Coronavírus

Fake news: é falso que diretor da OMS tenha se posicionado contra o lockdown

Fake news: é falso que diretor da OMS tenha se posicionado contra o lockdown

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Sanar

8 minhá 18 dias

Desde o início de março, publicações nas redes sociais tiram de contexto uma declaração de um funcionário da Organização Mundial da Saúde (OMS). As mensagens indicam que David Nabarro sugere que a entidade é contrária à adoção de lockdown para controlar a pandemia da COVID-19.

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As publicações foram compartilhadas mais de 20 mil vezes em diversas redes sociais, num momento de recrudescimento da pandemia. Para tentar conter a disseminação dos vírus e evitar que mais vidas sejam perdidas – já foram mais de 300 mil – diversos estados e municípios do Brasil estão adotando medidas mais restritivas.

A maioria das postagens utilizam uma imagem de Nabarro acompanhada de um título da revista Veja que diz “Nunca advogamos por lockdown nacional, diz OMS” e outras duas frases atribuídas a ele:

“Apelo para os líderes mundiais: parem de utilizar lockdowns como ferramenta principal, desenvolvam sistemas melhores, trabalhem juntos e aprendam juntos” e “Os lockdowns têm uma consequência que jamais deve ser subestimada, que é fazer os pobres terrivelmente mais pobres ainda”.

O trabalho de checagem feito pela AFP Brasil revelou que as frases, realmente ditas por ele, foram tiradas de contexto, com a omissão de uma parte que ele diz que a medida é necessária em casos em que se precisa conter rapidamente a alta transmissibilidade do SARS-CoV-2 para dar fôlego aos profissionais e sistemas de saúde.

O conteúdo é, portanto, enganoso e tem a intenção de descredibilizar a circulação de pessoas e serviços naquele que já é o pior mês do país no enfrentamento da pandemia da COVID-19. Veja a seguir os principais pontos que revelam a fake news.

Artigo da Veja não traz falas de Nabarro

A AFP Brasil buscou  pela reportagem da revista Veja, já que o veículo é citado nas postagens das redes sociais. Porém, o artigo encontrado não tem falas de Nabarro, que é emissário especial para COVID-19 e não diretor, como algumas postagens indicam.

O que o artigo da revista traz é uma carta da OMS esclarecendo a repercussão distorcida de declarações do funcionário da organização ao site da revista mensal britânica The Spectator.

Isso porque em entrevista em vídeo ao site, veiculada 8 de outubro de 2020, Nabarro afirmou que “a Organização Mundial da Saúde não defende o lockdown como principal meio de controle desse vírus”.

O emissário especial aconselhou a retomada da vida social e da atividade econômica sem que ela resultasse em um aumento no número de mortes pela COVID-19. Segundo ele, isso seria possível com o rastreamento, pelas autoridades sanitárias, dos casos da doença e pelo isolamento dos infectados, além do apoio fundamental da população para aderir a medidas como distanciamento social e uso de máscaras.

Frases fora de contexto

Como verificou a AFP Brasil, Nabarro realmente diz as frases que foram viralizadas na internet, mas ele critica a medida quando adotada como método de controle primário. “Apelamos a todos os líderes mundiais: pare de usar o lockdown como seu método de controle primário, desenvolva sistemas melhores para fazer isso, trabalhe em conjunto e aprenda uns com os outros.”

E ele continua: “Mas lembre-se: lockdowns têm apenas uma consequência que nunca se deve minimizar, que é tornar as pessoas pobres muito mais pobres”, disse ao The Spectator. Porém, na entrevista ele reconhece a eficiência da medida em casos em que os governos precisam ganhar tempo para fortalecer seus sistemas de saúde.

“Nós, da Organização Mundial de Saúde, não defendemos [o lockdown] como o principal meio de controle do vírus. O único momento em que nós acreditamos que o lockdown é justificado é para ganhar tempo para reorganizar, reagrupar e rebalancear seus recursos; proteger seus profissionais de saúde que estão exaustos”, disse Nabarro.

Em resumo, além de descontextualizar as falas do emissário da OMS, as publicações que viralizam na internet não contam que a medida restritiva, apesar de gerar prejuízos econômicos e sociais, não é descartada pela organização em casos de alta transmissão do SARS-CoV-2.

Posicionamento da OMS sobre lockdown é bem conhecido

Pelo menos desde abril de 2020, quando a OMS produziu um documento sobre algumas medidas que deveriam ser adotadas durante a pandemia. E o material destaca a eficácia das medidas de contenção como os “fechamentos” e “lockdowns” em casos determinados, apesar dos potenciais perigos para a economia e para a sociedade.

Um pouco antes disso, em março, o médico Michael Ruan, diretor-executivo do Programa de Emergência da OMS também esclareceu o posicionamento da entidade em uma conferência:

“Quando se perde o controle da epidemia, é preciso criar um distanciamento social entre todos. Porque não se sabe quem está infectado. É um substituto insatisfatório para uma ação agressiva de saúde pública no início, mas pode ser a única opção quando efetivamente se perdeu o vírus de vista”.

Fake news que envolvem a OMS são comuns

Notícias falsas ou com conteúdo que descontextualiza ou mente sobre posicionamentos da OMS são comuns desde que a pandemia do novo coronavírus começou. Uma das mais recentes indicava que a entidade recomendava o modelo adotado pela Suécia, de isolamento social sem restrições, como “um exemplo a ser seguido”.

Outra informação falsa que circulou bastante na internet indicava que a OMS recomendava o uso da hidroxicloroquina para tratar a COVID-19, posicionamento contrário ao da organização e de diversas entidades médicas pelo mundo, incluindo a Anvisa e a Associação de Medicina Brasileira.

A OMS já foi até acusada de desencorajar o uso de máscaras, item de proteção que é consenso entre os especialistas da saúde, assim como a higienização das mãos e o distanciamento social.

Quarentena, distanciamento social ou lockdown?

Na ausência de medicamentos e tratamentos capazes de combater a COVID-19 e de vacinação para toda a população, o isolamento social foi uma das principais medidas adotadas ao redor do mundo para contenção da pandemia do novo coronavírus.  

Dentro desse cenário, há outros dois termos que podem ser tratados como sinônimos de isolamento social, mas que possuem conceitos diferentes: quarentena e distanciamento social.

A quarentena é utilizada quando as pessoas são expostas a doença contagiosa, mas não estão necessariamente doentes, pois pode se tratar de um período de incubação. Ela pode durar, no máximo, 14 dias.

Já o distanciamento social consiste na diminuição de interação entre as pessoas de uma comunidade visando amenizar a velocidade de transmissão da Covid-19. Geralmente ele é aplicado nos países e regiões onde há transmissão comunitária.

O chamado lockdown, por sua vez, é tido como uma estratégia mais extrema, adotada apenas em situação de grave ameaça ao sistema de saúde. Isso porque a medida isola um determinado perímetro, com bloqueio de todas as entradas por profissionais de segurança. Em outras palavras, ninguém saí ou entra do perímetro isolado sem autorização.

Relatório do Ministério da Saúde brasileiro aponta que os países que o implementaram num momento crítico conseguiram sair mais rápido daquele cenário.

Veja no vídeo abaixo mais informações em favor do isolamento social:

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