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Desmistificando a hipodermóclise | Colunistas

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Ariane Rodrigues

7 min há 7 dias

Introdução

A hipodermóclise é a infusão de fluidos e fármacos por via subcutânea. Apesar de ser uma técnica segura, ainda é pouco utilizada e um tanto mistificada por muitos profissionais que não receberam o devido treinamento e que não conhecem suas indicações. Os primeiros estudos dessa via datam de 1836, mas ela só começou a ser comprovada de fato em meados dos anos 1960. Dentre as várias vantagens, destacam-se uma melhor acessibilidade da via e conforto para o paciente.

A história da hipodermóclise (curiosidade)

Os primeiros relatos da técnica datam de 1836, pelo médico francês Lafargue, com a inoculação de morfina na pele de pacientes com o objetivo de obter analgesia; nessa ocasião, já foram registrados efeitos sistêmicos que comprovaram a eficiência da absorção por essa via. Após essa primeira experiencia, houve relatos de uso dessa mesma técnica em 1853, quando o médico escocês Alexander Wood desenvolveu a primeira seringa hipodérmica com a finalidade de fazer infusão de morfina pela via subcutânea. Em 1859, o médico inglês Charles Hunter fez relatos de infusões analgésicas bem sucedidas por essa mesma técnica. Em 1860, os relatos de infusões bem sucedidas de narcóticos por via subcutânea são registrados, como alternativa para tratamento da dor. Relatos médicos de 1865, durante a grande epidemia de cólera, também relatam o uso da infusão subcutânea de fluidos com sucesso.

Após a demonstração da técnica na Convenção da Sociedade de Superintendentes em Pittsburg, nos Estados Unidos, em 1903, a hipodermóclise começa ser utilizada em ambiente hospitalar para o tratamento de pacientes desidratados. Em 1915 foi publicada uma revisão sobre o uso de fluidos pela via subcutânea para o tratamento de quadros agudos e subagudos em crianças. Bem como, em 1921, também foi publicado um relatório sobre os benefícios e utilizações da técnica. Contudo, no período da Segunda Guerra Mundial, com o avanço das técnicas de infusão endovenosa e devido a infusão de soluções inadequadas pela via subcutânea, essa via perdeu campo de uso.

É no final da década de 1960, que se começa a falar novamente em hipodermóclise, e ela começa a ser aplicada em larga escala novamente, nessa ocasião, obtém destaque para o tratamento de pessoas idosas. Em 1991 um estudo demonstrou a eficácia da absorção de fluidos por via subcutânea.

Indicações

As indicações são diversas e incluem situações em que não é possível utilizar a via oral, como demência avançada com disfagia, náuseas e/ou vômitos prolongados, intolerância gástrica, obstrução intestinal, diarreia, confusão mental e dispneia intensa. Contudo, sua principal indicação é no controle farmacológico de sinais e sintomas inerentes ao processo de morrer, quando o doente não tem capacidade de realizar deglutição e necessitam de uma via que lhes forneça, o maior conforto possível. Outra forte indicação é desidratação não severa, em casos que não seja necessária uma infusão muito rápida.

Vantagens da via subcutânea

  • É mais acessível e confortável do que a via endovenosa.
  • É de fácil inserção e manutenção do cateter.
  • Pode ser feita em qualquer ambiente, incluindo em domicilio.
  • As complicações locais são raras.
  • Os riscos de efeitos adversos sistêmicos são raros.
  • Baixa flutuação das concentrações plasmáticas de opioides.
  • Possui baixo custo.

Desvantagens

  • O volume e a velocidade de infusão são limitados em até 1.500 ml em 24 horas, por sítio de punção.
  • A absorção é influenciada pela perfusão e vascularização do organismo, ou seja, é variável.
  • Não são todos os medicamentos e eletrólitos que podem ser feitos por essa via.

Contraindicações

De acordo com a literatura, a principal contraindicação é a recusa do paciente em fazer essa via. Todavia, existem outras situações que contraindicam a via subcutânea, por exemplo, se essa via apresenta risco ao paciente, como possibilidade de sangramento e hematoma quando o paciente possui algum distúrbio relacionado à hemostasia. Outra contraindicação é se o quadro clínico exigir uma reposição de volume urgente. A presença de edema também contraindica a via, já que reduz a absorção do que for infundido. Bem como, quando se tem pouco tecido subcutâneo, também se contraindica a via subcutânea, principalmente em áreas próximas de proeminências ósseas, nesse caso pode-se realizar o procedimento na coxa ou abdômen.

Deve-se sempre evitar: áreas com lesões de pele, áreas ulceradas ou infectadas, áreas de dissecção ganglionar ou de incisão cirúrgica e áreas submetidas a radioterapia.

É importante lembrar, que existe o risco de causar congestão pulmonar devido a infusão de grande volume para hidratação por via subcutânea.

Contraindicações absolutas:

  • Recusa do paciente;
  • Anasarca;
  • Trombocitopenia grave;
  • Necessidade de reposição volêmica rápida.

Contraindicações relativas:

  • Caquexia;
  • Síndrome da veia cava superior;
  • Ascite;
  • Áreas de circulação linfática comprometida (após cirurgia ou radioterapia);
  • Áreas de infecção, inflamação ou ulceração cutânea;
  • Proximidades de articulações;
  • Proeminências ósseas.

Sítios de punção

A escolha do sitio deve ser comum acordo da indicação médica e escolha do paciente. As áreas de articulações devem ser evitadas.

As áreas de punção são:

Subclávia (até 250 ml em 24 horas): É a área de maior escolha, juntamente com a abdominal. Contudo, em pacientes com caquexia deve-se evitar essa área pelo risco de pneumotórax.

Abdominal (até 1.000 ml em 24 horas): Dispõe de grande superfície de absorção, sendo a mais escolhida para infusão de maiores volumes.

Deltoidea (até 250 ml em 24 horas): É uma opção secundaria as duas primeiras.

Interescapular (até 1.000 ml em 24 horas): Essa é a área menos utilizada, porém muito usada quando há risco de o paciente retirar o cateter durante um estado de confusão mental, como delirium.

Anterolateral da coxa (até 1500 ml em 24 horas): Geralmente é utilizada quando outra área não é possível.

Sempre que for indicada uma nova punção, deve-se faze-la a uma distância mínima de 5 cm do local da punção anterior. Diferentemente de outras vias, o acesso a essa via é feito em inclinação de 45 graus com a pele.

Os medicamentos podem ser injetados em bolus ou em infusão continua, de acordo com o quadro do paciente e a indicação. Se for necessário realizar uma infusão maior do que 1500 ml por dia, deve-se fazer um segundo acesso no lado aposto ao primeiro. O mesmo acontece no caso de serem prescritas medicações incompatíveis por um único acesso.

Autora: Ariane Rodrigues

Instagram: @arianerodrigues_

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

O USO da via subcutânea em geriatria e cuidados paliativos: um guia da SBGG e da ANCP para profissionais. 2. ed. Rio de Janeiro: [s. n.], 2017. Manual.

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