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Crise de ansiedade: como conduzir casos na emergência?

Crise de ansiedade: como conduzir casos na emergência?

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Um guia para ajudar médicos e estudantes de medicina a saber mais sobre a condução de casos de crise de ansiedade!

Segundo a Organização Mundial da Saúde, após a pandemia do Covid-19 ocorreu um aumento de 25% na prevalência global de ansiedade e depressão, principalmente na população mais jovem.

Esse dado se torna ainda mais alarmante quando lembramos que o Brasil é o país com a maior prevalência de ansiedade no mundo, também conforme a OMS, onde cerca de 9% da população possui ansiedade patológica já diagnosticada.

Contudo, quando falamos de crise de ansiedade, precisamos compreender a terminologia utilizada e os sintomas apresentados pelo paciente antes de atestar sua ocorrência, visto que a ansiedade como transtorno tem várias etiologias possíveis.

O tratamento dos transtornos da ansiedade é um dos principais temas que médicos e estudantes de medicina precisam conhecer, já que essa é uma condição comum da psiquiatria que surge em vários cenários e não apenas no ambiente hospitalar.

Pensando nisso, preparamos esse guia para te ajudar a identificar esses quadros e saber como manejá-los adequadamente. Aproveite a leitura!

Definição de crise de ansiedade 

Precisamos entender esse assunto, é necessário partimos da definição de ansiedade. Segundo o Manual Diagnóstico E Estatístico De Transtornos Mentais, o DSM-5, ansiedade é uma antecipação de ameaça futura que se manifesta com uma resposta emocional de medo a ameaça iminente real ou percebida.

Ansiedade e medo se sobrepõem em vários cenários, mas se diferenciam em alguns aspectos, como podemos ver a seguir.

AnsiedadeMedo
Tensão muscular e/ou vigilância em preparação para o perigo futuroPeríodos de excitabilidade autonômica aumentada
Tem comportamentos de cautela ou de esquivaPensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga

Uma vez que compreendemos esses conceito em associação aos conceitos da psicopatologia, podemos então conceituar o que é uma crise de ansiedade.

Embora o termo “crise de ansiedade” seja comumente utilizado, segundo o DSM-5, o termo correto para os episódios súbitos de ansiedade é “ataque de pânico”.

Ataques de pânico

Os ataques de pânico (ou crise de pânico) são eventos que se destacam dos transtornos de ansiedade como um tipo bem específico de resposta ao medo.

Essas crises podem ser esperadas, quando ocorre em resposta a um objeto ou situação normalmente temida; ou inesperada, quando não é deflagrada por um motivo aparente.

Dessa forma, é possível concluir que esse tipo de evento pode ser experienciado por indivíduos que não necessariamente possuem algum dos transtornos de ansiedade ou  que não possuem outros transtornos mentais.

O que pode provocar uma crise de ansiedade?

Consegui obter informações para compreender se a crise se enquadra como ataque esperado ou inesperado é importante fator prognóstico para o diagnóstico, prognóstico e avaliação de comorbidades que podem estar presentes em outros transtornos. 

Quando pensamos sobre o que pode provocar uma dita crise de ansiedade, existem fatores de risco e prognósticos de natureza temperamental, ambiental, genético e fisiológico. Como exemplos, podemos citar:

  • Afetividade negativa;
  • Sensibilidade à ansiedade;
  • Tabagismo;
  • Experiências infantis de abuso sexual e físico;
  • Histórico familiar de transtornos de ansiedade, depressão e/ou bipolaridade.

Veremos a seguir como se manifestam essas crises e como podemos manejá-las.

Manifestações clínicas e diagnósticos diferenciais

As crises de pânico – termo mais adequado para o que chamamos de crise de ansiedade – são eventos abruptos de medo e/ou desconforto intenso que atingem um pico em minutos, sendo acompanhado por sintomas físicos e/ou cognitivos.

Sintomas

São sintomas de uma crise, conforme o DSM-5:

  • Palpitações e/ou taquicardia;
  • Sudorese;
  • Tremores ou abalos;
  • Sensação de falta de ar ou de sufocamento;
  • Sensação de asfixia;
  • Dor ou desconforto torácico;
  • Náusea ou desconforto abdominal;
  • Sensação de tontura, vertigem ou desmaio;
  • Calafrios e/ou ondas de calor;
  • Sensação de formigamento ou anestesia;
  • Desrealização ou despersonalização;
  • Medo de perder o controle ou de enlouquecer;
  • Medo de morrer.

É necessário que ocorram quatro ou mais desses sintomas para caracterizar um quadro de ataque de pânico. Porém, sintomas como dor na nuca, dor de cabeça, choro ou gritos incontroláveis também podem surgir, embora não devam ser considerados em conjunto com os sintomas obrigatórios.

Como fazer o diagnóstico de uma crise de ansiedade?

O diagnóstico de uma crise de ansiedade é feito de forma clínica, utilizando de questionamentos sobre a sequência de eventos que precederam e/ou conduziram o ataque. 

É preciso ainda saber que algumas manifestações clínicas vistas numa crise podem, na verdade, representar uma condição clínica como doença coronariana, arritmias, acidente vascular encefálico e outros, reforçando a importância da anamnese e exame físico.

Deve-se considerar também a percepção do paciente sobre o que ocorreu e verificar se a ocorrência desses eventos. Quando as crises passam a ser recorrentes, torna-se importante verificar se trata-se de um transtorno da ansiedade e não mais um evento isolado.

Sendo assim, a anamnese é um importante elemento na determinação da crise e para construir hipóteses sobre diagnósticos diferenciais.

Se seu paciente apresenta mudanças no comportamento que visam evitar ou minimizar novos ataques, por exemplo, tem-se um quadro mais compatível com transtorno de pânico. 

Nesse cenário, é importante estar atento se o indivíduo apresenta:

  • Esquiva de esforço físico;
  • Restrição de atividades diárias habituais e de situações agorafóbicas como sair de casa, fazer compras, entre outros.
  • Restrição alimentar ou de medicamentos que o paciente acredita precipitar a crise.

Lista de possíveis diagnósticos diferenciais

Sendo assim, podemos incluir na lista de possíveis diagnósticos diferenciais de ordem psiquiátrica:

  • Transtornos de ansiedade como o transtorno de ansiedade social (fobia social), transtorno de pânico, agorafobia, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de ansiedade induzido por substâncias ou medicamentos.
  • Transtorno de personalidade evitativa;
  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Protocolos de tratamento no contexto emergencial

As crises de pânico estão sabidamente associadas a uma taxa alta de tentativas de suicídio e ideação suicida, superando os dados que consideram comorbidades e outros fatores de risco de suicídio de forma isolada.

Por isso, diante da possibilidade desse evento, é preciso saber como atuar adequadamente e de forma efetiva. Para isso, organizamos um passo a passo prático sobre como você pode fazer o manejo.

Passo a passo para atender casos de ansiedade no dia a dia da emergência

O Ministério da Saúde preconiza como manejo inicial em quadros de crise:

  • 1. Tranquilizar o paciente sobre os sintomas, evidenciando que esse episódio passa em poucos minutos e não há risco de morte iminente;
  • 2. Validar o desconforto e mal-estar que o paciente está sentindo e reforçar que a crise é passageira;
  • 3. Realizar exercícios de respiração pelo nariz para evitar a hiperventilação;
  • Se o paciente apresentar muitos sintomas respiratórios, deve-se indicar a respiração via diafragmática até que os sintomas desapareçam.

Esse manejo inicial tende a ser o suficiente para reestabelecer o paciente, principalmente porque as crises tendem a ser autolimitadas.

Abordagens terapêuticas e continuidade de cuidados

Os cuidados iniciais de uma crise no contexto emergencial que vimos acima é o mesmo que deve ser seguido como abordagem inicial em qualquer cenário, se diante de uma crise não muito intensa.

Porém, se a crise for prolongada ou de alta intensidade, pode-se fazer uso de benzodiazepínicos de curta duração como o lorazepam ou temazepam, em via oral. O flumazenil pode ser utilizado como opção intravenosa.

É recomendado que a via oral seja a preferencial, visto que o tratamento endovenoso precisa de monitorização das funções respiratórias e é administrado lentamente.

Em hipótese alguma deve-se administrar benzodiazepínicos via intramuscular, pois sua capacidade absortiva não é adequada.

Assim como nos tratamentos dos transtornos de ansiedade, o acompanhamento psicoterápico é indicado como medida de tratamento e prevenção de novos episódios. A terapia cognitivo comportamental é a abordagem que apresenta uma boa resposta diante desse contexto.

Resumo sobre manejo de crise de ansiedade na emergência

A alta prevalência dos transtornos de ansiedade no Brasil é um fator preocupante para a comunidade médica. Embora os ataques de pânico (crise de ansiedade) possam ocorrer nos pacientes diagnosticados com outros transtornos mentais, vimos que elas podem existir em cenários onde não há diagnóstico ou não esteja associado a uma patologia.

Sendo assim, é preciso utilizar das ferramentas disponibilizadas pela anamnese e exame físico para identificar um ataque de pânico e saber manejá-lo corretamente, a partir das medidas que discutimos.

O paciente que está enfrentando uma crise precisa ser acolhido adequadamente e tranquilizado, pois, como visto, as crises têm caráter autolimitado e na maioria das vezes pode não querer um tratamento medicamentoso.

Por isso, dialogar com o paciente é uma das principais estratégias que você pode utilizar durante uma crise.

Sugestão de leitura complementar

Esses artigos também podem ser do seu interesse:

Referências

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • CANTILINO, A; MONTEIRO; D.C. Psiquiatria clínica: um guia para médicos e profissionais de saúde mental. 1 ed, Rio de Janeiro: MedBook, 2017.
  • SADOCK, B. J; SADOCK, V.A.; RUIZ, P. Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução: Marcelo de Abreu Almeida. 11. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2019.
  • STAHL, Stephen M. Psicofarmacologia: bases neurocientíficas e aplicações práticas. 4. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.
  • Jaspers, K. Psicopatologia Geral. São Paulo, Atheneu; 1996.
  • LEVITAN, Michelle N. et al. Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento do transtorno de ansiedade social.Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, v. 33, n. 3, p. 292-302, Sept.  2011.
  • Linhas de Cuidado. Manejo inicial – Situações agudas – Transtornos de Ansiedade no adulto (saude.gov.br)
  • Pandemia de COVID-19 desencadeia aumento de 25% na prevalência de ansiedade e depressão em todo o mundo – OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde (paho.org)