020300215.

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