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Efeitos Colaterais de Antipsicóticos | Colunistas

Efeitos Colaterais de Antipsicóticos | Colunistas

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A psicose é um estado mental caracterizado por uma percepção distorcida ou anormal da realidade. Nessa situação, o indivíduo pode apresentar alucinações visuais e auditivas, que normalmente ocorrem por uma doença psiquiátrica de base, como a esquizofrenia. Esse estado pode ser agudo ou crônico, ou seja, pode ocorrer a recorrência desses episódios em intervalos variados. Para o tratamento dessa patologia são usados antipsicóticos, como clozapina, olanzapina e risperidona. Contudo, estudos têm mostrado que esses diferentes fármacos apresentam efeitos colaterais com manifestações clínicas diferentes, segundo a sua classe e seu mecanismo de ação; por esse motivo é importante que o médico generalista conheça os principais antipsicóticos e seus efeitos colaterais.

O que são antipsicóticos?

Os antipsicóticos são usados para o tratamento de sintomas em pacientes com esquizofrenia, contudo, eles podem apresentar efeitos colaterais conforme sua classificação. Esses fármacos podem ser divididos em primeira e segunda geração, estes últimos também são chamados de atípicos.

O uso desses medicamentos é importante para diminuir os efeitos característicos dessa patologia e também para a prevenção de episódios de psicose aguda.

Entre os antipsicóticos típicos, nós temos os fenotiazínicos, que possuem efeitos sedativos, narcóticos e anestésicos, e as butirofenonas, estes fazem forte antagonismo dopaminérgico e têm uma baixa ação anticolinérgica, tendo como grande exemplo o haloperidol.

Atualmente, a maioria dos antipsicóticos prescritos são de segunda geração, isso se deve ao menor número de efeitos colaterais que eles causam no paciente.

Mecanismo de ação

Para entender como esses fármacos atuam no sistema nervoso central (SNC), é importante compreender a fisiopatologia da esquizofrenia.

A fisiopatologia ocorre por uma alteração de dopamina nas vias mesocortical e mesolímbica. Segundo Arvid Carlsson, os sintomas positivos ocorrem por uma hiperatividade do sistema mesolimbico mediante aos receptores dopaminérgicos D2, D3 e D4. Por outro lado, a redução desse neurotransmissor na via mesocortical está responsável pelos sintomas negativos.

Figura 1. Vias Dopaminérgicas (O neurotransmissor, 2013)

Nesse sentido, percebeu-se que o bloqueio da neurotransmissão medida por dopamina melhora os sintomas da esquizofrenia, esse é o mecanismo de ação desses medicamentos.

Os antipsicóticos são divididos conforme sua geração. Os típicos (ou de primeira geração) bloqueiam os receptores dopaminérgicos. Contudo, como os antipsicóticos típicos ou também chamados da primeira geração têm muitos efeitos adversos, foi criada uma nova classe – a segunda geração –, que tem a intenção de continuar mantendo a redução dos sintomas e diminuir os efeitos colaterais do seu uso.

Assim, os antipsicóticos atípicos (também chamados de segunda geração), além de bloquear os receptores dopaminérgicos, também bloqueiam os receptores serotoninérgicos 5-hidroxitriptamina tipo 2 (5HT2A).

Efeitos colaterais

A olanzapina é um antipsicótico atípico de segunda geração. Segundo estudos, existe uma prevalência de hiperglicemia e dislipidemia em pacientes que usam olanzapina. Por esse motivo, é importante conhecer as comorbidades individuais, como diabetes melitus, e, em casos de cardiopatas, é recomendado avaliar a estratificação de riscos cardiovasculares.

Segundo Heiskanen, estudos têm mostrado que pacientes com esquizofrenia apresentam maior taxa de síndrome metabólica que pacientes não esquizofrênicos. De acordo com o autor, essa prevalência varia, aproximadamente, entre 19% a 63%. (Heiskanen et al., 2003)

Figura 2. Síndrome metabólica em pacientes esquizofrênicos (LEITAO-AZEVEDO, 2007)

A clozapina foi o primeiro antipsicótico atípico a ser comercializado. O uso desse fármaco está associado à plaquetopenia e à agranulocitose (Atmaca et al., 2013). Pacientes que usam clozapina devem realizar hemograma com contagem de plaquetas semanalmente durante as primeiras 18 semanas de tratamento e mensalmente posteriormente (Cohen and Monden 2013).

A clorpromazina é uma representante da classe das fenotiazinas e é indicada em surtos psicóticos, seus efeitos colaterais são a sedação, hipotensão e ganho de peso.

O haloperidol, um representante da classe das butirofenonas, é indicado em tratamento de manutenção; seu uso pode aumentar as chances de distonia aguda, acatisia e parkinsonismo. Esse parkinsonismo é diferente do não induzido por drogas, em que ocorre a degeneração ganglionar corticobasal e atrofia multissistêmica, pois ocorre por um mecanismo de bloqueio na ação da dopamina nos gânglios basais. Além disso, apesar de ter os mesmos sintomas (tremor em repouso, rigidez e bradicinesia), o parkinsonismo induzido por medicamentos frequentemente afeta ambos os lados do corpo igualmente.

A risperidona é da classe dos antipsicóticos atípicos e apresenta menos efeitos sedativos e extrapiramidais, mas seu uso pode desencadear a síndrome neuroléptica maligna, que é uma emergência neurológica que tem como características a hipertermia, rigidez e confusão mental.

A ziprasidona é indicada em casos de agitação aguda. Esse fármaco pode causar prolongamento no intervalo QT. Sabe-se que alguns fármacos, incluindo antiarrítmicos da classificação de Vaughan Williams, como os bloqueadores dos canais de sódio, podem prolongar o intervalo QT e por esse motivo a associação desses medicamentos pode levar à ocorrência de torsade de pointess, uma taquicardia ventricular polimórfica.

Figura 3. Torsade de Pointes (LAPA, 2013)

Conclusão

A medicação antipsicótica tem diversos efeitos adversos, portanto, é importante que o médico tenha conhecimento sobre a área da psicofarmacologia e sobre como esses fármacos atuam no sistema nervoso central (SNC) visando a melhor conduta para o paciente com os menores riscos.

Além disso, é importante salientar que, antes de prescrever um fármaco, o médico deve levar em consideração algumas variáveis que podem influenciar no resultado, tal como: o preço do medicamento e a condição financeira do paciente; efeitos na redução dos sintomas e comorbidades do paciente. Por esse motivo, é importante que o médico tenha uma boa relação médico-paciente e faça uma anamnese detalhada.

Autor: Gabriel Moreira Fonseca.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências Bibliográficas:

ATMACA M, KILIC F, TEMIZKAN A, USTUNDAG B. What about platelet counts in clozapine users? 2013. Reviews on Recent Clinical Trials. 8(2):74-7

COHEN D, MONDEN M. White blood cell monitoring during long-term clozapine treatment. 2013. American Journal of Psychiatry. 170(4):366-9.

LAPA, Eduardo. Desafio ECG. Cardiopapers, 2013.Disponível em . Acesso em: 08, maio de 2021.

LEITAO-AZEVEDO, Carmem Lucia et al . Ganho de peso e alterações metabólicas em esquizofrenia.Rev. psiquiatr. clín., São Paulo , v. 34, supl. 2, p. 184-188,  2007 .  Available from . Access on 08 May 2021. https://doi.org/10.1590/S0101-60832007000800007.

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ROCHA, Élica. Patologias – Causas: Esquizofrenia. Oneurotransmissor, 2013. Disponível em <http://oneurotransmissor.blogspot.com/2013/05/patologias-causas-esquizofrenia.html>. Acesso em: 08, maio de 2021.