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Fake news: comparação entre papa Francisco e Bolsonaro sem máscara contra COVID-19 ignora estágio da pandemia nos dois países

Fake news: comparação entre papa Francisco e Bolsonaro sem máscara contra COVID-19 ignora estágio da pandemia nos dois países

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Sanar

7 min há 36 dias

Depois de ser criticado por tirar a máscara contra COVID-19 em eventos, apesar do altos números de mortes e contaminações da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro compartilhou em sua conta de Twitter um vídeo em que o papa Francisco também aparece sem proteção em público. 

O vídeo do pontífice foi gravado em 23 de junho e exibe o papa, sem máscara, apertando as mãos e dando bênçãos aos fiéis no pátio de São Dâmaso, no Vaticano. 

O conteúdo postado pelo presidente brasileiro foi visualizado mais de meio milhão de vezes. Não demorou para surgirem postagens em várias redes sociais (1, 2, 3) que comparavam os dois e exigiam reação negativa ao comportamento do papa também. 

 “O papa cumprimentando os fiéis sem máscara é genocida? Ou a narrativa só vale para o presidente Bolsonaro?”, diz uma dessas postagens, amplamente compartilhadas. 

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O trabalho de checagem de conteúdos virais da AFP Brasil revelou que, assim como Bolsonaro, o papa Francisco desrespeitou a orientação vigente sobre o uso de máscaras em seu país e foi criticado por isso. 

Porém, as comparações realizadas nas redes sociais não levam em conta os diferentes estágios da pandemia no Brasil e na Itália. Por isso, ao comparar duas situações muito diferentes, esse conteúdo entrou para o nosso observatório de fake news.

Abaixo você confere informações importantes sobre o assunto: 

Máscaras contra COVID-19

Primeiro, o mais importante: o uso de máscaras na pandemia da COVID-19 é e continuará sendo importante instrumento de proteção pessoal e coletiva, enquanto boa parte da população ainda não estiver vacinada. 

Os dados científicos robustos apontam que as máscaras são um tipo de intervenção não farmacológica eficaz para reduzir a transmissão do SARS-CoV-2. Elas funcionam de duas maneiras: como controle da fonte infectada, e como proteção para reduzir a contaminação dos expostos. 

No vídeo abaixo você encontra mais informações sobre o assunto: 

Vírus não circula mais no Vaticano

O Vaticano, um enclave murado dentro de Roma, segue as orientações de saúde da Itália, que já foi um dos países mais afetados pela COVID-19. 

Hoje, porém, a situação é outra. Em 23 de junho, data em que o vídeo do papa postado por Bolsonaro foi gravado, praticamente todas as regiões do país eram classificadas como “zonas brancas”, ou seja, com pouca circulação do coronavírus. 

No Vaticano, não são confirmadas novas infecções desde novembro de 2020. A região está aberta a turistas e visitantes, mas eles devem cumprir medidas de segurança sanitária, como respeitar o distanciamento social, ter a temperatura aferida e, claro, usar máscaras.

Vale dizer que, diferente do que sugeriram usuários da internet, o papa foi sim criticado por aparecer sem máscara. Em outros momentos, o pontífice também virou assunto de reportagens por circular sem o acessório

Apesar de o Vaticano não se pronunciar sobre o assunto, especula-se que o papa teria dificuldades de respirar com a máscara, já que teve parte de seu pulmão removido quando jovem. 

Diferenças da pandemia entre Itália e Brasil

No mesmo dia 23, data da aparição sem máscara do papa Francisco, a Itália registrou 951 novos casos e 30 mortes por COVID-19. Já o Brasil batia o recorde de 115 mil novos casos registrados, e 2.392 mortes, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. 

Outro dado importante de comparação é sobre a vacinação. Mais da metade (53%) da população italiana já recebeu a primeira dose de uma das vacinas contra COVID-19, e 27,5% já estão totalmente imunizados. 

No Brasil, 34,25% receberam a primeira dose e pouco mais de 12%, as duas necessárias para completar a imunização contra o coronavírus. Veja detalhes sobre as vacinas contra COVID-19 em uso e em testes

O próprio papa Francisco já está completamente vacinado desde fevereiro de 2021. O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, diz que não tomou nem a primeira dose, apesar de já poder se vacinar desde abril.

Obrigatoriedade do uso em público 

Com boa porcentagem de vacinados e números de mortes e contaminações em queda, o governo italiano retirou a obrigatoriedade do uso de máscaras ao ar livre na última segunda-feira (28/06). 

Já aqui no Brasil, Bolsonaro anunciou, no último dia 10, que o Ministério da Saúde publicaria um parecer para desobrigar o uso do acessório por pessoas já vacinadas ou recuperadas da COVID-19. 

O anúncio foi amplamente criticado e o parecer não aconteceu. Porém, não é raro ver Bolsonaro defender a suspensão das máscaras e circular em público sem o acessório. 

Na última semana, durante uma visita oficial no Rio Grande do Norte, o presidente retirou a máscara de uma criança que estava em seu colo posando para foto. 

Máscaras na mira das fake news 

Um levantamento feito pela agência de checagem Lupa mostrou que a desinformação sobre máscaras que circula nas redes sociais e em grupos de WhatsApp aumentou depois que o presidente defendeu a desobrigação do uso. 

Entre os dias 10 e 16 de junho, as máscaras foram tema de pelo menos 1.300 posts e geraram 389.410 interações. De acordo com a Lupa, um grande número desses conteúdos era falso. Alguns deles, nós já abordamos aqui, como a fake news que diz que as máscaras causam câncer, que tiveram a ineficácia comprovada por estudo e que seriam as causadoras de um fungo mortal

“Em 10 grupos bolsonaristas no Facebook observados pela reportagem, circularam mais de 280 publicações sobre o assunto exatamente nos dias seguintes às falas do presidente. Vale destacar que, juntos, esses grupos contam com mais de 2,5 milhões de integrantes”, disse a Lupa. 

O aumento de fake news sobre o assunto fez com que a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Nacional de Medicina (ANM) publicassem nota conjunta em “resposta a muitas dúvidas geradas nos últimos tempos por posturas negacionistas”, como escreveram as entidades. 

“Faz mais de um ano que repetimos as evidências científicas: as máscaras são fundamentais, mesmo que você tenha sido vacinado ou já tenha sido contaminado pelo coronavírus, pois você pode propagá-lo e até mesmo ser contaminado por novas variantes, o que se torna mais provável neste momento, devido ao ainda baixo percentual de vacinados no nosso país, dado que estamos atrasados no processo de vacinação. Milhares de mortes poderiam ter sido evitadas, dentre as quase 500 mil vítimas. Precisamos acelerar a vacinação”, diz o comunicado. 

“Faça a sua parte. É fundamental tomar as duas doses da vacina e se “vacinar” também contra a irresponsabilidade e o populismo demagógico. Não compartilhe informações falsas, evite aglomerações, continue usando máscara e exija a vacina!”, finalizam as entidades.

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