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Doenças infecciosas prevalentes em períodos chuvosos e enchentes | Colunistas

Doenças infecciosas prevalentes em períodos chuvosos e enchentes | Colunistas

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Durante os períodos de chuvas intensas em locais cujo sistema de escoamento e gestão hídrica são insuficientes, as enchentes tendem a ocorrer ciclicamente. Em decorrência desses fenômenos a população sofre com o aparecimento de doenças típicas desse período, transformando um problema de má gestão num problema de saúde pública.

Aumento dos casos

Durante os períodos de aumento da precipitação, algumas doenças mais comuns dessa época apresentam maiores índices devido aumento de sua transmissibilidade. Seja pelo aumento dos vetores, quanto pela contaminação da água e/ou de alimentos, essas doenças podem alcançar uma maior parcela da população e causar surtos nessas áreas.

Hepatites virais

As hepatites virais compreendem um grupo de doenças causadas por diferentes patógenos virais que compartilham de algumas semelhanças, dentre elas o tropismo pelos hepatócitos, apesar de distintas em aspectos laboratoriais e clínicos. 

Dentro do contexto das enchentes, as hepatites virais mais relevantes são a A e E, visto que suas transmissões são majoritariamente via fecal-oral, ou seja, pelo contato com água e/ou alimentos contaminados. A hepatite A já possui vacina prevista no calendário nacional, enquanto a hepatite E ainda não possui vacina.

No quadro clínico dessas hepatites, o mais comum são dores abdominais, náuseas, vômitos, diarreia e o aparecimento de icterícia. Geralmente é autolimitado a algumas semanas, com raras complicações mais graves como falência hepática.

Nas últimas décadas estas hepatites têm apresentado diminuição do número de casos graças à vacinação e à melhoria da infraestrutura.

Leptospirose 

Trata-se de uma doença causada pela espiroqueta Leptospira, uma bactéria transmitida através da urina de roedores contaminados, sobretudo os ratos. Devido à distribuição mundial desse roedor, a doença está presente em praticamente todo o planeta, entretanto sua transmissão difere em países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Naqueles com bom saneamento básico, a população afetada é basicamente os trabalhadores em funções de risco como aqueles que trabalham em redes de esgoto. Já nos demais locais a transmissão ocorre principalmente em períodos de chuva devido contato maior e mais direto com águas contaminadas durante enchentes.

O período de incubação varia de 1 a 3 semanas. O quadro clínico da leptospirose pode ser bastante clássico com apresentação de mialgia (sobretudo em panturrilhas), dor abdominal, colúria, febre, hemorragia e cefaleia, essa apresentação geralmente é presente em 85% dos casos.

Os casos mais graves são descritos como a “Síndrome de Weil”: icterícia rubínica, insuficiência renal e hemorragias graves.

Por ser uma doença bacteriana, o tratamento é feito através de antibióticos, podendo ser necessária internação em UTI para suportes mais específicos em casos de evolução para Síndrome de Weil.

Tétano

É uma doença causada pela bactéria Clostridium tetani, um gram-positivo transmitido através de esporos presentes em solos contaminados por fezes humanas ou estercos animais (principalmente cavalos), podendo também ser carregados na poeira ou presentes na pele.

A doença também é conhecida popularmente como “Mal dos sete dias”, pois a bactéria também pode ser transmitida por materiais mal higienizados. Nesse caso, em partos caseiros nos quais eram utilizados materiais não-esterilizados para cortar o cordão umbilical, contaminavam os recém-nascidos, com elevada taxa de mortalidade.

A contaminação se dá pela entradas da bactéria através de perfurações na pele, queimaduras ou necroses. O que se segue é a patogenia causada pela toxina produzida pela bactéria, causando rigidez muscular, contrações involuntárias e intensa mialgia. A complicação mais temida é o acometimento da musculatura respiratória, importante causa de morte pela doença.

O tratamento pode englobar antibioticoterapia, controle muscular, analgesia, auxílio ventilatório e reforço vacinal. Atualmente há vacinação prevista no calendário vacinal disponibilizado gratuitamente pelo SUS.

Dengue

A dengue é uma doença amplamente conhecida no território nacional. Trata-se de uma arbovirose transmitida através da picada de seu vetor transmissor, sobretudo o Aedes. Durante as épocas que sucedem as enchentes e grandes precipitações é de se esperar o aumento dos casos, já que tem-se ali um ambiente propício para a proliferação do mosquito (períodos de chuva e calor). É importante lembrar que o mosquito se prolifera em locais onde há acúmulo de água.

A apresentação clínica envolve febre alta, cefaléia, dor abdominal, mialgia, dor retroorbitária, surgimento de petéquias e prostração. A complicação mais temida é a sua evolução para seu quadro mais grave conhecido como Síndrome da Dengue Hemorrágica caracterizada pelo surgimento de plaquetopenia e hemoconcentração com elevado risco de óbito se não tratada.

A dengue é uma doença grave que deve ser rapidamente identificada e tratada, visto que a piora clínica pode ser súbita em alguns pacientes. Em linhas gerais o tratamento é sintomático e deve ser acompanhado de intensa reposição volêmica.

A despeito de haver uma vacina disponível, ela ainda é recente  e possui indicações estritas e por isso ainda é pouco difundida no mercado. Sendo assim, a melhor forma de prevenção da dengue é combater a proliferação do vetor.

Conclusão

Algumas doenças infecciosas apresentam maior disseminação durante os períodos chuvosos. Esse aumento apresenta um padrão cíclico, portanto é parcialmente previsível. Sendo assim, espera-se respostas adequadas dos serviços públicos com políticas eficazes para a prevenção desses casos bem como a melhoria da infraestrutura de modo que as enchentes – e suas consequências – possam ser evitadas. Ademais, é importante salientar a necessidade de intervenções rápidas e cuidados voltados à saúde da população afetadas por grandes precipitações e eventuais enchentes.

Autor: Víctor Miranda Lucas

Instagram: @victormirandalucas

Referências:

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GRACIE, R.; XAVIER, D.R.; MEDRONHO, R. Inundações e leptospirose nos municípios brasileiros no período de 2003 a 2013: utilização de técnicas de mineração de dados. Cadernos de Saúde Pública, v.37, n.5, p.1-15, 2021.

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O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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