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Disparidade global na distribuição da vacina da covid-19 | Colunistas

Disparidade global na distribuição da vacina da covid-19 | Colunistas

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Giuliane Alêssa

8 min há 50 dias

No início do ano de 2020, um acordo denominado mecanismo Covax, entre a OMS (Organização Mundial da Saúde), a Aliança Global das Vacinas (GAVI), UNICEF (Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a infância) e o CEPI (Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias), determinou acesso equitativo as vacinas contra Covid-19, com distribuição de doses de vacinas a pelo menos 20% da população de cada um dos 220 países envolvidos no acordo, com ênfase na ajuda aos países com menores rendas econômicas.¹´²

Em 9 de abril de 2021, uma reportagem do El País divulgou dados alarmantes acerca da distribuição da vacina contra COVID-19 pelo mundo. Segundo os dados da OMS, 14 países ainda não tinham acesso a vacina, em abril de 2021. Alguns não tinham solicitado, outros não tinham infraestrutura para solicitar e estavam em planejamento ainda. A meta da OMS era iniciar a vacinação em 220 territórios/países nos 100 primeiros dias de 2021, fato que deveria ocorrer em 10 de abril, sem sucesso. ¹

Além disso, na época, das 700 milhões de doses de vacina aplicadas pelo mundo, 87% correspondiam a doses dadas nos países chamados ricos ou desenvolvidos e apenas 0,2% nos países menos desenvolvidos e de menor renda. Segundo especialistas, acordos bilaterais acabam por aumentar essa desigualdade. ¹

Além da disparidade na distribuição física das vacinas, a discrepância no acesso a mesma também existe entre países e dentro de regiões do mesmo país. Isso é demonstrado na reportagem da Medscape de 6 de julho de 2021, que indicou que pelo menos 11,3 milhões de brasileiros percorreram até 3 mil quilômetros para ter acesso a dose vacinal anticovídica, seja por escolha ou, mais comumente, pela falta de estrutura eficaz em receber e fornecer as vacinas em diversos municípios brasileiros. ²

(https://www.dw.com/pt-br/o-cons%C3%B3rcio-mundial-covax-atingir%C3%A1-sua-meta-de-vacina%C3%A7%C3%A3o/a-57817321)

Há impacto no acesso equitativo as vacinas contra COVID-19?

Sim. É o que demonstra o estudo do Projeto S, realizado na cidade brasileira de Serrana, interior do estado de São Paulo. Segundo dados preliminares, após a vacinação em massa de cerca de 95% da população adulta da cidade, houve redução de 86% das internações por covid-19, de 80% dos casos sintomáticos e de 95% dos óbitos pela infecção do Sars-Cov-2. Além disso, no intervalo entre as duas doses da vacina, houve apenas 28 hospitalizações e 2 mortes nas idades entre 18 e 59 anos e 5 mortes e 15 internações na população acima de 60 anos. Após a segunda dose houve apenas 5 internações e 1 morte, incluindo a faixa etária acima dos 60 anos. Além destes dados, o estudo indicou que os efeitos colaterais foram de baixa incidência. ⁴

O tempo decorrido entre o primeiro surto de infecção pelo Sars-Cov-2 e a aplicação da primeira dose de vacina contra covid-19 em mais de 80% da população adulta da cidade foi de 1 ano (abril/2020 e abril/2021). Desde que se finalizou a aplicação das 2 doses na população local, o município registrou apenas 3 óbitos por covid-19

Abordagem da resistência em relação à vacinação

Uma parte importante acerca da distribuição vacinal contra covid-19 é a abordagem da hesitação em relação a vacina, tanto por parte da população dita leiga quanto dos profissionais de saúde. Em artigo publicado pelo Dr. Mohammad, clínico geral no St. George´s University (Inglaterra), a hesitação vacinal é definida como atraso em aceitar ou mesmo a recusa da dose das vacinas, mesmo estando disponíveis e sendo seguras. ⁶

A hesitação tem a ver com fatores variados dentro do contexto social de tempo, local, tipos de vacinas diferentes e é muito influenciada por questões como complacência, conveniência, contexto social e demográfico, bem como confiança e comunicação entre profissionais e população. Fatores estruturais como a desigualdade de acesso à saúde, desigualdade socioeconômica e racismo estrutural também elevam os índices de baixa confiança e adesão das campanhas da vacina. ⁶´⁷

Algumas pesquisas em 2021 relataram que ao menos cerca de 20% a 50% da população de diversos países ainda hesita em relação a confiança e adesão a vacina. ⁶´⁷

Dessa forma, Dr. Mohammad propõe a abordagem de “5 C’s” ao conversar com pacientes acerca da importância da vacina contra covid-19:

  • Confiança: Característica transmitida através dos profissionais de saúde que se mantém informados e atualizados acerca da segurança, eficácia e importância das vacinas, bem como saber manejar e ressignificar os fatos científicos verdadeiros sobre seus efeitos. ⁶
  • Complacência: Quando os riscos evitados pela vacina têm baixa percepção, principalmente em populações de nível socioeconômico mais baixos, há aumento da hesitação. Torna-se crucial abordar e divulgar estes benefícios. ⁷
  • Conveniência: Aqui entra a estratégia de praticidade e facilidade em obter a vacina. Quanto maior a oferta de locais de fácil acesso a vacina, horários estendidos nos postos e mais recursos humanos, melhor a adesão. Assim também, a eliminação de obstáculos financeiros, tanto aos países como para a população, isto é, acessos de menor custo ou mesmo gratuitos a vacina, melhoram a adesão. ⁷
  • Comunicação: Nessa parte o que mais interessa é engajar o diálogo entre médicos/profissionais da saúde e seus pacientes. Combater a desinformação vai além de dar mais e mais informações aleatoriamente. Deve-se questionar e descobrir abertamente quais as dúvidas, anseios e receios do paciente e da população local acerca da vacina, seus benefícios e desfechos. Além disso, é essencial que os locais e profissionais voltados à saúde se unam aos líderes das comunidades locais para disseminar informações relevantes e verídicas, de forma acessível e compreensível.
  • Contexto: Talvez a estratégia de maior importância. Saber lidar com contexto social, econômico, cultural e histórico de uma população é essencial ao sucesso da distribuição e adesão a vacina anticovídica e outras campanhas vacinais.

Cabe lembrar que treinamento e educação continuada dos envolvidos nas atividades das campanhas de vacina, com material educacional relevante é essencial também.

Andamento do mecanismo Covax

Até a data de 26 de julho de 2021, a desigualdade da distribuição vacinal é o padrão entre países ricos e pobres. Enquanto os países mais ricos, inclusos no mecanismo Covax, aplicam cerca de 95,4 doses para cada 100 habitantes, nos países mais pobres a aplicação é de apenas 1,5 doses por cada 100 habitantes, segundo dados da OMS e do Banco Mundial. Além disso, o sistema Covax conseguiu enviar apenas cerca de 135 milhões de doses para 136 países, bem abaixo da meta inicial do acordo. Estes baixos números se devem principalmente pelo acúmulo de doses por parte de países ricos e porque a principal fornecedora de vacinas pelo acordo, a Índia, teve que conter as exportações para aliviar a pandemia no próprio país. ⁵

Com isso, o mecanismo Covax e o Banco Mundial fizeram novo acordo de financiamento no dia 26 de julho de 2021: financiar doses de vacinas com destino aos 92 países mais pobres do Covax, de modo a permitir a vacinação de pelo menos 250 milhões de pessoas até metade de 2022, além da cota já financiada pelos doadores (países de alta renda e doadores privados). ⁵

Em meados de julho de 2021 o sistema Covax recebeu a promessa de doações de 250 milhões de doces vacinais anticovid-19 em 6 a 8 semanas, destinadas, segundo a OMS, ao acesso gratuito para os países mais pobres.⁸

Cabe a OMS e aos governos envolvidos no mecanismo Covax, constante reestruturação da cadeia de distribuição das doses de vacina pelo mundo e com isso reduzir ao máximo a disparidade de acesso e assim reduzir os prejuízos humanos e econômicos deixados pela pandemia.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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REFERENCIAS

  1. https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-04-09/o-escandaloso-desequilibrio-na-distribuicao-de-vacinas-contra-a-covid-19-entre-ricos-e-pobres.html
  2. https://www.who.int/initiatives/act-accelerator/covax
  3. https://portugues.medscape.com/verartigo/6506506#vp_2
  4. Serrana dá o recado: mais gente vacinada, menos casos e mortes por covid-19 – Medscape – 1 de junho de 2021.
  5. https://istoe.com.br/covax-e-banco-mundial-se-unem-para-levar-mais-vacinas-aos-paises-pobres/
  6. BMJ2021;373:n1138http://dx.doi.org/10.1136/bmj.n1138Published: 20 May 2021 on 28 July 2021 by guest. Protected by copyright.http://www.bmj.com/BMJ: first published as 10.1136/bmj.n1138 on 20 May 2021. Downloaded from
  7. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol. 2020;23(5):e210032
  8. https://istoe.com.br/covax-espera-receber-250-milhoes-de-doses-de-vacinas-em-6-a-8-semanas/
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