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DESAFIO | A culpa é do cachorro?


Pergunta Desafio: A culpa é do cachorro?

Gustavo Pessoa Pinto
Geriatria-Pneumologia
Idoso, 69 anos, analfabeto, aposentado, natural e procedente de Sobral. Encaminhado para o ambulatório de Pneumologia. Sua queixa principal está em uma tosse persistente que piorou há dois meses, sem hemoptoicos ou secreções abundantes. Relata ser asmático desde a infância fazendo uso de medicação para controle, mas com exacerbações na frequência de uma a duas vezes por mês. Afirma que os sintomas pioraram nos últimos dois meses após ter sido exposto ao pelo de um cachorro, afirmando diversas vezes que tudo piorou depois do contato com o animal, alegando ser alérgico ao pelo. Afirma também que mesmo após a retirada do cachorro de sua casa os sintomas não melhoraram. Em seus hábitos de vida afirma ter sido fumante durante alguns anos de sua juventude (140 maços/ano) e afirma uso de fogão a lenha em casa. No exame físico apresenta-se lúcido, bem orientado no tempo e no espaço, regular estado geral, acianótico, anictérico e afebril. Ausculta pulmonar, frêmitos toracovocais e percussão sem alterações. Atualmente faz uso de Alenia (Fumarato de Formoterol di-hidratado + Budesonida) 2 cápsulas totalizando 12 mcg de formoterol e 400 mcg de budesonida, duas vezes ao dia. Faz uso também de Atrovent (Ipratrópio) como dose de resgate na piora dos sintomas. Também fez uso de Prednisona via oral nos últimos dois meses após exposição ao pelo de animal. No momento sua maior queixa e motivo da consulta é a tosse acompanhada de exacerbações. Inicialmente o clínico avalia a necessidade de se realizar exames complementares para uma tentativa de avaliar a possível causa da tosse, como tomografia computadorizada ou raio X de tórax.

1-Existe uma recomendação para um reforço imediato nas medicações para o controle das exacerbações da asma?
2-Mas mesmo que os exames complementares apresentem resultados negativos, que explicação poderia ser encontrada para a queixa da tosse do paciente?
3-Como a abordagem geriátrica poderia ser útil em um paciente como o descrito?
4-Que outros cuidados são necessários na abordagem de um idoso como descrito no caso?



GABARITO

  1. Não imediatamente, antes de se orientar uma mudança na medicação, deve-se atentar para fatores ambientais que possam estar influenciando os sintomas. No caso o paciente alegou fazer uso de fogão a lenha, uma realidade que ainda existe em muitos lares, sendo um costume perpetuado em muitas cidades mais ao interior.
  1. O uso da medicação Alenia, que tem em sua formulação um corticóide, torna necessário que o paciente lave bem a sua boca após a inalação da medicação. Ao não lavar a boca o paciente pode estar suscetível a infecções fúngicas e infecções de vias aéreas que podem causar o quadro de tosse do paciente. Por isso, antes de ajustar a medicação para o controle da asma, deve-se garantir que o paciente está fazendo o uso correto.
  1. Apesar de o caso relatado ter sido ambientado de um ambulatório de pneumologia, podemos perceber que a situação em questão apresenta um campo de ação propício para a avaliação geriátrica. O médico geriatra, fazendo uso da ferramenta de Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) pode fazer uma anamnese ainda abrangente da condição do paciente idoso. No tratamento do paciente idoso é essencialmente importante perguntar e garantir que o mesmo está fazendo uso correto da medicação. Como demostrado na pergunta anterior, um simples questionamento acerca da higiene bucal após a inalação da droga pode mudar o curso de uma conduta.
  1. Como estamos lidando com um idoso analfabeto, é necessário se certificar de vários elementos importantes de maneira que o paciente entenda as recomendações do médico. No caso de tratamento para asma é muito importante garantir que o idoso compreende corretamente como utilizar a bombinha inaladora para diferentes tipos de medicações, sem constranger o paciente e de maneira didática. Uma boa sugestão é ter no consultório algumas bombinhas de modelos diferentes para demostrar para o idoso como se deve fazer o uso no momento, e pedir para o idoso repetir o gesto da aplicação. Repetir esse processo quantas vezes for necessária para que o paciente entenda como se usa a medicação é importante para garantir a adesão do idoso ao tratamento.
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