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Deficiência do fator V: uma revisão | Colunistas

Deficiência do fator V: uma revisão | Colunistas

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Gabriela de Godoy

6 min há 295 dias

Introdução

A deficiência do fator V de Leiden é uma doença hereditária, de caráter autossômico recessivo, que acomete cerca de 1 a cada 1.000.000 pessoas na forma homozigota, ou seja, os dois genes são afetados, por isso ela acomete homens e mulheres igualmente. Nesse caso, há uma interferência na atuação da proteína C, na sua forma ativada, causando uma predisposição à hipercoagulabilidade e à trombose.

O fator V de Leiden foi descoberto em 1947 por Paul Owren em uma mulher com uma síndrome hemorrágica semelhante à hemofilia e é o mais importante fator de risco genético da trombose venosa. Ele atua na formação do complexo protrombinase, fundamental na geração de trombina e ainda tem um papel fundamental na via da anticoagulação, regulando negativamente a atividade do fator VIII, além de ser um importante modulador da fase inicial de formação do coágulo.

 Os eventos trombóticos relacionados a esta mutação são comumente de origem venosa, acometendo principalmente vasos profundos de membros inferiores e menos frequentemente o sistema porta, veias superficiais e cerebrais. 

O Fator V Leiden mutado resulta no aumento do risco de eventos vasoclusivos venosos em portadores em homozigose ou heterozigose dessa mutação. Os pacientes heterozigotos possuem um risco trombótico sete vezes maior e os homozigotos até 80% maior do que indivíduos controle.

Manifestações clínicas

Estudos mostram que existem mais de 200 pacientes descritos na literatura, com deficiência de fator V, sendo que, em países onde casamentos consanguíneos são comuns, a prevalência é de 10 vezes ou mais, em comparação a outros países.

Vale ressaltar que nessa doença não existe uma associação clara entre genótipo e fenótipo, ou seja, os níveis de fator V no sangue podem não coincidir com a manifestação dos sintomas da doença, por isso alguns pacientes apresentam manifestações hemorrágicas mais graves do que outros.

Essa deficiência pode ser caracterizada de forma grave, leve ou moderada. A grave ocorre quando os níveis de fator V estão abaixo de 10-15%, já a leve e a moderada são quando os níveis estão acima de 20-30%.

Os sinais clínicos incluem epistaxis (sangramento nasal), hematomas, hemorragia das mucosas, hemorragias dos tecidos moles e hemartrose. Ou seja, sangramentos mucosos são as manifestações clínicas mais frequentes da deficiência. Nas formas mais graves da doença, pode existir um risco de hemorragia intracraniana, pulmonar ou gastrointestinal. Estudos mostraram que, além de afetar os vasos comuns nos eventos trombóticos, pode também atingir locais incomuns do sistema arterial e venosos, associando-se à restrição de crescimento intra-uterino e o aborto.

Geralmente, a hemorragia excessiva tende a aparecer após alguma cirurgia, parto ou até mesmo traumatismo.

O período acima foi reformulado por ser repetitivo não intencionalmente. Ao criar mais conteúdo para um texto já existente, devemos tomar extremo cuidado para que as informações adicionadas tenham conexão com o que já foi escrito, e não que estejam ali apenas para constar.]

Diagnóstico

Na maioria das vezes, o diagnóstico é feito por meio da história familiar positiva para deficiência de fator V ou por meio da anormalidade em testes de triagem da coagulação no pré-operatório. Antecedentes hereditários são considerados um fator de risco para evento trombótico, por isso os familiares de indivíduos com trombose devem ser avaliados.

Os meios de diagnóstico laboratorial se baseiam em tempos de protrombina e de tromboplastina parcial ativada (PT, aPTT) aumentados e baixos níveis do FV determinados por um teste baseado na PT. O tempo de sangramento (BT) pode estar prolongado. Está disponível o teste molecular, mas é desnecessário para o diagnóstico.

Vale ressaltar que pode ocorrer coexistência da deficiência de fatores V e VIII, sendo que, nesse caso, é necessária a dosagem do fator VII para que se exclua a deficiência combinada. De acordo com o levantamento realizado pela Federação Mundial da Hemofilia em 2012, essa deficiência combinada dos fatores V e VII ocorre em apenas 2% dos casos dos pacientes com coagulopatias raras.

Tratamento

A reposição é feita por meio do plasma fresco congelado (PFC), preferencialmente vírus inativado, pois ainda não existem concentrados industrializados de fator V. 

O tratamento para a hemorragia deve ser baseado no tipo de sangramento, no nível de fator V e na meia-vida do fator. 

No caso de menorragia, que é muito comum em pacientes com deficiência grave de fator V, o tratamento é feito pelo uso de antifibrinolíticos, contraceptivos orais, dispositivos intrauterinos (DIU) com liberação de levonorgestrel; ou ainda tratamentos cirúrgicos, como ablação endometrial ou histerectomia.

Algumas vezes, uma das complicações do tratamento da deficiência do fator V é o desenvolvimento de aloanticorpos contra o fator V presente no PCR infundido. Nesse caso, existem relatos de uso de fator VII ativado recombinante com doses entre 80mcg/kg-100mcg/kg com variável eficácia hemostática. 

Na deficiência do fator V, a profilaxia não é recomendada de rotina.

Conclusão

Dessa forma, foi apresentado um pouco sobre o que é a deficiência do fator V de Leiden, quais as implicações para o paciente e qual o tratamento adequado para cada situação. Vale ressaltar também que, além do tratamento, deve-se avaliar as situações que exigem a prevenção dessa doença, podendo, assim, evitar possíveis riscos para o paciente.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências bibliográficas

COAGULOPATIAS HEREDITÁRIAS RARAS. Disponivel em: .

GODOY, J. M. P. Fator V de Leiden.

GOUDEMAND, P. J. Deficiência de fator V. Disponivel em: .

MANUAL das coagulopatias hereditárias raras – Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Especializada e Temática. Brasília: 2015.

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