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Criptorquidia | Colunistas

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Introdução

Criptorquidia ou Criptorquidismo se define como a não localização do testículo na bolsa testicular decorrente da sua não descida ou da sua não permanência no seu interior. É a anomalia genitourinária mais comum em lactentes do sexo masculino.

Ausência testicular, por sua vez, também se apresenta como testículo não localizado no escroto, mas porque ele é inexistente, por agenesia, ou porque se atrofiou em decorrência de comprometimento intrauterino de sua vascularização, como torção antenatal do seu pedículo, que leva à “síndrome do testículo esvanescente” ou síndrome da regressão testicular. Se ambos os testículos inexistirem, denominamos anorquia.

Epidemiologia 

A criptorquidia está presente em cerca de 2 a 5% dos meninos nascidos a termo e em cerca de 30% dos prematuros. Em torno de 70% desses casos os testículos se posicionarão de maneira correta no primeiro ano de vida de tal maneira que após essa idade, encontra-se apenas cerca de 1% dos meninos com criptorquidia. Alguns estudos que mostraram variações geográficas na incidência da criptorquidia, carecem de melhores avaliações em suas conclusões.

Em aproximadamente 10% dos casos, a criptorquidia é bilateral e em cerca de 20% deles, pelo menos um testículo não é palpável.

Uma gônada ectópica é diagnosticada em 15% dos pacientes, a maioria dos quais com um processo vaginalis patente.

Patologias associadas

Hérnia inguinal está presente em aproximadamente 90% dos casos de criptorquidia unilateral, e em quase 70% dos casos bilaterais.

A criptorquidia também pode estar associada a hipospádia e a micropênis, ou seja, fortemente presente em Desordens de Diferenciação Sexual (DDS). Os testículos não descidos uni e ou bilaterais e impalpáveis, associados a tais patologias acima citadas, apresentam pelo menos 3 vezes mais probabilidade de ter uma condição intersexual do que aqueles testículos não descidos, mas que são palpáveis.

Os meninos com hipospádia proximal estão em maior risco de desenvolver testículos não descidos do que aqueles com outros tipos suaves de hipospádia. Portanto, nesse tipo de hipospádia, a localização testicular deve ser monitorada regularmente até a puberdade.

Classificação

Alguns casos de criptorquidia recebem, por suas características peculiares, denominações particulares:

  • Testículos retráteis: são testículos que passam a maior parte do tempo na bolsa testicular, mas que se deslocam cranialmente, única e exclusivamente, por contrações do cremaster.
  • Testículos deslizantes: são testículos que só chegam até o escroto sob auxílio manual, mas que passam a maior parte do tempo numa posição supraescrotal.
  • Testículos ascendentes: são testículos que permanecem normalmente no escroto, mas que, em uma determinada idade, deslocam-se cranialmente e se fixam em posição extraescrotal.
  • Testículos ectópicos: são testículos que se fixam em posição diferente do trajeto que deveriam percorrer para atingir o escroto, como região suprapúbica, raiz da coxa, períneo.

Etiologia e Fatores de risco

As possíveis causas incluem a prematuridade, o baixo peso para a idade gestacional, peso menor que 2,5 kg ao nascer, exposição antenatal a pesticidas e ou estrogênos. Como fatores predisponentes podemos listar: defeitos da parede abdominal como na síndrome de Prune-Belly, defeitos do tubo neural como na mielomeningocele, paralisia cerebral, e desordem do desenvolvimento sexual, além de alterações genéticas que comprometem a produção ou a ação da testosterona como síndromes de Kallmann, de Klinefelter, de Prader-Willi ou síndrome da insensibilidade androgênica

Em síndromes genéticas com hipogonadismo hipergonadotrófico como as de Noonan e Laurence-Moon, uma predisposição genética parece provável. 

O risco de testículo não descido em um recém-nascido do sexo masculino é de 6,9 vezes se um irmão e 4,6 vezes se o pai é afetado. A taxa de membros da família com testículo não descido e / ou outras anomalias urogenitais é aproximadamente 2 vezes superior à do grupo sem testículo não descido.

Diagnóstico

  • Anamnese e Exame físico: 

Anamnese: observar fatores de risco maternos e paternos, incluindo exposição hormonal e distúrbios genéticos ou hormonais.

Exame físico: é preciso avançar cuidadosamente os dedos examinadores ao longo do canal inguinal, com a criança sentada ou em posição de cócoras.

  • Exame de imagem:

Nenhum exame de imagem é recomendado antes do encaminhamento, que deve ocorrer aos 6 meses de idade. A precisão global dos testes radiológicos, quer sejam ultrassonográficos, tomográficos ou através de ressonância magnética, em identificar testículos criptorquídicos de 44% é geralmente inferior em relação ao exame físico que é de 53%, mesmo quando realizado pelo médico generalista, e 84% quando feito pelo urologista pediátrico.

  • Laparoscopia:

A laparoscopia diagnóstica tem sensibilidade e especificidade de quase 100% para a localização de testículos não palpáveis e permite a correção cirúrgica concomitantemente. Meninos entre 11 e 30 meses de idade, com testículo não descido unilateralmente e não palpável, e com testículo contralateral hipertrófico

(> 2,0cm), tem valor preditivo em sugerir que a criança apresente monorquismo com uma acurácia de aproximadamente 90%.

  • Avaliação genética e endocrinológica:

A palpabilidade gonadal é um importante preditor de uma Desordem de Diferenciação Sexual (DDS) em casos unilaterais e ou bilaterais de criptorquidia com hipospádia e ou micropênis.

Autor: Lupébhia Tarlé

Instagram: @lupebhia

Referências

Livro: CALADO, A. RONDON, A. et. Uropediatria. Sociedade Brasileira de Pediatria.

Wood HM, Elder JS. Cryptorchidism and testicular cancer: separating fact from fiction. J Urol

2009; 181:452.Tasian, G.E., et al. Diagnostic imaging in cryptorchidism: tility, indications, and effectiveness. J Pediatr Surg, 2011. 46: 2406.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.