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Doença do Refluxo Gastroesofágico e Globus Faríngeo | Colunistas

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Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) se desenvolve quando não ocorre o fechamento adequado do esfíncter esofágico inferior após a passagem de alimentos, resultando no refluxo, que é a volta desse juntamente como suco gástrico. A irritação dos tecidos que revestem o esôfago provocada pelo refluxo caracteriza sintomas como azia, tosse e dor no peito. É considerado um dos diagnósticos mais comuns na área da gastroenterologia, e a sua importância não se relaciona apenas com a prevalência elevada, mas também à baixa qualidade de vida e custos elevados que esta impõe aos pacientes. Além disso, a incidência do adenocarcinoma esofágico relacionado ao esôfago de Barrett, que é complicação da DRGE, vem aumentando de forma expressiva nos últimos tempos.

Epidemiologia

Estima-se que tenha uma prevalência de 10-20% no mundo ocidental e de 5% na Ásia. Os fatores de risco para o desenvolvimento de DRGE incluem obesidade e, possivelmente, avanço da idade. Um componente genético também pode ter um papel importante, pois a DRGE é mais comum em pacientes com histórico familiar positivo, e com gêmeos monozigóticos do que dizigóticos.

Fisiopatologia

O mecanismo fisiopatológico da DRGE é caracterizado pela diminuição da resistência do epitélio mucoso esofágico com dilatação do espaço intercelular e presença de erosões e, consequentemente, lesões na mucosa. Esse processo acontece em decorrência da exposição do tecido durante o refluxo a agentes agressores, como ácido, pepsina, sais biliares e enzimas pancreáticas presentes no suco gástrico. Entretanto, a presença de erosões pode não ocorrer e, dessa forma, a afecção é caracterizada como a forma não erosiva.

Em condições normais, ocorrem episódios de refluxo de curta duração e rápida depuração, sendo conhecido por refluxo fisiológico. No entanto, inúmeros fatores podem levar ao surgimento do refluxo patológico, como aberturas ou relaxamentos transitórios do esfíncter inferior do esôfago ou a hipotensão esfincteriana.

Na etiopatogenia da doença, o refluxo ácido é mais comum do que o refluxo não ácido. Porém, recentemente, alguns estudos têm sugerido maior importância para o refluxo não ácido na gênese dos sintomas, sobretudo, tosse, pigarro e globus faríngeo em pacientes em tratamento com inibidores de bomba de prótons (IBP).

Doença do refluxo não erosiva (DRGE-NE)

É considerada a forma mais frequente e é definida pela presença de sintomas desagradáveis associados ao refluxo com ausência de erosões ao exame endoscópico. Para confirmação da doença é necessária a realização do teste terapêutico utilizando inibidores de bomba de prótons (IBP).

Doença do refluxo erosiva (DRGE-E)

Apresenta-se com sintomatologia clínica e presença de erosões no exame endoscópico. Diversas classificações endoscópicas da esofagite têm sido propostas, sendo a mais utilizada a de Los Angeles. A classificação é feita em quatro graus:

Grau A: Uma ou mais soluções de continuidade da mucosa confinada às pregas mucosas, não maiores que 5 mm cada.

Grau B: Pelo menos uma solução de continuidade da mucosa com mais de 5 mm de comprimento, confinada às pregas mucosas e não contíguas entre o topo de duas pregas.

Grau C:  Pelo menos uma solução de continuidade da mucosa confluente entre o topo de duas (ou mais) pregas mucosas, ocupando menos que 75% da circunferência do esôfago.

Grau D: Uma ou mais quebra de mucosa que envolve ao menos 75% da circunferência do esôfago.

Como diagnosticar?

O diagnóstico é baseado principalmente na anamnese bem detalhada, teste terapêutico e endoscopia digestiva alta (EDA). A história clínica deve identificar os sintomas característicos, bem como definir sua intensidade, duração e frequência. Existem os sintomas típicos e atípicos. Os típicos são a pirose, também conhecida como azia, e consiste na sensação de queimação retroesternal que irradia do epigástrio até a base do pescoço, podendo atingir a garganta; e a regurgitação, que é a percepção do fluxo do conteúdo gástrico refluindo para a boca ou hipofaringe. Os principais sintomas atípicos são a dor torácica não cardíaca, rouquidão, pigarro, tosse crônica, globus faríngeo. Quando os dois sintomas ocorrem simultaneamente, a probabilidade de os pacientes apresentarem a patologia é elevada, com cerca de 90%. A ausência de sintomatologia típica não descarta o diagnóstico da DRGE quando há as manifestações atípicas.

Tratamento

O tratamento para a DRGE é baseado principalmente em controlar os sintomas, cicatrizar lesões e prevenir as complicações. É importante criar uma boa relação médico-paciente, por isso, é imprescindível explicar ao paciente sobre a natureza crônica da enfermidade, com o propósito de aumentar a aderência ao tratamento.

Mudanças de hábitos de vida são cruciais, como redução do peso corporal, cessação tabágica, evitar refeições copiosas, evitar deitar por duas horas após refeições e ter cuidado com medicamentos de “risco”, como: anticolinérgicos, antidepressivos tricíclicos e bloqueadores de canais de cálcio.

Quanto ao tratamento medicamentoso, os IBPs devem ser considerados como primeira escolha (ciclo de 4-8 semanas). Em casos mais graves, opta-se por tratamentos cirúrgicos.

Globus Faríngeo

É caracterizado por uma sensação de “bolo na garganta” não relacionada à deglutição, quando não há massa presente. Não existe etiologia específica ou mecanismo fisiopatológico que tenha sido estabelecido, mas alguns estudos sugerem que a pressão elevada do cricofaríngeo ou anormalidades motoras hipofaríngeas ocorram durante o momento dos sintomas.

Ao avaliar o paciente com esse sintoma é importante distinguir a sensação do globo da disfagia verdadeira, pois pode sugerir uma doença estrutural ou motora da faringe ou do esôfago e quadros ansiosos e depressivos.

O tratamento da sensação do globo envolve a tranquilização do paciente e cuidado. Nenhum fármaco tem eficácia comprovada.

Conclusão

A doença do refluxo gastroesofágica (DRGE) é muito comum na prática médica, portanto, é importante entendê-la de forma integral para que os pacientes tenham uma boa qualidade de vida e evitar complicações futuras. Além disso, é importante destacar os sintomas atípicos que ela pode apresentar, dando ênfase ao globus faríngeo que foi objetivo de estudo neste artigo, para assim compreender que ele pode estar presente na DRGE, mas não está exclusivamente relacionado a essa patologia, podendo se apresentar em diversas outras doenças, por isso a importância de uma boa avaliação clínica.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

– Zaterka, S.; Eisig, J.N. Tratado de Gastroenterologia da Graduação à Pós-graduação. 2ed. Editorial Ateneu, 2016.

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