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Cuidados Paliativos: o que a graduação ensina sobre o “paliar”? | Colunistas

Cuidados Paliativos: o que a graduação ensina sobre o “paliar”? | Colunistas

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Paulo Florêncio

4 minhá 15 dias

Conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos consistem na “assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais”.

Todavia, durante a formação do médico generalista tal conceito é visto de uma forma simplória e sem aprofundamento, o que permite que, com o fim da sua graduação, o médico diga para um paciente considerado terminal “agora, que não há nada a ser feito, vou lhe encaminhar para os cuidados paliativos!”. Mas será que é só isso que as escolas médicas ensinam sobre o verdadeiro significado do paliar?!

Uma das primeiras tentativas para a publicação de um currículo voltado para o ensino de Cuidados Paliativos na graduação partiu das escolas médicas canadenses em 1993. No Brasil, a Universidade Federal de São Paulo foi a primeira escola médica a disponibilizar cursos de Cuidados Paliativos em caráter eletivo a alunos da graduação em Medicina de 1994 a 2008. 

Historicamente, estudantes aprendem sobre cuidados paliativos por meio de leituras e conteúdos de cursos, tendo em vista que as escolas médicas apontam tempo insuficiente, falta de especialização do corpo docente, associado com cansativas demandas de múltiplos interesses. Mas esses conteúdos adquiridos de forma ativa pelos acadêmicos são mais bem ensinados através da experiência prática. Embora seja desafiador incorporar mais exposição clínica e aprendizagem presencial com outras profissões em currículos lotados.

Entretanto, pesquisas destacam as dificuldades de implementação dessas propostas num país marcado por uma forte divisão uniprofissional do trabalho nos serviços de saúde e com uma forte cultura de hierarquia entre as diferentes profissões. Assim, há poucas oportunidades para se trabalhar colaborativamente e desenvolver um cuidado centrado no paciente e de alta qualidade em relação aos cuidados paliativos.

E apesar dos avanços para a expansão curricular na área da saúde, o ensino dos cuidados paliativos tem merecido pouca atenção dos pesquisadores e das universidades brasileiras. Embora haja rica literatura e uma práxis sedimentada, internacionalmente, sobre os cuidados paliativos.

Ainda se constata uma ausência de disciplina, obrigatória ou optativa, de cuidados paliativos nas escolas médicas brasileiras. A ausência dessa disciplina poderia ser creditada, quem sabe, ao desinteresse dos responsáveis pela elaboração curricular. Assim, a proposta de se estudar e responder a essa condição curricular de ensino nas escolas médicas é uma tarefa inicial, mas requer ousadia, podendo ser tema matriz de pesquisas futuras no campo do ensino médico.

Os cuidados paliativos possuem um ramo de ação que requer funcionários de muitas especialidades, uma vez que a proposta consiste em cuidar dos indivíduos em todos os aspectos: físico, mental, espiritual e social. Dessa forma, construir futuros médicos que possam conviver e construir um cuidado aos enfermos de uma maneira multidisciplinar, isto é, sabendo lidar com o olhar crítico de diversos profissionais ao mesmo tempo, com saberes diferentes e diferentes experiências talvez seja uma das principais dificuldades para a efetivação deste ensino.

Acredita-se que somente por meio da educação do profissional haverá a possibilidade de formar não apenas médicos especialistas em cuidados paliativos, mas também aqueles que, diante de um paciente com doença avançada e terminal, tenham preparo para prestar um cuidado que ofereça conforto e tranquilidade ao doente e a sua família, colaborando para a melhoria do bem-estar, e reduzindo o sofrimento nos momentos de luto.

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Referências:

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. National cancer control programmes: policies and managerial guidelines. 2.ed. Geneva: WHO, 2002.
  2. CUIDADOS PALIATIVOS: UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DA GRADUAÇÃO EM MEDICINA – https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1809-98232018000300261&script=sci_arttext&tlng=pt#:~:text=No%20Brasil%2C%20a%20Universidade%20Federal,de%20Caxias%20do%20Sul8
  3. ENSINO DE BIOÉTICA E CUIDADOS PALIATIVOS NAS ESCOLAS MÉDICAS DO BRASIL – https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022013000200017
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