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Doenças Neurológicas: Cefaleias | Colunistas

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Imagem de perfil de Bianca Teodoro

No assunto de hoje vamos aprender um pouco mais sobre as cefaleias. Conhecidas popularmente como “dores de cabeça”, as cefaleias são divididas de acordo com o padrão álgico, duração, região craniana afetada e etiologia (secundárias). Ficou curioso para saber mais?

Então, continue a leitura e aprofunde o conhecimento sobre o tema.

Definição

A cefaleia é uma dor de acometimento cefálico, sendo o sintoma neurológico mais comum no cotidiano das Unidades de Saúde, tanto no âmbito dos serviços de urgências ou emergências hospitalares como nas unidades que integram a Atenção Básica. Podemos classificá-la como primária, quando é a patologia em si, ou como secundária, quando representa um sintoma de outra patologia estrutural. São consideradas um problema de saúde  pública, uma vez que são desordens debilitantes e que, por vezes, impossibilitam ações rotineiras, o que causa grande prejuízo pessoal e social.

Classificação

As cefaleias crônicas podem ser classificadas em primárias e secundárias. Dentre as principais cefaleias primárias, podemos destacar:

  • Cefaleia Tensional;
  • Enxaqueca (migrânea);
  • Cefaleia em Salvas.

Já nas cefaleias secundárias, destacam-se:

  • Cefaleia da Hipertensão Intracraniana;
  • Cefaleia da Arterite Temporal.

Epidemiologia da Cefaleia

Segundo um estudo apresentado pela International Association for the Study of Pain,  50% da população geral tem cefaleia durante um determinado ano e mais de 90% refere história de cefaleia durante a vida. Portanto, é de extrema importância o conhecimento acerca da epidemiologia para auxiliar a conduta correta na prática clínica.

  • A prevalência de migrânea nas crianças e nos adolescentes é de 7,7%.
  • A cefaleia do tipo tensional é mais comum que a migrânea, com prevalência ao longo da vida de aproximadamente 52%.
  • 3% da população geral tem cefaleia crônica, ou seja, cefaleia em ≥15 dias por mês. Estes são os com maior redução na sua capacidade funcional.
  • A cefaleia tensional é a causa mais comum de cefaleia primária (incidência em 40-70% da população, mais comum no sexo feminino).
  • A enxaqueca é a segunda causa de cefaleia primária (prevalência de 15% na população, mais comum no sexo feminino), já as cefaleia em salvas são causa incomum de cefaleia; sendo mais comum mais comum em homens de meia-idade.

Quadro clínico e Tratamento

É importante saber, que as manifestações clínicas e o tratamento (abortivo e profilático) são individualizados, uma vez que dependem do tipo de cefaleia. Sendo assim, o conteúdo será fragmentado de acordo com a classificação das cefaleias em primárias e secundárias.

CEFALEIA PRIMÁRIA

  1. Cefaleia tensional:  caracteriza-se por uma cefaleia de caráter opressivo, frontoccipital ou temporo-occipital  bilateral, intensidade leve a moderada (não acorda o paciente; o paciente não precisa parar os seus afazeres), duração prolongada (horas, dias), geralmente se inicia no período vespertino ou noturno, após um dia estressante ou algum tipo de aborrecimento.
Imagem 1: Representação sintomática da cefaleia tensional. Fonte: https://incrivel.club/criatividade-saude
  • Tratamento abortivo: analgésicos (paracetamol, dipirona, AINE) e/ou relaxantes musculares (tizanidina) e técnicas de relaxamento.
  • Tratamento profilático: antidepressivos tricíclicos (amitriptilina ou nortriptilina).
  • Enxaqueca (migrânea): caracteriza-se por uma cefaleia de caráter pulsátil, geralmente unilateral, intensidade moderada a severa (pode acordar o paciente; o paciente pode ter que parar os seus afazeres), duração variável (4 a 72 horas), associada a náuseas e vômitos, fotofobia e fonofobia, desencadeada pelo consumo de vinho, período menstrual entre outros. As manifestações clínicas variam de acordo com as fases e com a presença ou não de aura.

Pródromo: alteração do humor, mal-estar nas 24-48h precedentes.

Enxaqueca sem aura (conhecida como enxaqueca comum): forma mais comum.

Enxaqueca com aura (conhecida como enxaqueca clássica): sinais e sintomas neurológicos focais que precedem, acompanham ou surgem após a crise de cefaleia. A
aura pode ser representada por: escotomas cintilantes, parestesias periorais ou dimidiadas,
hipoestesias ou paresias dimidiadas, vertigem + diplopia (enxaqueca basilar), hemiplegia
(enxaqueca hemiplégica familiar).

  • Tratamento abortivo: AINH, derivados da ergotamina, isometepteno (Neosaldina®), agonistas serotoninérgicos (sumatriptan, naratriptan), sendo estes últimos os de maior eficácia.
Fonte: https://incrivel.club/criatividade-saude. Imagem 2: Representação sintomática da enxaqueca
  • Tratamento profilático: 1ª linha – betabloqueadores (propranolol, atenolol), antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina). Como alternativas para o tratamento, temos: antiepilépticos (valproato e topiramato) antagonistas da serotonina (ergotamina, diidroergotamina, metisergida, pizotifeno e ciproeptadina); anti-inflamatórios não esteroidais (ácido acetilsalicílico, derivados da indometacina, derivados do ácido mefenâmico e tolfenâmico, diclofenaco, piroxicam, naproxeno, clonixinato de lisina, nimesulida, lumiracoxib e o celecoxib). Estes são usados para o tratamento preventivo de curto prazo como, por exemplo, a enxaqueca menstrual; e uma miscelânea de substâncias como a tizanidina, vitamina B2 (riboflaviana) e a vitamina B6 (piridoxina).
  • Cefaleia em salvas (cefaleia histamínica, cluster headache): caracteriza-se por ocorrer diariamente durante um período curto (semanas) seguindo-se um longo período assintomático. Daí o nome “em salvas”. São vários episódios sucessivos, geralmente noturnos, de cefaleia frontorbitária unilateral, muito intensa (acorda o paciente), duração curta (15-180 minutos) e associados a lacrimejamento, congestão nasal e conjuntival e edema periorbitário ipsilateral.
Imagem 3: Representação sintomática da cefaleia em salvas. Fonte: https://incrivel.club/criatividade-saude
  • Tratamento abortivo: oxigenoterapia (máscara facial com 10-12 L/min de O2 por 15-20 min) ou – sumatriptano, 6 mg, subcutâneo, máximo de três injeções por dia.
  • Tratamento profilático: verapamil (droga de escolha), carbonato de lítio, ergotamina.

CEFALEIA SECUNDÁRIA

  1. Cefaleia da hipertensão intracraniana: costuma ser intensa, contínua, matinal e progressiva, associada a náuseas ou vômitos em jato. O exame físico mostra papiledema e/ou paralisia do VI par craniano (pseudolocalização) e/ou sinais neurológicos focais e/ou rigidez de nuca e/ou alteração da consciência. Está indicada uma TC de crânio contrastada. Se negativa, exame do liquor com medida da PIC e pesquisa de meningite.
  • Cefaleia da arterite temporal: é uma causa de cefaleia frontotemporal ou temporo-occipital uni ou bilateral em idosos (> 60 anos). É a vasculite sistêmica mais comum dos adultos. Relaciona-se a sintomas gerais: perda de peso, astenia e febre, além da síndrome de polimialgia reumática (dor e rigidez das cinturas escapular e pélvica) e a claudicação da mandíbula. Podem ser detectados nódulos palpáveis (e dolorosos) nas têmporas. O exame laboratorial pode mostrar anemia normo e VHS bastante elevado (> 55 ou mesmo 100 mm/h). Resposta dramática ao corticoide é uma de suas principais características!
  • Tratamento: prednisona em altas doses (80-100 mg/dia).

Diagnóstico de cefaleia crônica

O diagnóstico de cefaleia na maioria das vezes é clínico, sendo a investigação focada na anamnese e complementada pelo exame físico. É importante o profissional estar atento às seguintes questões:

  • Ausência de quadro álgico semelhante no passado;
  • Início súbito e progressão importante da dor em curto espaço de tempo;
  • Alteração de sensório;
  • Infecção concomitante;
  • Idade acima de 50 anos;
  • Imunossupressão;
  • História de trauma ou associação com traumatismo craniano;
  • Exame físico apresentando papiledema, meningismos ou qualquer outra alteração neurológica.

A partir da ausência dos sinais e sintomas descritos anteriormente, a probabilidade de causa secundária do quadro de cefaleia diminui, guiando a investigação para as cefaleias primárias. Deve-se sempre suspeitar de cefaleia secundária, quando as características da cefaleia não se encaixam em nenhum tipo de cefaleia crônica primária; quando a cefaleia é progressiva (surgiu há pouco tempo ou piorou o padrão de uma cefaleia antiga), refratária ao tratamento convencional ou associada a déficit neurológico ou sinais e sintomas de uma doença orgânica.

Gostou de aprender um pouco mais sobre cefaleias? Então, bora que agora é hora de praticar.

1) RESIDÊNCIA MÉDICA 2016 – SISTEMA INTEGRADO SAÚDE ESCOLA DO SUS – TO
Ana, uma jovem de 33 anos, procura a unidade de saúde com queixa de cefaleia intensa, pulsátil, unilateral, acompanhada de náuseas e fotofobia. Tem crises semelhantes desde os 20 anos de idade. Relata história na infância de trauma na cabeça após queda da bicicleta. Sem sinais de alteração neurológica ao exame físico. O quadro clínico é compatível com o diagnóstico de:
a) Cefaleia em salvas (cluster headache);
b) Cefaleia tensional crônica;
c) Enxaqueca sem aura;
d) Cefaleia atribuída a trauma de crânio.

RESPOSTA

1 -Os sinais e sintomas descritos são clássicos da cefaleia em salvas (cluster headache), uma cefaleia trigeminal autonômica primária cujo tratamento abortivo consiste meramente em oxigenoterapia inalatória na maioria dos casos. Não há hemorragia intracraniana ou lesão neoplásica associada, pois se trata – como dissemos – de síndrome de cefaleia PRIMÁRIA. Logo, resposta certa: A.

Autor(a) : Bianca Teodoro – @biateodoro1

Referências:

DA CRUZ, Marina Coimbra et al. Cefaleia do tipo tensional: revisão de literatura. Archives of Health Investigation, v. 6, n. 2, 2017.

OKAMURA, Mirna Namie et al. Prevalência e fatores associados de cefaleia entre adolescentes: resultados de um estudo de base populacional. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 23, p. e200067, 2020.

DE OLIVEIRA KIRST, Fernanda; DAUDT, Arthur Dondonis; DAUDT, Carmen Vera Giacobbo. CEFALEIAS PRIMÁRIAS: DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO.

CASTRO, R. C. L.; COLLARES, M. F. Cefaleia. In: Duncan BB et al. Medicina ambulatorial:
condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. p.
745-767.


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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