Coronavírus

Fake news: não é verdade que quem já teve COVID-19 não deve se vacinar

Fake news: não é verdade que quem já teve COVID-19 não deve se vacinar

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Sanar

6 minhá 14 dias

Circulam nas redes sociais algumas postagens que afirmam que quem já teve COVID-19 não deve se vacinar contra o novo coronavírus, já que o paciente estaria naturalmente imunizado.

Algumas postagens apontam ainda que os pacientes que já tiveram COVID-19 correm o risco de ter uma infecção agressiva ao tomar o imunizante, chamada de “tempestade de citocinas”.

A informação é falsa porque as respostas imunes causadas pelas infecções do SARS-CoV-2 são muito variadas e apenas exames específicos de anticorpos neutralizantes e de células do sistema imunológico podem revelar o nível de proteção obtida pela infecção natural.

Além disso, não há qualquer evidência de que quem já teve a doença está mais suscetível à tempestade de ocitocinas em caso de ser vacinado.

O trabalho de checagem do Projeto Comprova entrevistou especialistas e esclareceu alguns pontos que indicam a fake news. Confira a seguir.

Quem já teve COVID-19 tem imunidade celular?

O conhecimento sobre a proteção gerada por quem teve a infecção ainda é um ponto incerto nos estudos sobre o SARS-CoV-2. O médico imunologista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), André Báfica, disse ao Comprova que ainda não se sabe qual o índice de proteção que a infecção natural promove no organismo.

O médico, que atua no desenvolvimento de outra vacina contra a COVID-19, explica que em algumas situações, como da pneumonia causada pela bactéria Pneumococo, a vacina protege mais do que a infecção natural.

Em outros casos, como a caxumba, a imunização pela infecção é mais duradoura do que a da vacina – embora desenvolver a doença ofereça risco de infertilidade para homens.

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Testes que detectam níveis de anticorpos são complexos

No caso da COVID-19, o professor esclarece que há muita variação na resposta imune causada pelas infecções. E saber quem eventualmente já teria obtido proteção natural não é tarefa fácil.

Os testes rápidos detectam apenas quem já teve contato com o vírus. Para saber a proteção real que a pessoa tem contra o SARS-CoV-2, é preciso identificar se essa exposição gerou a criação de anticorpos neutralizantes ou se há presença de células T (linfócitos T) específicas.

“Tem maneiras de a gente saber, mas essas maneiras são muito caras, feitas em laboratório altamente especializado, para medir o nível de resposta imunológica das células T e o nível de anticorpos neutralizantes. Isso custa caro, muito mais caro que uma dose de vacina”, afirma Báfica.

Vacinas devem ser tomadas por todos, inclusive quem já teve COVID

O especialista afirma ainda que as eficácias já comprovadas em estudos pelas vacinas disponíveis contra a COVID-19 são motivos mais do que suficientes para demonstrar a vantagem de se imunizar contra a doença.  

“Vai ser muito mais barato as pessoas tomarem a vacina, que a gente sabe que é segura, do que fazer um teste para saber se vai ou não precisar dela”, explica Báfica.

O virologista da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Flávio Fonseca, afirmou que há lacuna de informação sobre a longevidade da resposta imune de pacientes infectados e o quão eficaz ela é.

“Se a gente tivesse uma resposta clara de que a pessoa que se infectou está protegida, igual na catapora, ótimo. Não é o caso, a ciência ainda não conseguiu arregimentar essas informações”, aponta.

Outro especialista ouvido pelo Projeto Comprova, Rafael Dhalia, lembra que vários estudos mostram queda abrupta de anticorpos três meses depois de o paciente ter sido contaminado pelo novo coronavírus.

“Se a imunidade celular por si só conferisse total proteção, não existiram casos de reinfecção pelo SARS-CoV-2”, disse Dhalia, que é especialista no desenvolvimento de vacinas de DNA vírus da Fiocruz.

Procurado pelo Comprova, o especialista em desenvolvimento de vacinas de DNA vírus pela Fiocruz, Rafael Dhalia, confirma que estudos mostram queda abrupta de anticorpos após três meses de infecção e que, embora a resposta celular ocorra com a infecção, “se a imunidade celular por si só conferisse total proteção, não existiriam casos de reinfecção pelo SARS CoV-2”.

Há relação entre as vacinas e tempestade de citocinas?

Associar as vacinas contra a COVID-19 à chamada tempestade de citocinas tornou-se recorrente para grupos especializados em criar e disseminar fake news, como você pode ver aqui.

A tempestade de citocinas é um processo inflamatório causado por uma resposta imune excessiva. O sistema inflamatório do corpo não consegue parar de atuar e acaba causando danos ao próprio organismo.

Há vários estudos que analisam possível relação desse fenômeno com a alta mortalidade decorrente de COVID-19. Porém, o especialista da UFMG, Flávio Fonseca, afirma que a relação entre vacina e possível risco a quem já se infectou é incorreta.

“A resposta ao vírus é uma coisa, a resposta à vacina é completamente diferente. Nenhuma das vacinas é composta pelo vírus vivo. Ou é uma vacina de RNA, ou de adenovírus, ou de vírus morto ou que contém uma proteína do SARS-CoV-2.”

O especialista continua: “Então, a circunstância da vacinação é outra. Ela gera anticorpos e células de defesa contra o coronavírus, mas num ambiente global de resposta imune completamente diferente da resposta ao coronavírus”, detalha.

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