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COVID-19, Li Wenliang e o que sabemos sobre o novo Coronavírus | Colunistas

COVID-19, Li Wenliang e o que sabemos sobre o novo Coronavírus | Colunistas

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Guilherme Socoowski

10 minhá 263 dias

Quadro geral do CoVid-19

O CoVid-19 é, sem dúvidas, a maior manchete internacional nos últimos meses.

O assunto pode ser abordado em diferentes focos, que vão desde o número de contaminados, passando por riscos para a comunidade internacional até os impactos econômicos sentidos na China e no mundo.

Independentemente de qual seja o foco das notícias que você acompanha, compreender o essencial do tema se tornou indispensável.

A eficiência da China

Os níveis de eficiência e organização do país asiático se mostraram admiráveis.

Lograram um isolamento completo, verdadeiro lockdown, de 9 milhões de pessoas na cidade de Wuhan com rapidez que dificilmente outras nações conseguiriam igualar, nem mesmo os EUA ou países da Europa.

Além disso entregaram um hospital monumental em apenas 10 dias, contando com 4 mil trabalhadores e mais de cem máquinas ao mesmo tempo no canteiro de obras, a construção do Hospital Huoshenshan para 1000 leitos foi ato transmitido ao mundo todo.       

Contudo, tais façanhas ocorreram a um custo individual muito grande. Desde dezembro de 2019, antes de qualquer morte ser registrada, o oftalmologista Li Wenliang tentou alertar colegas de trabalho sobre uma doença parecida com a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

O médico recebeu das autoridades chinesas em 3 de janeiro uma carta acusando-o de estar “perturbando seriamente a ordem social” e foi forçado a assinar comprometendo-se a “não seguir com atividade ilegal”, caso contrário seria indiciado criminalmente.

Após o anúncio da morte do médico em 7 de Fevereiro, publicações de freedom of speech e temas associados à falta de liberdades em geral foram utilizadas milhões de vezes por usuários do WeChat e do Weibo, versões chinesas equivalentes ao WhatsApp e Twitter.

Algumas autoridades do Partido Comunista da China disseram individualmente que lamentam a morte do médico, mas não houve pedido oficial de desculpas por censurá-lo.

Até o momento de revisão deste texto em 11/03/2020, registrou-se mais de 113 mil casos diagnosticados e mais de 4 mil mortes foram confirmadas. Nesse ponto, a comunidade médica ao redor do globo já produziu conhecimento sobre o novo vírus.

Em levantamento para a Nature realizado por Emma Stoye, graduada em Ciências Biológicas na Universidade de Oxford e renomada divulgadora científica, até 30 de Janeiro de 2020, foi possível rastrear 54 artigos sobre o novo Coronavírus, em língua inglesa, publicados ao redor do mundo em periódicos de credibilidade.

Para os profissionais de saúde

Os Coronavírus são um grupo no qual se incluem a SARS (Síndrome R     espiratória Aguda Grave) que marcou 2002 e 2003, matando menos de mil pessoas entre todos os países onde foi detectada, e a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), cuja cepa altamente contagiosa foi detectada em humanos pela primeira vez em 2012 e matou ao todo menos de mil pessoas.

Pesquisadores estimam que o Coronavírus de Wuhan, oficialmente batizado de COVID-19, compartilha 80% do código genético do causador da SARS.

Contudo, existem diferenças notáveis em escala epidemiológica. O número absoluto de mortes é muito superior, matando mais que as duas doenças anteriores combinadas, mas se deve a maior infectividade que gerou milhares de doentes, não à agressividade dos sintomas causados pelo vírus.

Enquanto a mortalidade da SARS era cerca de 10% de todos os diagnosticados e a mortalidade da MERS ultrapassava 30%, a mortalidade do COVID-19 é cerca de 3% de todos os diagnosticados.

Entre os dados disponíveis, estima-se que 14% dos casos são severos, causando pneumonia com sintomas marcados, e que 5% dos casos são críticos, levando à insuficiência respiratória e até falência de órgãos ou choque séptico.

Conforme artigo de Kaiyuan Sun, publicado no The Lancet em 20 de fevereiro, mais da metade dos doentes são homens e a idade mediana dos afetados é 46 anos, com a maioria deles dentro do intervalo de 35 a 60 anos. Apenas cerca de 3% dos diagnosticados eram crianças de 15 anos ou menos, o número foi validado levando em conta a densidade demográfica de crianças nas províncias afetadas. A idade mediana dos pacientes cujo desfecho foi morte é 70 anos, com a maioria desse grupo dentro do intervalo de 65 a 81 anos.

Uma das poucas recomendações medicamentosas já declaradas pela OMS é evitar o uso de corticosteroides sistêmicos, exceto se houver outra causa específica que indique fortemente o uso, pois ao extrapolar dados da MERS, concluiu-se que os corticosteroides não geram mudança significativa na mortalidade e podem até aumentar o tempo para recuperação da doença. O Guia de Manejo Clínico de Casos de COVID-19 publicado pela OMS e o Protocolo de Manejo Clínico para o Novo Coronavírus (2019-nCoV) publicado pelo Ministério da Saúde estão disponíveis nas referências.

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Para as instituições assistenciais (públicas ou privadas)

Quando há suspeita de COVID-19 busca-se o diagnóstico rápido. Igualmente primordial é garantir que enquanto o paciente está nas instituições assistenciais de saúde não seja fonte de contaminação para demais pessoas, sejam pacientes com outras patologias ou a equipe que irá lhe atender.

Máscaras e outros equipamentos de proteção individual (EPIs) devem ser trajados sempre, para evitar contato da equipe de saúde com as secreções do paciente.

Esses recursos devem ser usados desde a abordagem inicial, na hora de começar a coletar a história do paciente. É um erro utilizá-los somente ao iniciar o exame físico propriamente dito.      

Deve-se isolar o paciente suspeito em quarto destinado especificamente para ele, idealmente, ou mantê-lo em quarto com o menor número de pessoas de forma que fique a mais de um metro de distância de qualquer outro paciente, na falta de condições ideais.

Tal etapa do isolamento pode ser até intuitiva, mas também é importante evitar a transmissão logo que o paciente chega para receber atendimento, antes mesmo de passar por qualquer triagem.

Estratégia inteligente é disponibilizar máscaras logo junto à entrada do estabelecimento, para uso obrigatório, ao buscar ajuda por Coronavírus. Também devem constar indicações claras do que é possibilidade real de ter a doença, para que ninguém use essas máscaras erroneamente, seja por descuido ou por artimanha para conseguir atendimento rápido.

Frisar que se a pessoa viajou recentemente à China ou à Itália ou então teve contato com recém-chegados desses países deve optar por essa modalidade de atendimento.

A equipe de saúde deve ter cuidado especial ao realizar procedimentos com o paciente suspeito. Somado ao EPI tradicional para lidar com isolamento, todos os membros da equipe devem utilizar máscaras com capacidade de filtração NIOSH N95 (padrão EUA) ou FFP2 / PFF2 (padrão Europeu) conforme recomendação da OMS.

Essas máscaras são obrigatórias ao realizar qualquer procedimento que possa culminar na liberação de gotículas infectantes em forma de aerossol, com destaque para intubação, broncoscopia, ventilação não invasiva, traqueostomia / cricotireoidostomia e reanimação cardiopulmonar.

Recomendações ao paciente que você pode fazer e condutas iniciais

Apesar do CoVid-19 já estar acumulando evidências científicas que permitem apontar certos caminhos de prevenção, ainda predomina a recomendação de medidas sanitárias gerais e individuais.

A Organização Mundial da Saúde destaca:

  • Higienizar as mãos de 2 em 2 horas com álcool gel, ou com sabonete se disponível, independentemente dos ambientes no qual tenha circulado;
  • Cuidado especial para os famosos fômites (corrimão da escada, maçaneta da porta, uso do serviço de transporte público, etc.) enquanto fontes de contaminação, se possível evitar o contato físico com os mesmos e, caso ocorra contato, efetuar higienização de mãos adicional;
  • Caso sinta vontade de espirrar/tossir e não disponha de lenços de papel ou equivalentes, cubra a região de nariz e boca com a dobra do braço (parte interna do cotovelo), não cubra nariz e boca diretamente com a mão porque assim você pode propagar contaminantes para os fômites em que tocar, também não espirre ou tussa à descoberto, pois assim você emite partículas contaminantes para o ar que podem afetar pessoas próximas;
  • Evitar aglomerações e locais fechados com grande fluxo de pessoas;
  • Manter, pelo menos, um metro de distância de pessoas com sintomas respiratórios (especialmente na possibilidade real de infecção por COVID-19, com pessoas que viajaram à China/Itália recentemente ou que tiveram contato com recém-chegados dessas nações no Brasil);
  • Para o cidadão comum não se faz necessário o uso de máscaras, contudo para alguém que teve história recente com os países em epidemia e suspeita que possa estar infectado, recomenda-se fazer o uso de máscaras pelos locais onde transitar até chegar a um estabelecimento de saúde;
  • O paciente com suspeita de COVID-19, conforme os guidelines liberados até então, pode ir para casa enquanto aguarda confirmação do diagnóstico, desde que esteja clinicamente estável, nesse caso deve ser orientado a manter-se a mais de um metro dos outros moradores da casa, fazer uso de máscara continuamente, manter o ambiente com fluxo de ar constante e não compartilhar qualquer objeto que possa estar contaminado por secreções.

Até então as condutas visam manter a estabilidade clínica do paciente, evitando a insuficiência respiratória, sem combater o vírus em si. Nenhum tratamento específico foi proposto como conduta padrão-ouro, mas dezenas de testes clínicos em humanos já estão ocorrendo com medicamentos que podem apresentar-se efetivos ao diminuir a morbimortalidade.

Até então (11/03/2020) no território brasileiro foram 34 casos confirmados, 780 casos descartados e 893 casos suspeitos com investigação em curso; é possível acompanhar os números através da plataforma de notificações do Ministério da Saúde mencionada nas referências.

A maioria dos casos confirmados está na região Sudeste e ainda não foram detectados casos com transmissão comunitária. Contudo, se você atender um paciente sem possibilidade real de estar infectado e ainda assim preocupado com a doença, a ação correta é tranquilizá-lo explicando mais sobre o vírus.

Também pode ser útil fornecer as recomendações de prevenção da OMS para garantir a tranquilidade psicológica do paciente.      

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Abraço e até a próxima,

Autor: Guilherme Socoowski das Neves, Estudante de Medicina

Instagram: @snow.guilherme

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