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Fake news: não é verdade que cloroquina foi utilizada para tratar gripe espanhola

Fake news: não é verdade que cloroquina foi utilizada para tratar gripe espanhola

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Sanar

6 min há 50 dias

Circula pelas redes sociais um texto originalmente publicado no Facebook, e compartilhado por milhares de pessoas, que diz que a cloroquina foi indicada como tratamento durante a pandemia da chamada Gripe Espanhola.

O texto viralizou acompanhada de uma foto com um anúncio publicado em jornais de 1918 e que recomenda o tratamento com um comprimido de “chloro quinino” para melhorar os sintomas da gripe.

Você que acompanha nossas postagens com as fake news mais comuns sobre a COVID-19 já sabe que não existe respaldo científico na afirmação de que cloroquina combate a infecção pelo SARS-CoV-2.

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A informação de que o medicamento foi utilizado durante a Gripe Espanhola é também falsa, já que a cloroquina foi sintetizada anos mais tarde, em 1934. As informações foram verificadas pela Agência Lupa.

Confira abaixo os detalhes que indicam a fake news:

Cloroquina não funciona para COVID-19

O primeiro ponto que deve ser trazido aqui é que a cloroquina ou a hidroxicloroquina não tiveram sua eficácia contra a COVID-19 comprovada pela ciência. Ao contrário, as melhores evidências científicas indicam que os medicamentos não funcionam no combate à infecção.

Além disso, usar os fármacos para fins que não são recomendados em bula pode causar sérias consequências para a saúde. Há relatos recentes de pacientes infectados pelo coronavírus que morreram após fazer nebulização com hidroxicloroquina.

Apesar da falta de evidências científicas, os fármacos são indicados, ao lado de outros medicamentos como ivermectina e azitromicina, como ‘tratamento precoce’ para a COVID-19. Neste post, damos os detalhes de cinco medicamentos que não funcionam no combate ao coronavírus.

A Associação Médica Brasileira, que reúne mais de 80 entidades médicas no país, defende que cloroquina, hidroxicloroquina e o restante de medicamentos do ‘kit Covid’ sejam banidos do tratamento da doença. A posição é a mesma de entidades internacionais, como a Organização Mundial da Saúde e as agências sanitárias dos Estados Unidos e da Europa.

Tratamento precoce sob investigação

O tema do ‘tratamento precoce’ é central na investigação da Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) da Covid, conduzida pelo Senado para apurar ações e omissões do governo federal durante a gestão da pandemia no Brasil.

Os parlamentares investigam a insistência do Ministério da Saúde em indicar medicamentos para combater a infecção sem respaldo científico e a demora para comprar vacinas contra a COVID-19, uma das únicas formas de frear a pandemia.

Confira tudo o que você precisa saber sobre a CPI da Covid.

Cloroquina é posterior à Gripe Espanhola

Em 1918, a Gripe Espanhola causou a morte de 20 a 50 milhões de pessoas, afetando não só idosos e pacientes com sistema imunológico debilitado como também jovens e adultos. Com possível origem nos Estados Unidos, essa enfermidade quase dizimou as populações indígenas e levou a óbito cerca de 35 mil brasileiros. 

Com outras variáveis durante o século XX, a gripe ocasionou surtos pandêmicos nos anos de 1957 e 1968. Já em 2009, uma variação da Gripe Suína – anteriormente evitada na década de 70 – assolou a América do Norte, Europa, África e Ásia oriental.

A informação de que a cloroquina teria sido utilizada durante a Gripe Espanhola é falsa pelo simples motivo de que o medicamento só foi sintetizado em 1934, como mostra a literatura médica.

“Chloro quinino” não é cloroquina e não combate a gripe

A mensagem falsa que circula nas redes sociais é acompanhada do texto de um anúncio que defende que a população use  “chloro quinino”, ou cloridrato de quinino, para combater sintomas de gripe.

Como apurou a Agência Lupa, o anúncio foi publicado originalmente em 3 novembro de 1918 no jornal “Minas Geraes”, segundo o livro “A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil”, de Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel.

O texto foi feito por uma farmácia mineira que pretendia vender o cloridrato de quinino mesmo sem que o remédio tivesse eficácia comprovada para Gripe Espanhola. Em setembro de 2020, o jornalista Ancelmo Goes, do jornal O Globo, reproduziu o anúncio em sua coluna.

A cloroquina e a chloro quinina são medicamentos diferentes. Segundo o Conselho Federal de Química, o cloridrato de quinina é de origem natural, produzido a partir de cascas da árvore de cinchona, e foi descoberto em 1820.

A cloroquina, por sua vez, é de origem sintética, e foi desenvolvida em 1934. Eles apresentam fórmula molecular, fórmula estrutural e massa molecular diferentes. Ambos são usados no tratamento de malária, portanto não combatem a gripe, como afirma a fake news.

COVID-19, Gripe Espanhola e desinformação


Segundo a Fiocruz, os primeiros registros de infectados pela Gripe Espanhola no Brasil são de setembro de 1918. Na época, as autoridades brasileiras desconheciam medicamentos eficazes no tratamento da doença e a recomendação era evitar aglomerações.

“Nos jornais multiplicavam-se receitas: cartas enviadas por leitores recomendavam pitadas de tabaco e queima de alfazema ou incenso para evitar o contágio e desinfetar o ar. Com o avanço da pandemia, sal de quinino, remédio usado no tratamento da malária e muito popular na época, passou a ser distribuído à população, mesmo sem qualquer comprovação científica de sua eficiência contra o vírus da gripe”, diz o texto da Fiocruz, que traz um balanço histórico sobre a peste.  

As informações históricas impressionam pela atualidade, já que estamos enfrentando não só uma pandemia mas também a chamada infodemia, com excesso de fake news e notícias descontextualizadas que podem trazer sérias consequências para a população. Falamos sobre isso neste post.

E para quem tem curiosidade sobre as pandemias já enfrentadas pela humanidade, confira este artigo, que traz semelhanças e diferenças entre COVID-19, Gripe Espanhola e outras pandemias mundiais.

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