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Como diferenciar Covid-19 grave da SIMP (síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica)

Como diferenciar Covid-19 grave da SIMP (síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica)

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Neste post falaremos sobre um estudo que buscou caracterizar diferenças entre covid-19 grave versus síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica. Os relatos internacionais a respeito de uma complicação em crianças relacionada a covid-19, denominada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIMP), foram primeiramente expostos em Abril de 2020.

Desde lá, vêm-se estudando esta síndrome, primeiramente identificada em crianças internadas com choque cardiogênico, ou uma apresentação semelhante à doença de Kawasaki, associada à infecção grave pelo SARS-CoV-2. 

Um estudo do JAMA buscou avaliar características de pacientes com SIMP, comparando-os com pacientes com apresentação grave da COVID-19. Vamos conferir o que podemos aprender do estudo, logo abaixo. 

Motivação do estudo

O motivo que levou o estudo a ser realizado é que após aumento dos registros de casos de SIMP, foram observados padrões de apresentação. Sendo que um destes padrões estava relacionado a sintomas predominantemente respiratórios.

Esta forma de apresentação se sobrepõe à apresentação da própria COVID-19 grave. Nesse sentido, surgiu a necessidade de diferenciar a SIMP e a apresentação grave da COVID-19 em crianças e adolescentes. 

Como o estudo foi realizado

O estudo consistiu em uma série de casos, que incluiu 1116 pacientes com menos de 21 anos. Os pacientes foram inscritos durante o período de Março a Outubro de 2020, em 66 centros dos Estados Unidos. 

Os pacientes com SIMP apresentavam febre, inflamação, envolvimento multissitêmico, e teste RT-PCR positivo para SARS-CoV-2, ou teste de anticorpos positivos, ou exposição recente sem um diagnóstico alternativo.

Pacientes com COVID-19 possuíam teste RT-PCR positivo mais envolvimento sistêmico orgânico grave. 

Os pontos analisados foram:

  • Sintomas de apresentação;
  • Complicações sistêmicas orgânicas;
  • Biomarcadores laboratoriais;
  • Intervenções;
  • Desfechos clínicos

Resultados:

A média de idade dos pacientes foi de 9,7 anos, com 45% da amostra composta pelo sexo feminino. Dos 1116 pacientes, 539 foram diagnosticados com SIMP e 577 com COVID-19. 

Quando comparados com os pacientes com COVID-19, os pacientes com SIMP tiveram maior probabilidade de:

  • Ter idade entre 6 e 12 anos;
  • Ser da raça negra não hispânica;
  • Apresentar envolvimento cardiorrespiratório;
  • Apresentar envolvimento cardiovascular sem envolvimento respiratório;
  • Apresentar envolvimento mucocutâneo sem envolvimento cardiorrespiratório;
  • Maior razão neutrófilo/linfócito;
  • Maiores níveis de proteína C reativa;
  • Menor contagem de plaquetas;

Discussão: características da SIMP

No estudo analisado brevemente neste post, podemos notar que algumas características foram mais pronunciadas nos pacientes com SIMP, quando comparados com aqueles com COVID-19. 

Lembramos que na população de crianças e adolescentes analisada, aqueles com SIMP puderam ser distinguidos por possuírem características demográficas e apresentações clínicas distintas.

Em primeiro lugar, estes pacientes com SIMP estiveram, com maior probabilidade, na faixa etária dos 6 aos 12 anos. Pertencer à raça negra não hispânica também conferiu maior probabilidade de SIMP.

O grave envolvimento cardiovascular, mucocutâneo, ou a presença de maior grau de inflamação constituem outras características de maior chance de acontecer na SIMP.

Algumas características estiveram presentes em ambos os grupos. Apesar de mais frequentes no grupo SIMP, ambos os grupos necessitaram de cuidados intensivos. Ainda, o envolvimento cardiovascular dos pacientes com SIMP se resolveu, na maioria das vezes, dentro de 30 dias.

A importância do estudo

O estudo mostrou que a maioria dos pacientes com SIMP e COVID-19 tiveram apresentação clínica com manifestação de sintomas respiratórios graves. E por que isto é importante de ser notado?

Bom, é possível que os pacientes não sejam classificados corretamente, o que pode prejudicar o início da terapêutica correta, caso a fisiopatologia das duas doenças seja diferente. 

No entanto, as evidências até o momento apontam que o tratamento anti-inflamatório, como aquele com agentes esteroides, pode ser benéfico para ambas condições. 

A maioria das crianças com SIMP, ainda que com envolvimento cardíaco importante, apresentaram recuperação completa dentro de 30 dias. 

No entanto, estudos de longo prazo ainda serão necessários para avaliar desfechos e sequelas nesta população. 

Atualização: estudo avaliou pacientes com SIMP durante 6 meses

Um estudo de coorte retrospectiva avaliou 46 crianças que preencheram critérios para a SIMP. O estudo foi realizado em Londres, Reino Unido, e os pacientes foram acompanhados até 6 meses após a admissão.

Os achados do estudo ajudam ainda mais na compreensão da nova síndrome surgida após a pandemia da COVID-19. Em seis meses, todos os pacientes tiveram resolução completa do quadro, exceto um deles.

Das 46 crianças, 90% delas apresentaram anticorpos IgG positivos para o SARS-CoV-2 após 6 semanas de internação.

Embora comprometimento renal, hematológico e neurológico estava presente no início na maioria das crianças, após os 6 meses este comprometimento era mínimo.

Das principais sequelas, destaca-se dificuldades emocionais, e teste de caminhada 6 minutos abaixo do percentil para a idade em 45% dos pacientes.

Os resultados do estudo mostraram que apesar das manifestações iniciais, a doença resolveu-se em 6 meses.

Atenção devida deve ser direcionada para as sequelas emocionais e para o condicionamento físico destas crianças, com acompanhamento psicológico e fisioterapia de reabilitação.

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Referências

Characteristics and Outcomes of US Children and Adolescents With Multisystem Inflammatory Syndrome in Children (MIS-C) Compared With Severe Acute COVID-19 – JAMA NETWORK

6-month multidisciplinary follow-up and outcomes of patients with paediatric inflammatory multisystem syndrome (PIMS-TS) at a UK tertiary paediatric hospital: a retrospective cohort study – The Lancet Child & Adolescent Health

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