Coronavírus

Fake news: é falso que vacina australiana contra COVID-19 infectou pessoas com HIV

Fake news: é falso que vacina australiana contra COVID-19 infectou pessoas com HIV

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Sanar

7 min há 44 dias

Uma das notícias falsas que circularam pelas redes sociais nos últimos meses apontava que voluntários que passaram por testes de uma vacina australiana contra COVID-19 teriam contraído HIV.

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A afirmação foi feita por um homem em vídeo compartilhado no YouTube em dezembro de 2020. Na verdade, alguns dos voluntários que participaram da fase 1 de testes da vacina, produzida em parceria entre a empresa de biotecnologia CSL e a Universidade de Queensland, registraram falso positivo para HIV, mas isso não significa que eles foram infectados com a doença.

O trabalho de checagem foi realizado pelo Projeto Comprova. Veja a seguir os principais pontos que indicam que a fake news:

Dados distorcidos sobre vacina australiana contra COVID-19

O homem que aparece no vídeo do YouTube mostra algumas imagens de reportagens que noticiam o caso, publicadas nos sites CanalTech, Exame e CNN, nas versões em português e inglês.

O argumento usado por ele é que a informação era confiável, já que tinha sido noticiado pela grande mídia. Porém, nenhuma das reportagens citadas afirmava que os pacientes que participaram os testes da vacina contra a COVID-19 na Austrália positivaram para o vírus da Aids.

“Testes de acompanhamento confirmaram que não há vírus HIV presente, apenas um falso positivo em alguns testes de HIV. Não há possibilidade de a vacina causar a infecção”, disse a empresa responsável, CSL, em comunicado, que foi reproduzido pelos sites citados.

Apesar disso, os testes da vacina foram mesmo suspensos, principalmente pelo temor de que a população de contaminação pelo HIV. Segundo o primeiro-ministro do país, Scott Morrison, as 51 milhões de doses do imunizante que seriam compradas foram redirecionadas para a compra da Oxford/AstraZeneca e da Novavax.

Falso positivo para HIV era esperado pelos pesquisadores

O Comprova buscou por entrevistas de especialistas em canais de TV australianos para entender como se deram os resultados em alguns dos voluntários. A busca revelou que a presença de anticorpos para HIV era esperada pelos desenvolvedores da vacina e os voluntários tinham conhecimento disso.

Isso porque a proteína presente no vírus da Aids foi utilizada para a produção da vacina contra o coronavírus.

A peça de fake news também indica que todas as pessoas que tomaram a vacina desenvolvida pela Universidade de Queensland foram contaminadas pelo vírus da Aids, o que não é verdade.

Alguns dos 216 voluntários que participaram da fase 1 dos testes clínicos desenvolveram mais anticorpos do que o esperado, por isso o falso-positivo. O problema é que o resultado alterou o andamento dos exames.

Em todos os anúncios públicos, os pesquisadores reforçaram que nenhum dos voluntários foi contaminado por HIV.

Tecnologia é inovadora, mas não deu certo

Apesar de já esperaram por alguns resultados de falso positivo para HIV, os cientistas que desenvolveram o imunizante não imaginavam que os níveis de anticorpos de algumas pessoas seriam tão elevados.

Em entrevista para a filiada australiana da rede TV SkyNews, a especialista em estudos do HIV do Instituto Westmead de Pesquisas Médicas, Sarah Palmer, explicou que o problema foi causado porque os cientistas da Universidade de Queensland usaram um segmento do vírus HIV como molécula “clamp”.

O objetivo era estabilizar a proteína do coronavírus da vacina experimental e a tornar alvo atraente para o sistema imunológico do corpo. Palmer considerou a tecnologia inovadora, apesar de não ter dado certo.

“Infelizmente, como esse grampo molecular foi feito de uma proteína do HIV, não só o corpo respondeu desenvolvendo anticorpos para a proteína spike do coronavírus, o que é muito positivo, mas também desenvolveu anticorpos para a proteína do HIV. Isso fez com que as pessoas tivessem testes de HIV positivos, embora não estivessem infectadas com o HIV”, explicou a cientista.

Pesquisa com vacina australiana contra COVID-19 será retomada no futuro

Quando o governo australiano descartou o uso do imunizante, os testes clínicos já estavam na fase 3. A Universidade de Queensland anunciou que reiniciará a pesquisa e que, dependendo dos novos resultados, a vacina contra a COVID-19 poderá ser utilizada no futuro.

Vale dizer que o próprio Instituto Westmead, do qual Palmer faz parte, está desenvolvendo uma vacina contra o coronavírus com tecnologia semelhante, mas voltada especificamente para idosos.

SARS-CoV-2 não foi produzido em laboratório

As declarações falsas do homem do vídeo analisado não pararam na vacina australiana. Ele também que todas as vacinas contra a COVID-19 podem infectar pessoas com o HIV, incluindo a “que vem da China”, em referência à CoronaVac.

A afirmação é embasa em uma declaração do virologista francês Luc Montagnier, vencedor do Novel de Medicina pela descoberta do HIV na década de 80. Em abril de 2020, o médico declarou que a responsabilidade pela ‘criação’ do vírus é de um laboratório em Wuhan, na China.

Os comentários do francês, porém, foram criticados e refutados pela comunidade científica internacional. Até agora, as melhoras evidências científicas disponíveis até o momento indicam que o SARS-CoV-2 tem origem natural.

Além disso, as afirmações do homem do vídeo falso relacionam a CoronaVac ao fato ocorrido na Austrália, porém o imunizante não foi testado por lá e nem utiliza partes do vírus HIV em sua composição.

Os tipos de vacinas contra a COVID-19

Existem várias tecnologias diferentes utilizadas na produção de vacinas. As que utilizam vírus inativado são as mais antigas e amplamente utilizadas, por exemplo, para combater a gripe e a poliomielite.

A CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, utiliza essa técnica. Vale lembrar que o imunizante, produzido aqui no Brasil pelo Instituto Butantan, é o mais aplicado na população brasileira e tem eficácia geral que pode chegar a 62,3%.

Já as vacinas de RNA são uma tecnologia mais moderna e que ganhou destaque na pandemia. As representantes desse grupo são as vacinas norte-americanas Pfizer/BioNTech e Moderna.

A vacina Oxford/AstraZeneca, desenvolvida pela universidade britânica e produzida no Brasil pela Fiocruz, conta com a tecnologia de vetor viral não-replicante, assim como os imunizantes da farmacêutica norte-americana Jassen e Sputnik V, da Rússia.

Há ainda as vacinas proteínas sub-unitárias, que não utilizam vetores virais como intermediários. As proteínas, pequenos pedacinhos do vírus, são injetadas diretamente no organismo do paciente. O exemplo é a vacina da farmacêutica americana Novavax.

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