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COVID-19: Racionalizando a quarentena | Colunistas

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O bombardeio de informações acerca da pandemia do coronavírus é realmente muito intenso. A toda hora existem especialista apoiando medidas, criticando abordagens, especulando repercussões; tudo isso acentua o contexto de ansiedade da comunidade médica, que, muitas vezes, não sabe como oferecer o melhor apoio à população. Eis a melhor contribuição: Informação.

Independente de explicações politizadas e totalmente tendenciosas, o profissional de saúde necessita despir-se ao máximo de sua bagagem contextual e tentar entender, principalmente, a população leiga, a fim de promover saúde de qualidade.

Nesse contexto, destaca-se a quarentena como um ponto de dúvida e de certa desobediência dos brasileiros. A falta de sensibilidade e a carência de uma abordagem holística do paciente – nas esferas epidemiológicas, econômicas e individuais – abrem margem para um combate precário ao vírus, calcado em desinformação.

Primeiramente, é importante ressaltar que o Imperial College de Londres, que vem realizando estudos para a definição de políticas contra o Covid-19 em diversos países, chegou a conclusão de que, se absolutamente nenhuma medida fosse feita, até 40 milhões de pessoas morreriam dessa doença, não citando as possíveis sequelas desenvolvidas por ser uma doença ainda nova e relativamente desconhecida. Concluímos que algo deve ser feito então.

O que poderia ser feito?

Foi visto que uma ampla testagem e isolamento de portadores de vírus associado ao distanciamento social mais severo (quarentena) poderiam ser responsáveis por salvar até 95% das vidas. Uma porcentagem realmente considerável. Contudo, é importante destacar que essas medidas são interessantes quando a epidemia ainda está acelerada; por acaso, é o cenário do Brasil.

Ainda assim, em uma situação ideal, até 44 mil brasileiros podem morrer em razão da Covid-19, podendo alcançar valores superiores a 529 mil se fosse adotada apenas o distanciamento dos idosos e da população de risco, a chamada quarentena vertical. Concluímos que é mais interessante a quarentena horizontal, em que não há restrição de um grupo populacional para um distanciamento.

E o preço da quarentena?

De fato, nem tudo são flores. Existem malefícios epidemiológicos e econômicos, o que muito justifica a resistência de boa parte da população em adotar essas medidas de isolamento.

Em um cenário em que a maioria das pessoas está isolada, a imunidade da população permanece baixa, não se desenvolvendo imunidade e até gerando um segundo pico de infecção após o fim da quarentena.

Uma colocação bem válida e, sem dúvidas, presente; no entanto, um dos principais objetivos, como bem divulgado nos meio de comunicação, é o achatamento da curva de infecções, o que significa que menos pessoas vão ser infectadas pelo vírus em um período de tempo, permitindo ao Sistema de Saúde oferecer suporte adequado a esses casos, podendo, também, comportar outras condições clínicas que já saturam os seus leitos.

Por exemplo, uma pessoa que sofreu de um Infarto Agudo do Miocárdio não apresentará a mesma dificuldade de ser atendida caso houvesse uma grande demanda de pacientes infectados pelo Covid-19 em estado grave; assim, evita-se ou ameniza-se o colapso do sistema.

Quanto ao preço econômico, uma publicação do Centro de Pesquisas de Política Econômica avaliou que dois meses de isolamento poderiam representar uma queda média de 6,5% no Produto Interno Bruto, sugerindo uma recessão.

Todavia, visto que enfrentamos uma situação comparada à Gripe Espanhola de 1918, um recente estudo do Banco Central Americano mostra que a adoção de medidas restritivas é melhor para a recuperação econômica. O estudo intitulado “Pandemics depress the economy, public health interventions do not: evidence from the 1918 flu” mostrou que as cidades americanas que aderiram ao isolamento social se recuperaram mais rapidamente, visto a partir de um estudo empírico. Não foi possível, infelizmente, determinar que fatores especificamente faziam com que as medidas restritivas favorecessem essa melhor resposta econômica.

Por fim, o economista Marcelo Medeiros, professor visitante da Universidade de Princeton, diz que, quanto mais rápido assegurar o isolamento, controlando a epidemia, menos perdas econômicas vão acontecer.

Se há uma certeza é de que nos encontramos todos envoltos em dúvidas e ansiedade, nada mais compreensível. Contudo, arrisco a opinar agora que no momento que a quarentena se fizer mais eficaz, será o momento que será julgada mais desnecessária.

Autor: Gabriel Peres, Estudante de Medicina

Instagram: @gabriel.dlucas