Coronavírus

Fake news: não é verdade que vacinas de RNA mantidas em baixa temperatura alteram DNA

Fake news: não é verdade que vacinas de RNA mantidas em baixa temperatura alteram DNA

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Sanar

7 minhá 13 dias

E a campanha contra as vacinas da COVID-19 continuam intensas entre alguns grupos nas redes sociais. A bola da vez é uma mensagem viral que afirma que as vacinas de RNA que precisam ser armazenadas em temperaturas muito baixas não são, de fato, vacinas, mas um agente que modifica o código genético do paciente.

“Qualquer vacina que precise ser enviada e armazenada a -80ºC não é uma vacina. É um agente de transfecção, mantido vivo para infectar suas células e transferir material genético. Não os deixe enganar você. Isso é manipulação genética de humanos em grande escala”, diz a postagem do Facebook.

A pedido de usuários, a agência Lupa verificou a informação. O trabalho de checagem demonstrou que se trata de mais uma fake news, sem qualquer lastro científico. Confira a seguir alguns dos principais pontos que desmentem a mensagem viral.

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Vacinas de RNA têm tecnologia diferente

As vacinas que precisam ser armazenadas em temperaturas muito baixas são as que usam tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), como acontece com os imunizantes da Pfizer/BioNTech e Moderna, ainda não disponíveis para uso da população brasileira.

Para entender como esse tipo de vacina funciona, é preciso saber que o SARS-CoV-2 é composto por espículas em sua superfície, que é a porta de entrada para as células do corpo humano.

A fabricação dessas espículas é feita por proteínas. No caso de vacinas de RNA mensageiro, a mensagem para a fabricação dessas proteínas é codificada em uma molécula de RNA que é encapsulada em uma membrana lipídica para que ela possa entrar nas células.

Quando a vacina é injetada no paciente, o RNA então entra nas células fazendo com que elas produzam as proteínas da espícula do coronavírus. A presença dessas proteínas desencadeia a produção de anticorpos.  

Em resumo, a tecnologia é diferente, mas o produto final é mesmo uma vacina. Os imunizantes da Pfizer/BioNTech e Moderna foram considerados pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) como altamente eficazes, com 80% de eficácia já na aplicação da 1ª dose.

Temperatura baixa é condição para a preservação da molécula em vacinas de RNA

Segundo os fabricantes que trabalham com essa tecnologia, as temperaturas baixas são necessárias por causa da sensibilidade da molécula de RNA, que pode perder sua eficácia caso não esteja estabilizada corretamente.  

Em entrevista à Lupa, a professora Santuza Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que as vacinas com moléculas de mRNA são sensíveis na sua composição e se degradam com facilidade.

“Isso porque o papel dos RNAs nas células exige exatamente isso: o RNA tem que ser produzido, utilizado para guiar a síntese de proteínas e degradado rapidamente para que proteínas diferentes possam ser produzidas em seguida”.

Um dos grandes desafios das vacinas de RNA, diz, é o de encontrar uma formulação que permita que essas moléculas se mantenham estáveis enquanto elas não são internalizadas pelas células do indivíduo vacinado. Por isso, a necessidade de baixas temperaturas no armazenamento.

Diferentes partículas, diferentes temperaturas

A vacina da Pfizer/BioNTech precisa ser armazenada em uma temperatura de -75ºC, e por ser guardada por até seis meses nessa temperatura. Já o imunizante da Moderna pode ser conservado em uma temperatura entre -25ºC e -15ºC.

O pesquisador Daniel Bargieri, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), explica que essa diferença depende do tipo de nanopartícula usada nas formulações de cada imunizante.

Essa partícula serve como “veículo” para que o RNA entre nas células. “Ainda que a Pfizer e a Moderna utilizem o mesmo tipo de mRNA, elas usam nanopartículas lipídicas diferentes”, explica.

“A Moderna usa uma tecnologia chamada Lipid H, e a Pfizer usa uma tecnologia chamada Acuitas ALC-0315. Provavelmente as diferenças de temperatura são devido às diferenças na composição das nanopartículas lipídicas usadas”.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é em relação à diferença de quantidade de mRNA em cada uma delas. “É possível que isso tenha também impacto para a diferença de tempo que essas vacinas resistem em temperaturas mais altas”.

Outros tipos são mais resistentes

As vacinas de RNA mensageiro são apenas um  dos tipos de vacinas disponíveis. Há outras com tecnologias distintas, como vacina com o vírus inativado ou vacina com vetor viral. Em geral, as vacinas são sensíveis a variações de temperatura, mas não exigem temperaturas tão baixas.

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) explica que a maioria delas são conservadas entre 2ºC e 8ºC. É o caso do principal imunizante utilizado no Brasil até então, a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Ela é feita de vírus inativado, uma tecnologia bem mais resistente ao calor.

Aqui você encontra mais informações sobre as principais diferenças entre as vacinas para a COVID-19.

Vacinas de RNA não alteram o DNA

Outra mentira contida na mensagem viralizada nas redes sociais associa a tecnologia das vacinas de RNA com a alteração do código genético do ser humano. Porém, essas vacinas sequer interagem com o DNA do imunizado.

“As vacinas não modificam nem o nosso mRNA, nem o nosso código genético, de forma alguma. O que elas fazem é provocar uma resposta imunológica do organismo frente àquele corpo estranho, sem riscos de alterações genéticas”, explicou à Lupa o médico Gilmar Reis, professor do Departamento de Medicina da PUC Minas.

De acordo com Reis, manipulação genética seria pegar, por exemplo, o núcleo de uma célula e colocá-lo em outra. “[Isso] não ocorre com as vacinas, visto que elas atuam no sistema imunológico para impedir ou retardar a chegada do vírus às células e, portanto, não provocam modificações no código genético das pessoas”.

No vídeo abaixo, você encontra mais informações que atestam a segurança das vacinas:

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