Alergologia e imunologia

Dipirona contra COVID? | Colunistas

Dipirona contra COVID? | Colunistas

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Amanda Miranda

6 minhá 11 dias

Após mais de 1 ano de pandemia, o tratamento da COVID ainda é um tema controverso que diverge opiniões entre muitos leigos e até mesmo entre alguns médicos. Mas, afinal, o que prescrever a um paciente com COVID? Existe um tratamento precoce? O que diz a ciência?

A COVID-19

Em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China, identificou-se, após um surto de uma pneumonia de causa desconhecida, uma nova cepa do coronavírus, denominada Sars-CoV-2, o vírus causador da COVID-19.

O coronavírus é um velho conhecido dos humanos, tendo sido o Sars-CoV-2 o 7º coronavírus humano identificado. Entre os que já conhecíamos, estão o Sars-CoV, causador da síndrome respiratória aguda grave, e o MERS-CoV, causador da síndrome respiratória do Oriente Médio.

Evolução

Em janeiro de 2020, a OMS declarou o surto do novo coronavírus como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) – o maior nível de alerta da OMS. A última vez que foi declarada uma ESPII foi em 2018, devido ao surto de Ebola na República Democrática do Congo. Anteriormente, foram declaradas ESPII: a pandemia de H1N1 em 2009, a disseminação internacional de poliovírus em 2014, o surto de Ebola na África Ocidental também em 2014 e o vírus zika e seu consequente aumento de casos de microcefalia em 2016.

A COVID-19 foi se espalhando rapidamente pelo mundo; até que em março de 2020, foi declarada uma pandemia pela OMS.

Tratamento

Apesar de apresentar quadro leve em 80% dos casos, devido a sua alta transmissibilidade, a COVID-19 gerou, desde o início, preocupação quanto ao colapso do sistema de saúde. Desde então, travou-se uma guerra: uma corrida contra o tempo em busca de uma cura e/ou de uma vacina contra a COVID-19.

Entre os diversos estudos realizados em busca de um tratamento eficaz, alguns medicamentos tornaram-se mais populares: a hidroxicloroquina, usada em doenças autoimunes e na malária; a azitromicina, um antibiótico da classe dos macrolídeos; a ivermectina, um antiparasitário utilizado no tratamento da sarna; e antirretrovirais, como lopinavir/ritonavir.

Muitos deles mostraram-se eficazes em estudos in vitro. Entretanto, quando usados em humanos (in vivo) nunca houve comprovação científica de benefício do uso de qualquer um deles no tratamento ou na profilaxia da COVID-19. Os poucos estudos que se mostraram eficazes, utilizavam um número de voluntários muito baixo, de forma que não se podia comprovar se sua boa evolução era devido ao uso do medicamento em estudo ou devido a própria evolução natural da doença, já que a grande maioria dos casos evolui para cura naturalmente, sem nenhum medicamento.

Além de sua ineficiência, foram também comprovados efeitos adversos desses medicamentos, como arritmias devido ao prolongamento do intervalo QT e hepatite medicamentosa, culminando até em transplante de fígado em alguns casos. Ainda assim, mesmo sem evidências científicas, até hoje, não faltam defensores do uso desses medicamentos.

Mitos sobre a COVID

Durante a pandemia, houve a divulgação de muitas notícias falsas. Desde a fabricação do Sars-CoV-2 em laboratório chinês – fato sem nenhuma evidência, tendo inclusive já sido encontrado um vírus de genoma muito semelhante ao Sars-CoV-2 nos morcegos, os quais também são reservatório do Sars-CoV –  até o incentivo do uso de medicamentos sem eficácia comprovada, o famoso “kit covid”citado anteriormente. Também foi alvo de fake news as vacinas, questionadas quanto à sua eficácia devido ao seu rápido desenvolvimento.

De fato, o desenvolvimento de vacinas é algo bastante complexo, e por isso costuma levar cerca de 10 anos. Entretanto, para o desenvolvimento das vacinas contra a COVID, utilizou-se de conhecimentos já adquiridos através do desenvolvimento de vacinas contra SARS, MERS e Ebola. Além disso, instituições e pesquisadores no mundo todo estiveram extremamente empenhados neste objetivo do desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes – nossa arma mais eficaz contra a COVID e nossa maior esperança de voltar à normalidade.

Conclusão

Não existe nenhum tratamento específico para a COVID-19.
Para os casos leves, até o momento, mantém-se a recomendação de sintomáticos como a dipirona, hidratação, isolamento domiciliar e orientação quanto aos sinais de alarme.

Já para os casos graves, temos benefício comprovado no uso de dexametasona a partir do 7º dia do início dos sintomas em pacientes com suplementação de oxigênio; profilaxia antitrombótica com anticoagulantes; e antibióticos apenas se suspeita de infecção bacteriana secundária, o que parece ocorrer em 3-8% dos casos. Além de todo o suporte e monitorização que pacientes mais graves necessitam.

Talvez, cansados do isolamento social e em uma tentativa desesperada de acreditar em uma cura, algumas pessoas ancoram-se em experiências pessoais de indivíduos que fizeram uso desses medicamentos e se curaram, esquecendo-se de que em uma doença em que a maioria dos casos evoluem espontaneamente para a cura, pequenos números de nada valem. Diversos estudos ainda estão em andamento e a ciência persiste em busca de um tratamento precoce realmente eficaz. Mas até que isso aconteça, é necessário consciência e responsabilidade. A medida mais importante contra a COVID ainda é a profilaxia, com o uso de máscara, lavagem das mãos, álcool gel, distanciamento social e vacinação quando chegar a sua vez.

Autora: Amanda Miranda

Instagram: @mandinha_m

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

https://www.dci.com.br/saude/pandemias-na-historia/3485/

https://www.paho.org/pt/covid19

https://www.paho.org/pt/covid19/historico-da-pandemia-covid-19

Guia de Manejo COVID-19 HCFMUSP (2021)

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