Coronavírus

Fake news: análise de cientista britânico é insuficiente para apontar eficácia de ivermectina contra COVID-19

Fake news: análise de cientista britânico é insuficiente para apontar eficácia de ivermectina contra COVID-19

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Sanar

6 min há 10 dias

Circulam nas redes sociais algumas postagens sobre um estudo da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, que teria comprovado os benefícios do tratamento com ivermectina contra a COVID-19.

Uma dessas publicações, realizada pelo perfil do Facebook do site Brasil sem Medo teve milhares de compartilhamentos ao afirmar que a droga é “eficaz e acessível” e que teria reduzido em até 75% as mortes provocadas pelo novo coronavírus.

Porém, a análise liderada pelo pesquisador Andrew Hill é insuficiente para comprovar benefícios do tratamento com o antiparasitário para o SARS-CoV-2. Tanto que os próprios cientistas envolvidos no estudo destacam que não recomendam a aprovação do uso da ivermectina até que haja estudos mais aprofundados sobre o assunto.  

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Pelo contexto, as postagens que circulam sobre o assunto são consideradas fake news, feitas com intenção de induzir os usuários ao erro e a ter esperança em medicamentos que não tem eficácia respaldada pela ciência.

O que diz o estudo do Reino Unido sobre a ivermectina

O estudo da Universidade de Liverpool foi publicado em janeiro de 2021 no site Research Square, em formato de preprint, ou seja, não passou pela avaliação por pares e nem foi publicado em revistas científicas.

Conduzido por Andrew Hill, contou com a parceria de cientistas de universidades de outros 13 países. O grupo de pesquisadores analisou dados de 18 ensaios clínicos randomizados sobre a eficácia da ivermectina no tratamento ou prevenção ao SARS-CoV-2.

Somados, os estudos envolveram 1.255 pessoas e 71 mortes ocorridas no grupo. Os dados indicaram que apenas 2,1% dos pacientes com COVID-19 que receberam ivermectina morreram, contra 9,5% no grupo de controle.

Como resultado dessa revisão, os cientistas acreditam que o uso da ivermectina pode ter aumentado em 75% as chances de sobrevivência dos pacientes, além de ter influenciado na redução dos marcados inflamatórios, na eliminação do vírus e no tempo de recuperação dos pacientes.

Dados insuficientes para indicar uso de ivermectina

Apesar dos achados que jogam a favor do antiparasitário, os próprios cientistas deixam claro que as evidências não são conclusivas e que precisam ser verificadas em ensaios clínicos “maiores e devidamente controlados”.

“Muitos ensaios incluídos [no estudo] ainda não foram publicados ou passaram por revisão científica e meta-análises são sujeitas a confusão. Além disso, há uma grande variação nos padrões entre os ensaios, diferenças entre doses de ivermectina e a duração dos tratamentos foi heterogênea. A ivermectina deve ser validada em estudos maiores randomizados antes que os resultados sejam suficientes para revisão pelas autoridades reguladoras”, diz o estudo, como relatou a BBC Brasil.

Em entrevista ao UOL, o cardiologista no HC da Universidade de São Paulo (UPS) e editor do periódico científico Circulation: Cardiovascular Imaging, Marcio Sommer Bittencourt, criticou a metodologia por entender que existem fortes discrepâncias entre os estudos analisados.

“A maioria dos estudos escolhidos não é duplo-cego nem possui grupo placebo, então, o médico sabendo, ele pode resolver tirar alguns participantes do estudo, caso avalie o quadro de determinada pessoa como grave”, disse.

Fake news sobre ivermectina

Como demonstrou o trabalho de checagem do Estadão Verifica, a postagem da página Brasil Sem Medo ignora as limitações do estudo.

As legendas utilizam o título “Antiparasitário pode reduzir chance de morte por COVID-19 em até 75%” e destaca o otimismo dos pesquisadores em relação ao tratamento com ivermectina.

Essa, porém, não é a primeira vez que a ivermectina figura como protagonista de fake news. Muitas delas nós já desmentimos aqui, como essa, sobre a Anvisa ter recomendado o medicamento para tratar COVID-19, e essa, que diz que países adotaram o uso e reduziram mortes na pandemia.  

Há ainda outras fake news que indicam que o medicamento, combinado com outros de “tratamento precoce”, teriam ajudado a zerar internações em cidades pelo Brasil. Outra mentira que destrinchamos aqui.

Tratamento precoce com ivermectina

O medicamento é usado no tratamento de infecções por parasitas, como piolhos, sarnas e lombrigas. Ela despontou como promessa contra a COVID-19 a partir de um estudo in vitro realizado na Austrália.

Porém, revisões posteriores descartaram os resultados iniciais por terem utilizado uma dose irreal do medicamento. Cálculos posteriores mostraram que para que o fármaco combata o coronavírus num cenário real de infecção, seria preciso doses muito altas, com risco de efeitos colaterais gravíssimos e até overdose.

Em março, a OMS descartou o uso de ivermectina para pacientes infectados em qualquer grau de severidade da COVID-19 e incluiu a recomendação em suas diretrizes para tratamento da doença. A fabricante do remédio também descartou seu uso para a infecção.

Entre os efeitos colaterais já apontados pelos médicos estão tontura, vertigem, tremor, febre, dores abdominais, cefaleia, coceira e queda brusca na pressão sanguínea. Há também casos de pessoas com COVID-19  que precisaram de transplante ou morreram de hepatite medicamentosa depois de tomar ivermectina.

Tratamento precoce é investigado por CPI da Covid

O antiparasitário faz parte do combo de remédios apontado pelo próprio governo federal como “tratamento precoce” para o novo coronavírus. Porém, as melhores evidências científicas até o momento não só descartaram a eficácia do Kit Covid para o combate ao SARS-CoV-2 como indicam consequências para a saúde de quem os utiliza fora das recomendações da bula.

O assunto é um dos temas que está sendo investigado na Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) da Covid, que apura omissões e ações do governo federal na condução de estratégias de enfrentamento da pandemia. Para conferir mais detalhes sobre a investigação parlamentar, acesse esse post.

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