Coronavírus

Fake news: é enganoso comparar vacina contra COVID-19 e talidomida

Fake news: é enganoso comparar vacina contra COVID-19 e talidomida

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Sanar

7 minhá 22 dias

Na última sexta-feira (16/04), o Ministério da Saúde publicou uma nova portaria recomendando que gestantes com comorbidades sejam incluídas nos grupos prioritários da vacinação contra COVID-19. O assunto – gestantes e vacinação contra o coronavírus – é um dos que figura entre as temáticas de fake news. Publicações comparam imunizantes contra a COVID-19 e talidomida, uma droga da década de 1950 que causou problemas congênitos em crianças cujas mães tomaram-na durante a gravidez.

“A THALIDOMIDA foi uma droga APROVADA RAPIDAMENTE e introduzida em 1957 para neutralizar náuseas e insônia em mulheres grávidas. Foi comercializado em mais de 50 países, antes de ser retirado entre 1961-62 devido a malformações em recém-nascidos. LEMBRE-SE… Qualquer semelhança com o que ocorre atualmente com as vachinas, não é mera coincidência; na atualidade, é BEM PIOR!”, diz o texto de uma imagem que acompanha uma das postagens no Facebook , no Instagram e no Twitter.

O conteúdo, que em alguns casos inclui fotografias de crianças com deformidades nos braços, também circulou em inglêstcheco e espanhol.

Porém, como mostrou o trabalho de checagem de notícias da AFP Brasil, o argumento é falso. Primeiro porque os processos para aprovar a comercialização de medicamentos e vacinas se tornaram mais rígidos e seguros, em parte graças do caso da talidomida.

Além disso, naquela época o uso de remédios durante a gravidez não era muito controlado, segundo especialistas consultados pela reportagem da AFP Brasil.

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O caso talidomida

A talidomida ofereceu um trágico exemplo da necessidade de maior regulação para evitar a utilização de drogas prejudiciais à saúde e comunicar adequadamente os riscos dos medicamentos. 

A droga foi comercializada a partir de 1956 pela empresa farmacêutica alemã Chemie Grünenthal, que a oferecia com o nome de Contergan como um remédio para ansiedade, insônia e enjoos matinais.

Diferentes companhias farmacêuticas comercializaram o medicamento em quase 50 países. Mas em 1961, os cientistas encontraram uma conexão comprovada entre a droga e defeitos congênitos graves em milhares de bebês. A maioria das vítimas nasceu na então Alemanha Ocidental, no Reino Unido, na Austrália e no Canadá.

“O pior desastre médico provocado pelo homem”

O escândalo levou a substância a ser retirada do mercado europeu em 1961. Nos Estados Unidos, onde a droga ainda não havia sido aprovada para comercialização, a talidomida foi administrada em centenas de mulheres grávidas durante os ensaios clínicos, resultando em pelo menos 17 crianças com malformações.

Um dos especialistas que estudou os resultados do medicamento, o professor Neil Vargesson, da Universidade de Aberdeen, descreveu seu uso como “o pior desastre médico provocado pelo homem”.

A investigação do professor indicou que entre 1957 e 1962, mulheres que tomaram o medicamento durante a gravidez deram à luz filhos com graves malformações físicas, principalmente nas extremidades, no trato urinário, nos olhos e no coração.

Ainda de acordo com Vargesson, dos mais de 10.000 recém-nascidos afetados, 40% morreram logo após o nascimento.

Regras mais rigorosas

As consequências do uso da talidomida durante a gravidez foram tão drásticas que o desastre forneceu impulso crucial para a expansão da autoridade do Estado sobre a indústria farmacêutica nos Estados Unidos e diversos países da Europa.

A análise de seus efeitos mudou completamente a forma como os medicamentos – incluindo vacinas – são desenvolvidos e a supervisão das empresas farmacêuticas.

Nos Estados Unidos, a questão levou à aprovação em 1968 da chamada Lei Kefauver-Harris, que fortaleceu significativamente o escopo da Agência de Medicamentos e Alimentos FDA, que até então não podia influenciar o método de produção dos medicamentos e tinha apenas uma capacidade limitada de impedir a sua venda.

Em 1965, a Comunidade Econômica Europeia, precursora da União Europeia, aprovou uma lei que exige uma avaliação independente e uma autorização antes de um medicamento ser colocado no mercado.

No Reino Unido, a Lei de Medicamentos foi aprovada em 1968, que também regulamenta a supervisão das empresas farmacêuticas e as licenças.

No Brasil, a droga ainda é usada

Apesar do desastre, ainda se tem notícias de consequências para a saúde envolvendo a talidomida, já que a droga ainda é muito usada por aqui para tratar a hanseníase.

Neste post, utilizamos o arquivo de notícias construído por membros da Associação Brasileira de Portadores da Síndrome da Talidomida para reconstruir a história dessa tragédia e os desdobramentos no plano regulatório e no direito das vítimas.

Critérios rígidos para vacinas contra COVID-19

Como revelou o trabalho da AFP Brasil, a comparação entre a talidomida e os procedimentos usados para produzir as vacinas contra a COVID-19 não faz sentido.

“O fato de que alguém tenha buscado um caso de 60 anos atrás é, para mim, a melhor prova de que as drogas de hoje são extremamente seguras”, afirmou o especialista entrevistado Daniel Drazan, membro do comitê da Sociedade Tcheca de Vacinação.

 “Desde aquela época, milhares de medicamentos foram desenvolvidos sem uma catástrofe semelhante. Hoje estamos em outro lugar”, continuou.

O especialista também explica que a rapidez com a qual os imunizantes contra a COVID-19 foram desenvolvidos não significa falta de segurança ou eficácia.

“Os testes foram realizados rapidamente porque muito mais dinheiro foi investido do que o normal. Esse dinheiro permitiu que as fases de teste fossem feitas não gradativamente, mas em paralelo. Absolutamente nenhuma fase do processo foi negligenciada”, disse Drazan.

A especialista Susan Ellenberg, professora de bioestatística, ética médica e política de saúde na Estola de Medicina Parelman da Universidade da Pensilvânia (EUA) considera que as vacinas nunca foram tão seguras quanto hoje.

“As vacinas têm controlado doenças terríveis em todo o mundo. (…) Agora estamos no meio de uma pandemia, afetou todos os países do mundo. (…) E agora temos vacinas que parecem ser altamente eficazes e temos mais informações sobre segurança do que provavelmente qualquer outra vacina já estudada”, disse.

Aqui você encontra mais informações sobre gestantes e COVID-19, vacinação materna e confere também outras fake news relacionadas ao tema.

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