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Fake news: comunidade científica não reconhece cloroquina para tratar COVID-19

Fake news: comunidade científica não reconhece cloroquina para tratar COVID-19

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O uso da cloroquina para tratar COVID-19 foi refutado pela comunidade científica, mas o medicamento ainda é assunto de destaque em notícias falsas. Circula pelas redes sociais algumas publicações que afirmam que cientistas pediram desculpas por um estudo que desqualificou a droga.

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“Cientistas pedem desculpas ao mundo, por estudo ter desqualificado o uso da Cloroquina no combate a pandemia. É só pedir desculpas e está tudo certo?”, questiona uma dessas postagens, compartilhada dezenas de vezes no Facebook.  

A imagem traz também o seguinte subtítulo: “Incontáveis mortes poderiam ter sido evitadas com o uso da hidroxicloroquina, agora o mundo todo passa a afirmar os resultados positivos do medicamento. Todos que lutaram e bradaram contra, são os verdadeiros genocidas?”.

O trabalho de checagem de notícias da AFP Brasil acusou a fake news. O estudo que apontava efeitos adversos associados ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina foi realmente retratado, em junho de 2020.

Porém, desde então, surgiram diversos outros estudos que constataram a ineficácia do medicamento contra o SARS-CoV-2.

Vale dizer que já apontamos outra postagem falsa com conteúdo parecido aqui, o que indica o empenho de grupos em disseminar notícias falsas que relacionam medicamentos ineficazes e COVID-19.

Estudo com cloroquina para tratar COVID-19 é de maio de 2020

Com uma busca no Google pelo título do artigo citado na fake news, a AFP Brasil encontrou o texto original, publicado no site Tribuna Nacional em janeiro de 2021.

O artigo se refere ao estudo publicado em maio na revista científica The Lancet que apontava maior risco de morte associado ao uso de cloroquina ou hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19.

O estudo em questão utilizou uma base de dados, fornecida pela companhia Surgisphere, de quase 100 mil, supostamente tratados em 671 hospitais ao redor do mundo.

Após a análise, os autores não identificaram benefícios no uso dos medicamentos contra a COVID-19 e também constataram aumento na mortalidade hospitalar e na ocorrência de arritmias cardíacas associadas a cloroquina e hidroxicloroquina.

O resultado teve grande repercussão e motivou, inclusive, a suspensão temporária dos ensaios clínicos com hidroxicloroquina realizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Retratação também é do ano passado

Porém, não demorou muito para que cientistas apontassem erros metodológicos, como ausência de informações sobre quais países e hospitais forneceram os dados e inconsistência entre os números da pesquisa e dados oficiais de algumas regiões.

“Após a publicação do nosso artigo na Lancet, várias preocupações foram levantadas com relação à veracidade dos dados e análises conduzidos pela Surgisphere Corporation. […] Lançamos uma revisão por pares independente e terceirizada […] para avaliar a origem dos elementos da base de dados, para confirmar a integridade do banco de dados e para replicar as análises apresentadas no artigo”, escreveram os autores do estudo, em junho.

O estudo foi retirado do ar e houve retratação dos autores assim que a empresa questionada se recusou a transferir dados completos alegando que isso violaria termos de confidencialidade.

“Com base neste acontecimento, nós não podemos mais garantir a veracidade das fontes de dados primárias. Devido a este infeliz acontecido, os autores solicitam que o artigo seja retratado”, comunicou o The Lancet.

Assim, apesar de as postagens falsas que estão circulando nas redes sociais indicaram que a retratação do estudo é recente, ela ocorreu meses atrás e foi amplamente noticiada pela imprensa internacional na época.

Outros estudos indicam ineficácia da cloroquina para tratar COVID-19

Desde a retratação do estudo publicado no The Lancet, outros surgiram indicando a ineficácia de cloroquina e hidroxicloroquina para tratamento e prevenção da COVID-19.

Como apontou a AFP Brasil, no mesmo dia em que o artigo polêmico foi retirado do ar, foram publicados resultados de um ensaio clínico conduzido pela Universidade de Oxford, o Recovery Trial.

Os pesquisadores compararam a evolução de pacientes infectados pelo coronavírus que receberam hidroxicloroquina e os que receberam o tratamento usual. A conclusão foi que não houve diferença significativa na evolução da doença e na taxa de mortalidade entre os dois grupos.

“A hidroxicloroquina e a cloroquina têm recebido muita atenção e têm sido amplamente utilizadas para tratar pacientes de COVID-19 apesar da ausência de qualquer boa evidência”, escreveu Peter Horby, que encabeçou o estudo.

O Recovery Trial mostrou que a hidroxicloroquina não é um tratamento eficaz para pacientes hospitalizados com COVID-19. Embora seja decepcionante que esse tratamento tenha se mostrado ineficaz, isso nos permite dedicar os cuidados e a pesquisa a medicamentos mais promissores”.

O ensaio clínico da OMS que havia sido suspenso foi retomado em 3 de junho. Algumas semanas depois, os resultados também apontaram ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento de COVID-19.

 “Dados do Solidarity […] e os resultados recentemente anunciados do Recovery Trial do Reino Unido mostraram que a hidroxicloroquina não resulta na redução de mortalidade em pacientes hospitalizados com COVID-19, quando comparado com o tratamento padrão”, explicou a OMS na ocasião.

Desde então, diversos outros estudos chegaram a conclusões semelhantes.

Cientistas de todo o mundo desaconselham o uso

Em março deste ano, a OMS publicou um documento desaconselhando o uso de hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento da COVID-19.

O medicamento passou por uma análise de um grupo de especialistas e pacientes e recebeu “forte recomendação” contra o uso no combate ao coronavírus.

O grupo de 32 debatedores da OMS classificou a ineficiência das drogas contra a COVID-19 como de “alta certeza”. Eles sugeriram ainda que “os financiadores e pesquisadores devem reconsiderar o início ou continuação dessas experiências”.

O relatório aponta também que a cloroquina “provavelmente aumentou os eventos adversos”. Destaca ainda que a “hidroxicloroquina é um imunomodulador usado para tratar a artrite reumatóide e o lúpus eritematoso sistêmico” e que pacientes que precisa do medicamento para tratar das doenças previstas em bula podem ter dificuldades para consegui-lo.

Além da OMS, diversas entidades médicas internacionais e nacionais desaconselham o uso dos medicamentos contra o coronavírus. Entre elas a Sociedade de Doenças Infecciosas da América (IDSA, na sigla em inglês), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), além da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Conselho Nacional de Saúde (CNS) e Associação de Médicos do Brasil (AMB).

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Veja no vídeo abaixo mais informações sobre cloroquina: