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Espiritualidade em saúde | Colunistas

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Isabela Simões

5 minhá 29 dias

O QUE É ESPIRITUALIDADE

De conceituação incerta, o termo “espiritualidade” diverge entre sua significação científica e popular. No senso comum, a associação com o aspecto religioso é rotineira devido à sua recente exploração científica aliada à tímida difusão popular e, sobretudo, em virtude do seu prefixo, que torna mais frequente essa associação com a religião espírita e outras vertentes espiritualistas.

Não obstante, para que se aplique à ciência médica, é mister que ascenda seu conceito enquanto característica inata do ser humano em detrimento de sua caracterização meramente religiosa.

“Espiritualidade” deriva de “espírito”, do latim, spiritus/spirare – respiração, respirar, sopro, coragem, vigor – o que dista do caráter religioso e se aproxima de qualidade humana intrínseca, como considera a ciência.

Dentre as definições acadêmicas, Christina Puchalski (2014) cita:

“a espiritualidade é um aspecto dinâmico e intrínseco da experiência humana, por meio do qual se busca e expressa o significado, propósito e transcendência da existência. Tal estado perpassa a vivência da pessoa em suas relações consigo mesma, com a família, com os outros, a comunidade, a natureza e com aquilo que é significativo e sagrado”.

Anandarajah (2001) define como:

“porção complexa e multidimensional da experiência humana, que envolve aspectos comportamentais, vivenciais e cognitivos ou filosóficos. É a dimensão em que obtemos significado, conexão, conforto e paz. Pode ser buscada não apenas na religião, mas também na música, arte, natureza ou mesmo em valores pessoais ou científicos”.

Em síntese, espiritualidade consiste na individualidade expressa por cada ser humano por meio do que lhe traz bem-estar e significado à vivência. A religiosidade, ou religião, pode ser englobada por esse processo; no entanto, se restringe àquilo em que se crê, ao passo que a espiritualidade abrange tudo aquilo que se é individualmente.

ASPECTOS CIENTÍFICOS E ACADÊMICOS

É crescente a presença da temática no meio científico e acadêmico.

Em outubro de 2020, a busca pelo termo “spirituality” na base de dados PubMed levou a 21.331 resultados, dos quais 57,3% (12.224) foram publicados nos últimos 10 anos.

No âmbito acadêmico, grandes instituições médicas e estudantis possuem núcleos dedicados ao estudo da espiritualidade na saúde. Como exemplos:

  • GEMCA-SBC: Grupo de Estudo em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia;
  • GT em Saúde e Espiritualidade – SBMFC: Grupo de Trabalho em Saúde e Espiritualidade da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade;
  • NUPES-UFJF: Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora;
  • Seção de Espiritualidade, Religiosidade e Psiquiatria – WPA (World Psychiatric Association);
  • AALEGREES – Associação Acadêmica de Ligas e Grupos de Estudo em Espiritualidade e Saúde.

A Associação supracitada (AALEGREES) reúne iniciativas estudantis que exploram a espiritualidade no tripé acadêmico (ensino, pesquisa e extensão) e acompanham seu crescimento no território nacional, possuindo cerca de 60 ligas e grupos filiados.

APLICAÇÕES NA SAÚDE

Uma vez que se trata de um aspecto intrínseco ao ser humano, é indispensável que a medicina aborde a espiritualidade no cuidado à saúde, fomentando condutas integrais e holísticas.

Ademais, argumentos científicos justificam a aplicação da espiritualidade na saúde, como evidenciam Lucchetti et al (2010), em revisão bibliográfica:

“Estudos demonstram que a maioria dos pacientes gostaria que seus médicos abordassem sobre sua religião e espiritualidade, e relataram que sentiriam mais empatia e confiança no médico que questionasse esses temas, proporcionando o resgate da relação médico-paciente, com uma visão holística e mais humanizada”.

Entre as formas de aplicar a espiritualidade na consulta clínica, as mais comuns são os métodos FICA e HOPE, espécies de entrevistas clínicas (anamneses espirituais) explicitadas na imagem a seguir:

Fonte: LUCCHETTI et al (2010).

IMPACTOS

São inúmeros os artigos científicos que evidenciam os resultados da espiritualidade aplicada à saúde, sobretudo no contexto paliativo, oncológico, psiquiátrico e cardiovascular.

A Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019, como exemplo, cita as seguintes influências da espiritualidade na saúde:

  • Enfrentamento (coping);
  • Adesão ao tratamento;
  • Prevenção cardiovascular primária e secundária;
  • Redução de mortalidade por causas cardíacas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora não seja comum na prática clínica, a espiritualidade é um recurso indispensável em saúde, reconhecido e recomendado por diversas entidades médicas. Sua percepção científica desvinculada das ideias vulgares é indispensável para a eficácia de sua implementação por profissionais de saúde.

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