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Desenvolver vacina contra a COVID-19 não basta: estará a população disposta a recebê-la?

Desenvolver vacina contra a COVID-19 não basta: estará a população disposta a recebê-la?

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Sanar Medicina

5 minhá 33 dias

Não é à toa que as pesquisas para disponibilizar uma vacina contra a COVID-19 têm recebido o nome de “corrida das vacinas”. Afinal, as vacinas normalmente demoram décadas para serem desenvolvidas, mas no caso da vacina contra a COVID-19, a celeridade do processo é impressionante e, se disponibilizadas já no fim de 2020, ou até mesmo em 2021, será um evento sem precedentes.

Mas, não basta apenas cruzar a linha de chegada. Há uma questão que se sucederá e se mostrará de importância crucial: a população se sentirá segura e disposta a tomar a vacina? Diante de tal corrida, muitas pessoas expõem o medo de receber doses de uma vacina formulada em tão pouco tempo.

Sendo assim, uma pesquisa realizada nos EUA buscou documentar quais fatores associados com maior probabilidade de aceitação de uma hipotética vacina da COVID-19. Estes fatores, de certa forma, refletem preocupações compartilhadas por pessoas do mundo todo. Confira então neste post os resultados e implicações da pesquisa.

Metodologia do estudo

Foram recrutados 2.000 participantes, e o objetivo consistiu em estimar a probabilidade dos participantes em escolher uma determinada vacina em detrimento de outra com diferenças em alguns critérios, bem como a disposição de receber vacinação.

Os participantes passaram por 5 momentos de escolha, em cada um, 2 vacinas hipotéticas eram apresentadas, e os participantes deveriam responder se escolheriam a vacina A, B ou nenhuma.

As características que cada vacina apresentava consistia em:

  • Eficácia
  • Duração da proteção
  • Principais efeitos adversos
  • Efeitos adversos menores
  • Processo de aprovação da FDA ao qual a vacina havia passado
  • Origem nacional da vacina
  • Endossamento

Cada vacina recebeu pontuações aleatórias nas características acima descritas, e a ordem dos atributos foi randomizada entre os participantes.

Resultados

Características da amostra

Um total de 1971 americanos participaram do estudo. As principais características da amostra foram as seguintes:

  • Média de idade: 43 anos (intervalo de 30 a 58 anos)
  • Mulheres representaram 51% da amostra
  • 73% eram brancos, 14% eram negros, 10% eram latinos

A escolha da vacina

Os seguintes fatores estiveram associados a maior probabilidade de escolha de uma vacina:

  • Aumento na eficácia de 50% para 70% e de 50% para 90%
  • Aumento na duração da proteção de 1 para 5 anos
  • Diminuição da incidência de efeitos adversos significativos, de 1 em 10.000 para 1 em 1.000.000
  • Endosso concedido pela CDC e OMS, em comparação ao endosso concedido pelo Presidente Trump

Já os seguintes fatores estiveram associados a menor probabilidade de escolha de uma vacina:

  • Autorização da FDA para uso emergencial, comparado com aprovação completa
  • Origem nacional da vacina fora dos EUA

A disposição para receber vacinação

Os fatores associados a maior média de participantes dispostos a receber vacinação, quando questionados individualmente, seguiram padrões semelhantes.

Maiores médias marginais de aceitação estiveram associadas a aumento da eficácia, redução de incidência dos principais efeitos colaterais, endosso concedido pela CDC e OMS. Uma vacina de origem chinesa esteve associada a menor disposição de aceitação pelos participantes.

Discussão

O estudo aqui resumido fornece as primeiras evidências dos fatores associados à escolha e aceitação da vacina contra o novo coronavírus. Os resultados podem ajudar as campanhas de saúde pública para vacinação contra a COVID-19, visando resolver dilemas e preocupações que geram hesitação na população.

 Os achados de preferência e aceitação por vacinas com maior eficácia, duração de proteção e menor incidência de efeitos colaterais está em consonância com pesquisas anteriores com outras vacinas.

Uma das implicações que podemos tirar do estudo é a de que o endosso da vacina será mais amplamente aceito se for proveniente de órgãos e instituições de saúde, ao invés de figuras políticas. Outro dado apresentado na discussão é a menor aceitação por parte de determinados grupos: idosos, negros e mulheres.

Esta informação deve orientar as autoridades públicas de saúde a direcionar esforços para o desenho de estratégias que visem aliviar as preocupações específicas que levam estes grupos a maior hesitação em aceitar a vacinação.

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