Colunistas

“Ecstasy” (MDMA): fisiologia, efeitos e riscos | Colunistas

“Ecstasy” (MDMA): fisiologia, efeitos e riscos | Colunistas

Compartilhar

O que é MDMA? 

O “Ecstasy”  (3,4-metilenodioximetanfetamina) ou MDMA — também conhecido como “bala”, “molly”, “MD” — é um composto derivado das metanfetaminas, sintetizado na Alemanha em 1912, sendo seu primeiro uso farmacológico como um inibidor de apetite. Posteriormente, houve a tentativa de uso como fármaco psicoterápico, por volta de 1950, em pacientes submetidos a psicanálise. Nos anos 80, houve grande entusiasmo com a substância, que chegou a ser considerada de grande importância para tratamento de transtornos do humor. Ainda em 1985, o MDMA teve seu uso restrito nos Estados Unidos e, em 1988, no Brasil. O princípio ativo da substância comumente conhecida como “Ecstasy” é o MDMA , mas os comprimidos consumidos como MDMA podem ter diversas substâncias, como o 2CB, 2CT2, DMY, Bromo-dragonfly, DOM, MDEA, MDA ou outros, com maior potencial psicotrópico e efeitos colaterais diferentes.

Como o Ecstasy MDMA funciona?

O mecanismo de ação do MDMA envolve a liberação de neurotransmissores como a serotonina, noradrenalina e dopamina, em diversas partes do sistema nervoso central. Libera noradrenalina e serotonina em taxas semelhantes, ambas maiores que dopamina. Assim, as alterações no humor e na percepção são atribuídas à liberação de dopamina e serotonina, enquanto as alterações na temperatura corporal ocorrem por ação de todos (dopamina, serotonina e noradrenalina). Além disso, o MDMA atua como agonista indireto no receptor serotoninérgico pré-sináptico,  que não só aumenta a liberação de serotonina, como inibe sua recaptação. Atua, ainda, como inibidor da enzima monoaminaoxidase (MAO), aumentando a concentração e liberação de serotonina no sistema nervoso central. 

A ação da substância começa com 30 a 60 minutos do seu uso e tem duração de até 6 horas. O pico de concentração plasmática ocorre com 2 horas da ingestão e os níveis residuais são encontrados até 24 horas depois do consumo. 

Quais os sinais e sintomas do uso de MDMA?

Os sinais e sintomas do uso de MDMA são agitação psicomotora, euforia, empatia, excitação, perda do sono, inibição do apetite, trismo e bruxismo. Além disso, são descritos efeitos como alteração da percepção de tempo, aumento da autoconfiança, queda da defesa, comportamentos bizarros, alterações visuais e aumento da interação social. Doses altas, como 300mg, podem cursar com alucinações. 

Quem usa MDMA?

A maioria dos usuários são adultos jovens, estudantes, de classe social privilegiada, poliusuários de drogas. Na União Europeia, de 0,5-6% dos adultos jovens já tiveram contato com a substância. Entre os universitários do Reino Unido, o número sobe para 13% e encontra-se em alta em países como a França. No Brasil, estudos apontaram um aumento do uso de drogas em geral no meio universitário, como cocaína, anfetaminas — incluindo o MDMA —, crack e inalantes. 

Quais os riscos?

Cardiovasculares: o uso de MDMA pode cursar com aumentos da frequência cardíaca e pressão arterial de maneira letal, apresentando emergências hipertensivas, infarto miocárdico, dissecção aórtica e arritmias. Além disso, pode haver hemorragia intracraniana e, até mesmo, aneurismas.

Hipertermia: a combinação de liberação maciça de neurotransmissores e aumento da movimentação, como manifestação da agitação induzida pela substância, e exposição ambiental ao calor pode cursar com hipertermia, com relatos de pacientes admitidos com temperatura corporal de 43ºC. Há relatos de óbitos em casos com temperatura corporal superior a 41,5ºC. Essa condição pode levar a coagulação intravascular disseminada, insuficiência renal e rabdomiólise. Vale ressaltar não haver indicação de uso de antipiréticos nesses pacientes, sendo o resfriamento externo a medida mais adequada. 

Hiponatremia: a intensa sudorese associada ao consumo de MDMA, bem como ingesta exagerada de água e secreção aumentada do hormônio antidiurético (ADH), com retenção de água, pode cursar com hiponatremia grave (Na sérico <120meq/L). A hiponatremia pode levar a acometimento neurológico grave, cursando com crises convulsivas, confusão, edema cerebral, herniação e morte. A população femina parece ser de maior risco para hiponatremia grave e sequelas neurológicas ligadas ao quadro. 

Neurológico: a principal manifestação neurológica relacionada ao uso de MDMA é a agitação psicomotora, as demais relacionadas principalmente com a hiponatremia, como citado anteriormente. Porém, as alterações de sensopercepção, juízo, empatia e capacidade defensiva podem levar a outros quadros graves como agressões. acidentes, exposição sexual e estupro, sendo essas causas frequentes de busca a serviços de urgência. 

Hepatotoxicidade: além da hepatotoxicidade ligada à coagulação intravascular disseminada e à hipertermia, são descritos casos de necrose centrolobular, hepatite e fibrose hepática relacionados ao abuso de MDMA.

Síndrome serotoninérgica: trata-se de uma condição potencialmente fatal caracterizada pela disfunção autonômica, aitividade neuromuscular anormal e alteração do estado mental. Seu diagnóstico é clínico e segue os critérios de Hunter, os quais consistem na ingestão de alguma substância serotoninérgica e UMA das seguintes manifestações: 

Pacientes que utilizam inibidores da recaptação de serotonina (IRRS), inibidores da MAO ou outras drogas que aumentam a concentração de serotonina, como o lítio, têm maior risco de desenvolver síndrome serotoninérgica.  

Neuropsiquiátrico: o uso de MDMA pode cursar com ansiedade, ataque de pânico e depressão. Os efeitos neuropsiquiátricos a longo prazo são uma das principais ameaças, sendo que estudos apontam neurotoxicidade em animais, com destruição de axônios e terminações nervosas, e há relatos de menores níveis de serotonina no sistema nervoso central de usuários crônicos. Além disso, exames de imagem (tomografia de emissão de prótons) indicam lesões cerebrais em usuários. 

Outra correlação importante é a maior propensão dos usuários de MDMA a desensvolverem dependência e uso abusivo de álcool e outras substâncias, sendo que em um estudo foi percebido que 97% dos usuários de MDMA consomem outras substâncias ilícitas.  

MDMA vicia? 

Em um estudo com adultos jovens e adolescentes, 43% dos usuários apresentavam critérios para dependência da substância e 34% preenchiam critério para abuso. Além disso, 60% dos usuários apresentavam sintomas de abstinência, como tristeza, fadiga, insônia, dificuldade de concentração e fissura.  

Conclusão:

As “club-drugs” foram um dia consideradas inofensivas, porém, com o aumento do número e da qualidade dos estudos, ficam evidentes os riscos relacionados ao seu uso. Mesmo o uso recreativo pode cursar com acidentes e situações potencialmente fatais, principalmente quando há envolvimento de substâncias diferentes, como o álcool, anfetaminas e alucinógenos. 

Autor: Vinícius Nunes Soares

@vinicius_n.s 

Referências: 

Abuso e dependência de MDMA e outras club drugs- https://www.researchgate.net/profile/Marcelo-Ribeiro-De-Araujo/publication/283153838_Abuso_e_dependencia_das_club_drugs_2012/links/562d5b0308ae518e34824afd/Abuso-e-dependencia-das-club-drugs-2012.pdf

Êxtase (MDMA): efeitos farmacológicos e tóxicos, mecanismo de ação e abordagem clínica: https://www.scielo.br/j/rpc/a/nH5gDrCTgCb3qkhW5Xcd89k/?format=pdf&lang=pt

Serotonin syndrome (serotonin toxicity):

https://www.uptodate.com/contents/serotonin-syndrome-serotonin-toxicity?search=ecstasy&topicRef=302&source=see_link

MDMA (ecstasy) intoxication:

https://www.uptodate.com/contents/mdma-ecstasy-intoxication?search=ecstasy&source=search_result&selectedTitle=1~128&usage_type=default&display_rank=1#H17436336

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Compartilhe com seus amigos: