Anatomia de órgãos e sistemas

Critérios diagnósticos de diabetes mellitus tipo 2 | Colunistas

Critérios diagnósticos de diabetes mellitus tipo 2 | Colunistas

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Isabella Schulthais

8 minhá 6 dias

Definição e classificação da doença

O diabetes mellitus (DM) é uma síndrome metabólica complexa decorrente de múltiplas etiologias que envolvem a redução da função da insulina, garantindo hiperglicemia, resistência ou até mesmo a falta dela.

Pode ser classificada em vários tipos:

  • DM tipo 1: apresenta deficiência de insulina, seja ela por causa autoimune (A) ou por natureza idiopática (B);
  • DM tipo 2: redução gradual da secreção de insulina associada com resistência, envolvendo componentes genético e ambiental;
  • DM gestacional: hiperglicemia de diversas formas que é diagnosticada durante a gestação sendo descartado DM prévio;
  • Outros tipos de DM: podem ser secundários a endocrinopatias, infecções, medicamentos, doenças do pâncreas exócrino e diabetes neonatal.

Epidemiologia

Atualmente a DM continua sendo um importante problema de saúde para diversos países, mesmo naqueles mais desenvolvidos. Estima-se que cerca de 8,8% da população entre 20 e 79 anos (isso condiz a cerca de 424,9 milhões de pessoas) vivam com DM, e tal porcentagem continua subindo. No Brasil, cerca de 6,2% da população acima de 18 anos já obteve diagnóstico de diabetes, com maior prevalência nas pessoas com menos instrução escolar.

A DM2 acomete indivíduos, na maioria das vezes, acima de 40 anos, embora em alguns países sejam encontrados pacientes crianças e jovens. É uma doença poligênica, tem forte relação familiar e ambiental.

Essa crescente curva de pacientes pode estar associada a transição nutricional, sedentarismo, excesso de peso, transição epidemiológica, envelhecimento populacional e maior sobrevida dos pacientes devido à manutenção de tratamentos.

Se faz necessário o reconhecimento das complicações (microvasculares e macrovasculares) da doença que levam à principal causa de mortalidade em muitos países, nas idades entre 20 e 79 anos, chegando em cerca de 10,7% da mortalidade mundial.

Fatores de risco

Obesidade

Leva ao aumento do risco de forma significativa para o desenvolvimento de DM2, além da influência na resistência insulínica. Principalmente pacientes com exacerbada gordura visceral (obesidade abdominal), devido ao alto turn over metabólico, com reação lipolítica, drenando, assim, alta concentração de ácidos graxos no fígado. Portanto, através dessa substância, ocorre redução do clearance de insulina e aumento da formação hepática de glicose.

Sedentarismo

É comprovado que a atividade física de forma contínua e individualizada traz benefícios para a musculatura esquelética e gasto energético. Observa-se que o risco do desenvolvimento de DM2 é bem menor nos indivíduos que praticam atividade física com regularidade, ocorrendo, dessa forma, aumento do desenvolvimento de capilares, concentração de enzimas mitocondriais nos miócitos e fibras musculares de contração lenta. Além disso, A DM2 está relacionada ao processo de transporte da glicose com benefícios na sensibilidade insulínica no miócito.

Tabagismo

O cigarro eleva a concentração de gordura abdominal, aumenta a glicemia após teste de tolerância à glicose e reduz a sensibilidade insulínica. O risco de DM tem relação direta com a quantidade e duração do tabagismo e após cessar o uso são necessários 20 anos para que o risco se iguale ao não fumante.

Outros

Pode-se destacar também a importância do histórico familiar da doença, diagnóstico prévio de pré-diabetes ou diabetes mellitus gestacional (DMG), além de componentes da síndrome metabólica como dislipidemia e hipertensão arterial sistêmica (HAS).

Fisiopatologia

Em relação ao mecanismo fisiopatológico da DM, a condição está centrada principalmente na resistência à ação da insulina nos músculos e fígado, além da alteração na secreção de insulina através das células beta das ilhas pancreáticas de Langerhans. A evolução da doença pode levar à apoptose das células beta e lipotoxicidade e glicotoxicidade sobre as células restantes, além da resistência delas à ação do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1). Adicionalmente a DM também leva ao aumento do glucagon e da sensibilidade hepática a ele, gerando produção maior de glicose.

Pode ser observado também mecanismo renal através da maior reabsorção de glicose pelos cotransportadores tipo 2 de sódio-glicose (SGLT2), levando ao aumento do limiar renal de glicose, o que contribui para a hiperglicemia.

O processo inflamatório subclínico que a DM deflagra associado à resistência vascular contra a ação vasodilatadora da insulina compromete a distribuição da glicose pelo organismo, além de interferir na resposta à insulina em tecidos e órgãos.

Também é verificada resistência à ação inibidora do apetite exercida pela leptina, insulina, GLP-1, peptídeo YY, amilina, além do aumento da serotonina e redução da dopamina no sistema nervoso central (SNC), que acabam levando ao consumo exagerado de alimentos, gerando aumento de peso e gordura corporal, contribuindo ainda mais para a resistência insulínica.

Para a visualização da fisiopatologia da DM2, foi desenvolvido o Octeto de DeFronzo, que demonstra de forma simples os diversos mecanismos que contribuem para a hiperglicemia do paciente diabético:

Figura 01: Octeto de DeFronzo
Fonte: Adaptado de DEFRONZO (2013).

Quadro clínico

Em uma proporção significativa dos casos, os pacientes são assintomáticos, com diagnóstico através de rastreio laboratorial ou até mesmo já com manifestações crônicas micro ou macrovasculares (doenças cardiovasculares, retinopatia, nefropatia, neuropatia, pé diabético).

Os sintomas clássicos de DM2 são determinados pelos 4 Ps: polifagia, poliúria, polidipsia, perda de peso, que não são frequentemente apresentados no diagnóstico inicial. Também pode manifestar astenia, letargia, balanopostite, infecções de repetição e prurido cutâneo.

Diagnóstico

Considerando o caráter primordialmente assintomático da doença, o diagnóstico normalmente ocorre através de dosagens laboratoriais de rotina.

O rastreamento para DM2 segue as seguintes recomendações:

Figura 02: Rastreamento de diabetes mellitus tipo 2.
Fonte: Adaptado de Diretrizes Sociedade Brasileira de Diabetes (2019).

Os exames comumente utilizados para avaliar a tolerância à glicose dos pacientes são os seguintes:

1) Glicemia de jejum: coleta em sangue periférico com mínimo de jejum calórico de 8 horas;

2) Teste oral de tolerância à glicose (TOTG): coleta de amostra de sangue em jejum para determinação da glicemia, em seguida o paciente ingere 75 gramas de glicose dissolvida em água e depois outra amostra é coletada após 2 horas de sobrecarga oral;

3) Hemoglobina glicada (HbA1c): esse exame reflete os níveis glicêmicos dos últimos 3 a 4 meses e por isso é muito importante, devendo ser solicitado para controle mais fidedigno do nível de glicose no sangue do paciente.

Para a confirmação do diagnóstico de DM2 em assintomáticos, deve-se repetir o exame alterado ou apresentar dois exames diferentes com valores alterados. Já no caso de sintomáticos, um exame alterado já confirma a doença.

Uma atenção especial deve ser dada aos valores que enquadram o paciente como pré-diabético, para que medidas de prevenção e controle sejam eficientes e este não se torne diabético.

Figura 03: Critérios diagnósticos para DM2.
Fonte: Adaptado de Diretrizes Sociedade Brasileira de Diabetes (2019).

Conclusão

O diabetes mellitus tem extrema importância e alta prevalência na população mundial. É uma doença, na maioria dos casos, silenciosa inicialmente e que gera grande repercussão nos pacientes portadores, por isso deve ser reconhecida de forma minuciosa para prevenção, detecção e controle precoces, evitando as complicações agudas e crônicas e melhorando a qualidade de vida do paciente.

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