Coronavírus

COVID-19 pode causar “curto-circuito” no cérebro, indicam estudos

COVID-19 pode causar “curto-circuito” no cérebro, indicam estudos

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Sanar

4 min há 237 dias

Estudos preliminares realizados pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sugerem que a COVID-19 pode alterar o padrão da conectividade cerebral, causando uma espécie de “curto-circuito”. Isso significa que pacientes infectados pelo novo coronavírus podem passar a ter um cérebro que gasta mais energia e trabalha de forma menos eficiente. 

As conclusões se baseiam em exames de ressonância magnética realizados em 86 voluntários que haviam se curado da COVID-19 há pelo menos dois meses. Os resultados foram comparados com exames em 125 indivíduos que não tiveram a doença e serviram como grupo de controle.  

Os dados – ainda não publicados – foram apresentados Clarissa Yasuda, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM-Unicamp) e integrante do Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP.

“No cérebro normal, determinadas áreas estão sincronizadas durante uma atividade, enquanto outras estão em repouso. Já no caso desses indivíduos que tiveram COVID-19, notamos uma perda severa da especificidade das redes cerebrais. Tudo está conectado ao mesmo tempo e isso provavelmente leva o cérebro a gastar mais energia e trabalhar de forma menos eficiente”, explicou Yasuda à Agência FAPESP

As possíveis explicações

O estudo ainda está em andamento. Em breve, os pesquisadores aumentarão a amostragem pesquisada e acompanharão os desdobramos cerebrais da infecção por SARS-CoV-2 durante pelo menos três anos. 

Embora ainda não se saiba os motivos que explicam a alteração cerebral, algumas hipóteses serão investigadas, como explica a pesquisadora: “É possível que a infecção prejudique parte das redes neurais e, para compensar a falha no sinal, o cérebro ative outras redes simultaneamente. Essa hiperconectividade pode também ser uma tentativa do cérebro de restabelecer a comunicação nas áreas afetadas”. 

Outra hipótese relaciona a disfunção cerebral a alguns sintomas tardios da COVID-19 relatados por diversos pacientes, como fadiga, sonolência diurna e alterações na memória e na concentração.

Alterações estruturais

As primeiras etapas da pesquisa foram feitas a partir do segundo semestre de 2020, com questionários online respondidos por pessoas de todo o país que tiveram a confirmação da COVID-19 por teste de RT-PCR. Os pesquisadores mapearam a presença dos sintomas comuns e os tardios da doença, como fadiga, cefaléia e alteração da memória. 

Após uma média de 55 dias após o diagnóstico da COVID-19, parte dos voluntários foi submetida a testes neuropsicológicos e exames de ressonância magnética. “Ajustamos os resultados dos testes neuropsicológicos de acordo com a idade, o sexo e a escolaridade do participante. Foi possível perceber que os indivíduos com sintomas tardios da COVID-19 tiveram um desempenho cognitivo abaixo do esperado. Eles se saem pior que a média dos indivíduos brasileiros em algumas tarefas”, relatou Yasuda. 

Os exames de imagem revelaram que algumas regiões do córtex dos voluntários tinham espessura menor do que a média observada nos controles – entre elas áreas relacionadas com a ansiedade. Outras regiões apresentaram aumento de tamanho, o que pode estar relacionado com o inchaço decorrente da infecção. 

A pesquisadora ressalta que ainda não se sabe se o vírus causa um dano indireto no cérebro, relacionado à inflamação, ou se está diretamente ligado à infecção de células cerebrais. “De qualquer forma, os achados são surpreendentes e um pouco assustadores. Creio que já está bem claro que a COVID-19 não se trata apenas de uma gripe”. 

Os indivíduos que tiveram COVID-19 e se interessam em participar do estudo, podem entrar em contato com o grupo de pesquisadores da Unicamp através deste formulário de contato.

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