Coronavírus

Fake news: não há estudos sérios que comprovam a eficácia da ivermectina contra COVID-19

Fake news: não há estudos sérios que comprovam a eficácia da ivermectina contra COVID-19

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Sanar

7 minhá 25 dias

Circula por grupos de WhatsApp uma mensagem afirmando que estudos comprovavam a eficácia da ivermectina contra COVID-19. O conteúdo é acompanhado por uma imagem com dados sobre pesquisas e resultados.

As informações, atribuídas ao site ivnmeta.com, indicam que a ivermectina seria 90% eficaz como profilaxia da COVID-19, 80% eficiente como tratamento precoce e 50% para tratamento tardio.

“Saiu o Randomizado da Ivermectina
Pronto esta ai a eficácia e a comprovação cientifica
https://ivmmeta.com/
PRA QUEM QUERIA ‘CIÊNCIA’ ESTÁ AÍ
90% de eficácia na profilaxia
80% no tratamento precoce
50% no tratamento tardio”.

Eficácia da ivermectina contra COVID-19 é fake news

Você que nos acompanha por aqui já sabe que a ivermectina é constantemente protagonista de fake news relacionadas à COVID-19. Embora o medicamento tenha aparecido como promessa, até agora não foi possível atestar sua eficácia em relação a profilaxia ou tratamento precoce ou tardio contra a COVID-19.

A  plataforma UpToDate, que reúne informações médicas utilizadas por profissionais de saúde de todo o mundo, indica que vários ensaios clínicos de ivermectina ainda estão em andamento, mas que “os únicos resultados disponíveis até agora são de ensaios não publicados de baixa qualidade”.

O trabalho de checagem de notícias da Agência Lupa marcou o conteúdo como falso e levantou alguns pontos sobre a verificação, que listamos abaixo. Confira:

Meta-análise sobre eficácia da ivermectina contra COVID-19 é incorreta

A corrente do WhatsApp credita a fonte dos dados ao site ivnmeta.com, página que apresenta uma meta-análise de 45 estudos sobre a ivermectina e que calcula a eficácia do fármaco a partir dos resultados de RR, sigla para Risco Reduzido, dessas pesquisas.

No entanto, a metodologia usada para fazer a análise dos resultados não tem legitimidade, segundo explicou o cardiologista e pesquisador José Alencar, entrevistado pela Lupa.

“Não tem validade porque usa um método ludibriador — a de fazer uma meta-análise incluindo apenas os estudos que quer e misturando alhos com bugalhos. Metodologicamente, essa análise não passaria em nenhuma revista séria”, disse.

Para chegar ao dado de 90% de eficácia da ivermectina como profilaxia, por exemplo, a página avaliou 11 estudos. A análise, porém, mistura desfechos diferentes dessas pesquisas e acaba induzindo o leitor ao erro.

“Há estudos que tiveram como desfecho casos [de COVID-19], outro morte, outro caso sintomático”, observou Alencar. “Você faz uma meta-análise para cada desfecho estudado, esse é o correto. Fora isso, [as pesquisas] têm doses [do medicamento] diferentes também”.

Falhas metodológicas também nos estudos de base sobre eficácia da ivermectina contra COVID-19

O especialista ouvido pela Lupa também destacou que os estudos que basearam os cálculos de eficácia têm graves falhas metodológicas, o que “acaba com a qualidade da meta-análise”.

Um dos estudos citados, por exemplo, sequer foi revisado por pares. O outro conclui que mais pesquisas são recomendadas, portanto não traz resultados definitivos.

Ao contrário do que sugere a página, uma das pesquisas mais recentes sobre a ivermectina – um ensaio duplo-cego e randomizado publicado em 4 de março no Journal of the American Medical Association (JAMA) – avaliou se o antiparasitário era eficaz em pacientes com sintomas leves de COVID-19.

O estudo incluiu 476 pacientes e indicou que a duração dos sintomas não foi significativamente diferente para os pacientes que receberam ivermectina por cinco dias em comparação com os que receberam placebo. A conclusão foi de que mais estudos eram necessários.

Site duvidoso

O site que reúne os estudos sobre ivermectina citado na fake news é carente de informações que ajudem a entender melhor quem são os autores da página.

Como apurou a Lupa, na seção de perguntas frequentes consta apenas a informação de que o site é  assinado por um grupo de pesquisadores, cientistas e “pessoas que esperam dar uma contribuição, mesmo que pequena”.

Esse grupo também assina como @CovidAnalysis no Twitter — a conta, entretanto, não foi encontrada na rede social e, segundo os autores, foi censurada.

O grupo não divulgou o nome dos participantes e, como justificativa, sugere que leitores pesquisem termos como “ameaças de morte raoult” ou “simone gold despedida” em sites de busca. 

A primeira pesquisa leva ao nome do médico francês Didier Raoult, que ficou conhecido por defender a hidroxicloroquina como tratamento para a COVID-19 no ano passado. Em janeiro deste ano, ele admitiu que a substância não reduz a mortalidade nem diminui a gravidade da doença.

A segunda busca, “simone gold despedida”, refere-se à médica norte-americana e ativista antivacina Simone Gold, também defensora da hidroxicloroquina e que estava presente na invasão do Capitólio dos Estados Unidos em janeiro deste ano.  

O que é correto sobre a ivermectina?

A última atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as opções terapêuticas contra a COVID-19 indica que ainda existem “incertezas sobre benefícios e danos potenciais” do antiparasitário e que “mais pesquisas são necessárias”.

A conclusão da OMS baseia-se na análise de 22 estudos randomizados com um total de 2.944 pessoas. De acordo com a OMS, a maioria dessas pesquisas têm limitações metodológicas importantes, como, por exemplo, “provável processo inadequado de randomização​​”.

A conclusão, até o momento, é a de que é incerto que a ivermectina reduza a mortalidade ou a infecção sintomática. Esse posicionamento é compartilhado por entidades como a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, que não recomenda a fórmula para tratar a doença.

Em 5 de março, a Food and Drug Administration (FDA), agência federal de saúde norte-americana, emitiu, inclusive, um alerta sobre o uso da ivermectina para o tratamento ou para a prevenção da Covid-19.

O parecer evidencia que o medicamento não foi aprovado para esse fim nos Estados Unidos: “os comprimidos de ivermectina são aprovados em doses muito específicas para alguns vermes parasitas e existem formulações tópicas para piolhos e doenças da pele como a rosácea. A ivermectina não é um antiviral. Tomar grandes doses desse medicamento é perigoso e pode causar sérios danos”, diz o comunicado.

Em fevereiro, a farmacêutica MSD (Merck Sharp and Dohme), que produz a ivermectina, se manifestou descartando o uso do antirapasitário para a COVID-19.

Tratamento precoce é desencorajado por autoridades de saúde

Além da ivermectina, o site duvidoso faz meta-análise de estudos sobre outras substâncias, como vitamina D, vitamina C, zinco e hidroxicloroquina, entre outras. O endereço do site muda conforme o medicamento.

Até o momento, nenhum estudo sólido comprovou a ação contra o novo coronavírus de qualquer uma das drogas que compõem o chamado ‘kit Covid’, como hidroxicloroquina e azitromicina.

Além disso, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce de medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBI), o Centro de Prevenção e Doenças dos Estados Unidos (CDC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).  

O vídeo abaixo traz mais algumas explicações sobre a ineficiência do “tratamento precoce” para COVID-19.

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