Cardiologia

Cuidados pós-parada cardiorrespiratória | Colunistas

Cuidados pós-parada cardiorrespiratória | Colunistas

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A parada cardiorrespiratória (PCR) é definida como a anulação da atividade do coração acarretando na interrupção da respiração e do pulso.  A compreensão do que é uma parada cardiorrespiratória é muito importante para o médico em virtude desse distúrbio influenciar diretamente na vida do paciente.

Muito se fala em um atendimento inicial eficaz para o sucesso na reanimação cardiopulmonar (RCP), porém, é indispensável um cuidado redobrado após o retorno da circulação espontânea (RCE), pois, após seu regresso, a maioria das mortes ocorrem em até 24h e uma série de contratempos podem surgir.

Introdução

Danos neurológicos, ventilatórios, metabólicos e hemodinâmicos fazem parte dos prejuízos que uma parada cardiorrespiratória é capaz de causar. A chamada Síndrome Pós-Ressuscitação envolve manifestações como lesão cerebral, miocárdica e isquemia múltipla, sendo esses os pilares que devem ser contornados para assegurar uma função fisiológica compatível com a vida. Sendo assim, com a conquista da RCE é imprescindível transferir o paciente para um hospital (caso a parada tenha ocorrido fora de um) ou UTI para a continuidade do atendimento. A meta básica é oferecer tratamento adaptado para manter a perfusão de órgãos vitais e prevenir que uma nova parada cardiorrespiratória ocorra. A seguir, vejamos as condutas adequadas para a condução nessa fase.

Avaliação geral

De início, é recomendado que o médico refaça a anamnese, recolhendo as informações a respeito de como o paciente estava antes da parada cardiorrespiratória e no momento do socorro. Com base nesses elementos, deve-se procurar indícios que possam ajudar a identificar a etiologia da parada. É relevante ter em mente as possíveis causas de uma parada cardiorrespiratória, sendo elas conhecidas pelo mnemônico “5 Ts e 5 Hs”.

Figura 1. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019

Refazer o exame físico e neurológico é igualmente efetivo, dando atenção a cada detalhe, tanto do paciente quanto dos acessos e aparelhos de monitorização.

Monitorização dos sinais vitais

A monitorização dos sinais vitais (relembrando: frequência cardíaca (FC), temperatura, pressão arterial (PA) e frequência respiratória (FR)) é fundamental para garantir que todos os parâmetros assistidos estejam de acordo com o necessário para a sobrevivência do paciente. Esses valores indicam como o organismo do paciente ficou após a PCR e se está respondendo à terapia ofertada.

Exames gerais

Exames laboratoriais: hemograma geral, gasometria, avaliação glicêmica, troponina em casos de suspeita de Síndrome Coronariana Aguda (SCA), são elementares por permitirem a análise dos componentes do sangue, que por conta do estresse gerado pela PCR sofrem alterações. 

Eletrocardiograma (ECG): é interessante pedir um eletrocardiograma, pois por intermédio dele se avalia a atividade elétrica e o ritmo do coração. Alterações em um desses itens também podem ser responsáveis pela parada. Lembrando, há quatro tipos de ritmos que são capazes de levar a uma PCR: Fibrilação Ventricular (FV), Taquicardia Ventricular Sem Pulso (TVSP), Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP) e Assistolia. Sendo assim, ele auxilia no reconhecimento da origem da PCR e no tratamento, pois cada ritmo apresenta uma conduta e medicação apropriada. 

Cateterismo: na hipótese ou confirmação de uma SCA requer um estudo mais profundo do coração, devendo caminhar o paciente para um centro de hemodinâmica para a realização de um cateterismo.

Oferta de oxigênio

A maioria dos pacientes necessita de oxigênio, visto que a PCR altera o mecanismo da ventilação. A oferta de O2 é estudada e escolhida de acordo com o estado em que o indivíduo esteja. Os parâmetros ideais são ventilação em cerca de 10 a 12 respirações por minuto e saturação maior que 94%.

Medicação

Administrar reposição volêmica e medicação adequada para otimizar a perfusão dos órgãos e fortalecer a atividade cardiopulmonar, por meio da oferta de drogas vasoativas e/ou cristaloides.

Modulação terapêutica da temperatura (MTT)

Com o intuito de diminuir os danos neurológicos causados pela hipoxemia da PCR, é recomendado que seja feito a Modulação Terapêutica da Temperatura (MTT), que consiste no resfriamento do indivíduo à temperatura de 32°C a 36°C durante 12 ou 24 horas (tempo limite). Ela é adotada, pois a hipotermia age inibindo o processo de apoptose celular, diminui a resposta inflamatória da síndrome pós-PCR e a atividade dos radicais livres, além de dificultar que haja morte cerebral.

Para ser feita, são tomadas medidas como infusão de soro gelado, diminuição da temperatura ambiente, banhos com água fria e uso de cobertas de resfriamento. Apesar da MTT ser indicada para pacientes que estejam em coma, o controle da temperatura deve ser feito em todos que tenham a RCE, pois como já visto, a hipotermia diminui as chances de sequelas no sistema nervoso.

Conclusão

Conclui-se a importância de o profissional estar apto a realizar um atendimento eficiente durante e após a parada cardiorrespiratória, pois ambas as condutas influenciam diretamente na sobrevida do paciente. Ademais, evitam que complicações virem obstáculos na recuperação e na qualidade de vida futura do indivíduo.

Referências

Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/portal/abc/portugues/2019/v11303/pdf/11303025.pdf

Parada Cardiorrespiratória: Aspectos Atuais. Revista Brasileira de Anestesiologia Vol. 50, Nº 2, Março – Abril, 2000. Disponível em: https://www.bjan-sba.org/article/5e498c300aec5119028b49aa/pdf/rba-50-2-128.pdf

Treinamento de emergências cardiovasculares da Sociedade Brasileira de Cardiologia- Avançado. Disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/0B6PntfEw4IDPcVJiTzg4THpyczQ

Avaliação do Diagnóstico e Tratamento em Parada Cardiorrespiratória entre os Médicos com mais de Cinco Anos de Graduação. Revista Brasileira de Terapia Intensiva Vol. 18 Nº 4, Outubro – Dezembro, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbti/v18n4/09.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, 2a edição, 2016. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_suporte_avancado_vida.pdf


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