Clínica

Escorbuto – por que a carência de vitamina C afeta a síntese de colágeno?| Colunistas

Escorbuto – por que a carência de vitamina C afeta a síntese de colágeno?| Colunistas

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Polyana da Conceição

6 minhá 20 dias

HISTÓRICO

O escorbuto não é uma doença dos dias de hoje: há relatos com descrição da moléstia entre os egípcios, com sua datação mais antiga em 1505 a.C. Embora tenha sido endêmico sobre essa população por um longo tempo, o escorbuto ganhou evidência no final da idade média, na época das grandes navegações.

Observou-se, naquela época, que os marinheiros que permaneciam por longo tempo em alto mar voltavam com sintomas como fadiga, perda de apetite, sonolência, palidez, falta de energia nos membros e articulações, irritabilidade, deformidade dentárias, cicatrização lenta de pequenos ferimentos e presença de pequenas hemorragias. Bem mais tarde, em 1950, descobriu-se que tal moléstia era causada pela deficiência de vitamina C – conhecida também como ácido ascórbico – o que justificava a alta incidência nessa população, que tinha uma alimentação extremamente pobre em alimentos que continham em sua composição o ácido ascórbico, como as frutas e vegetais frescos.

EPIDEMIOLOGIA

Atualmente, a doença é rara. A partir do momento em que a causa da doença foi identificada, tornou-se possível o tratamento, que é barato e fácil. É mais comum em países em desenvolvimento, nos quais existe uma grande parcela da população em situação de extrema pobreza e deficiência nutricional. Estima-se que entre refugiados, a incidência pode chegar a até 45%.

Alguns fatores de risco estão relacionados com o desenvolvimento do escorbuto, dentre eles podemos listar:

  • Pacientes com perturbações mentais;
  • Maus hábitos alimentares;
  • Idosos que moram sozinhos e sem assistência;
  • Alcoolismo – Devido ao aumento da excreção renal de vitamina C;
  • Pacientes portadores de transtornos alimentares;
  • Pacientes com má absorção intestinal;
  • Pacientes dialíticos.

FISIOPATOLOGIA

Para entender a fisiopatologia da doença, primeiro você precisa entender o que é o ácido ascórbico e como ele age no organismo:

O colágeno é sintetizado no interior de diferentes tipos de células, para depois ser exportado para seu meio externo, onde sofrerá a ação de enzimas polimerizantes para, enfim, adquirir sua estrutura em tripla hélice, unidade base da formação das fibras colágenas.

Apesar de o mecanismo pelo qual o ácido ascórbico atua não ser totalmente esclarecido, sabe-se que ele age como cofator de duas enzimas: prolil e lisil hidroxilase. Estas são enzimas férricas que desempenham um papel importante na síntese e estabilização do colágeno de tripla hélice, e sua degradação é impedida pelo ácido ascórbico – que é um agente redutor (antioxidante) – o qual previne a oxidação do componente férrico das enzimas através de uma reação de hidroxilação.

Figura 1: Biossíntese do colágeno. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5580959/mod_resource/content/2/ESCORBUTO%20-%20Cap%C3%ADtulo-03.indd.pdf

Quando há  deficiência de vitamina C no organismo, a formação e estabilização do colágeno é prejudicada: na ausência ou deficiência do ácido ascórbico, as enzimas prolil e a lisil hidroxilase tornam-se suscetíveis à oxidação – assim não conseguem manter o átomo de ferro no estado ferroso – e ficam impossibilitadas de permanecer na sua forma ativa, interrompendo a continuidade da cascata de síntese do colágeno.

Com a formação de colágeno prejudicada, há o comprometimento da integridade da espessura do tecido, o tornando suscetível a lesões.

APRESENTAÇÃO CLÍNICA

Sem a formação da hidroxiprolina e da hidroxilisina, há uma deficiência na estrutura das fibras colágenas, prejudicando sua sustentação. Dessa forma, os vasos sanguíneos e outras estruturas que apresentam tecido conjuntivo em sua composição podem ser facilmente rompidos provocando hemorragias, edemas nos ossos e articulações que levam à dor e a redução da cicatrização de feridas. É muito importante investigar o histórico nutricional e os hábitos alimentares do paciente.

Estão entre os principais sintomas citados na literatura:

  • Geral: cansaço, palidez, perda de apetite, irritabilidade;
  • Osteomuscular: mialgia, dor em ossos ou articulações;
  • Dermatológico: erupções e manchas arroxeadas ou avermelhadas, dificuldade de cicatrização de feridas;
  • Cavidade oral: perda de dentes e/ou sangramento na gengiva.

Em crianças podemos também notar choro à manipulação, micro e macrofraturas e tumefações causadas pela presença de hematomas.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico do escorbuto é essencialmente clínico, porém podemos lançar mão de exames laboratoriais como o hemograma em pacientes que evoluem com anemia. Vale destacar que o escorbuto é um fator de risco para a deficiência de ferro, causado pela perda sanguínea de pacientes com hemorragia. Em crianças, pode ser importante a realização de radiografia para avaliar a integridade óssea. A dosagem de vitamina C pode ser utilizada, porém ainda não está disponível em todos os serviços de saúde.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Entre os diagnósticos diferenciais podemos incluir tanto doenças reumatológicas quanto doenças que causam desordens da coagulação, como a dengue, púrpura trombocitopênica, doença de Von Willebrand, entre outras.

TRATAMENTO

O tratamento do escorbuto baseia-se na suplementação vitamínica e na mudança dos hábitos alimentares do paciente. É recomendado a ingesta de:

  • 1 – 2g/dia de vitamina C nos primeiros dias do tratamento;
  • 500mg/dia durante a primeira semana;
  • 100mg/dia durante alguns meses.

Os sintomas começam a melhorar em 24 horas. As lesões hemorrágicas desaparecem com cerca de 15 dias e o paciente apresenta melhora total em 3 meses.

Em caso de complicações como a anemia, podemos tratar o paciente com sulfato ferroso ou até mesmo com transfusão de hemoconcentrados.

PREVENÇÃO

É recomendado a ingesta de frutas e vegetais frescos, pois além da vitamina C, estes possuem outros compostos antioxidantes que auxiliam o organismo de forma mais efetiva.

Podemos encontrar altas concentrações de ácido ascórbico na acerola, pimentão vermelho, goiaba, laranja, brócolis, repolho, limão, couve-flor e em vários outros vegetais escuros e frutas cítricas. É recomendado o consumo de uma quota diária de vitamina C, sendo 30mg/dia para crianças, 75 mg/dia para mulheres, 80 mg/dia para homens, 85 mg/dia para gestantes e 100mg/dia para lactentes.

Autoria: Polyana P. da Conceição

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