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Fake news: OMS não indicou isolamento social sem restrições da Suécia como ‘modelo a ser seguido’

Fake news: OMS não indicou isolamento social sem restrições da Suécia como ‘modelo a ser seguido’

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Imagem de perfil de Sanar

Circula no Facebook um post com a montagem de uma foto do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, com nariz de palhaço e a seguinte frase: “E AGORA? OMS afirma que Suécia, que não fez lockdown, é ‘modelo a ser seguido’”. O conteúdo foi compartilhado por mais de duas mil pessoas e está circulando em outras redes sociais, mas é mais uma fake news criada com o objetivo de descredibilizar a OMS e advogar a favor de medidas menos restritivas no combate à pandemia da COVID-19, querendo supor que o isolamento social da Suécia foi considerado um exemplo.

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O trabalho de checagem foi realizado pela Lupa e pelo Boatos.org. Veja a seguir as principais evidências que comprovam que a falsidade da informação:

Entrevista antiga e descontextualizada sobre isolamento social

Apesar de compartilhado como se fosse atual, o boato se apoia em uma entrevista antiga, de 29/04/2020, do diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Michael Ryan.

Diferentemente do que sugere a postagem, Ryan não disse que a Suécia era modelo a ser seguido durante a pandemia. O país europeu havia adotado, naquela ocasião, um isolamento social baseado num pacto de confiança entre governo e sociedade, em vez de multas ou regulações severas.

Na entrevista, Ryan afirmou que as medidas da Suécia poderiam ser, no futuro, um exemplo para a realidade de um “novo normal”, como destacou a Lupa.

 “A Suécia representa um modelo futuro no qual, se quisermos voltar para uma sociedade em que não temos lockdowns, teremos que nos adaptar para um período médio ou potencialmente longo em que as relações físicas e sociais terão de ser dimensionadas pela presença do vírus”.

Na mesma entrevista, o diretor da OMS evidenciou o fato de que, embora o modelo baseado num pacto de confiança entre o governo e a população seja uma possível lição a ser aprendida no futuro, a Suécia agiu para tentar controlar a COVID-19, inclusive com medidas de isolamento para evitar a propagação do SARS-CoV-2.  

“A Suécia implementou uma política de saúde pública muito forte em torno do distanciamento físico, em torno de cuidar e proteger as pessoas em instalações de longo prazo e muitas outras coisas”, disse.

Ryan ainda concluiu que essas medidas deveriam ser avaliadas. “O que [a Suécia] fez de diferente é que realmente confiou em suas próprias comunidades para implementar esse distanciamento físico e isso é algo que nos resta ver: se terá sucesso total ou não”.

Pandemia se agravou no país

A Suécia foi um dos poucos países do mundo que não decretou nenhum tipo de lockdown para frear a propagação do novo coronavírus. A estratégia adotada no início da pandemia foi baseada em recomendações de distanciamento social que indicavam não visitar parentes idosos e evitar viagens. Comércio e serviços, porém, continuaram abertos.

Porém, as evidências que surgiram com o correr dos dias apontaram que as políticas de isolamento social menos restritivas não ajudaram a frear a pandemia no país. Pelo contrário, ela se agravou.

Em junho de 2020, o epidemiologista responsável pela estratégia adotada, Anders Tegnell, admitiu que a medida causou muitas mortes por COVID-19. Em novembro, o governo introduziu restrições mais duras às interações sociais, como proibições de reuniões com mais de oito pessoas e veto nacional à venda de álcool a partir das 22h em bares e restaurantes.

Em dezembro de 2020, o país registrou uma nova explosão de casos e mais de 7.800 mortes, uma taxa per capita muito maior do que seus vizinhos nórdicos. Isso fez com que o rei Carl XVI Gustaf viesse à público afirmar que o país falhou no combate à pandemia.

“Acredito que falhamos”, disse o rei, como noticiou a CNN Brasil na época. “Tivemos grande número de mortes e isso é terrível. Isso é algo que nos traz sofrimento a todos”.

Índice de morte pior do que o do Brasil

E a situação do país continua difícil. De acordo com  dados da Universidade Johns Hopkins, em 2 de março de 2021 a Suécia registrava 657.309 casos de COVID-19 confirmados e 12.826 mortes.

O índice posicionava o país como o 22º pior em mortes a cada 100 mil habitantes: 125,9 no total. O dado foi, inclusive, pior do que o do Brasil, que na mesma data registrava 122 mortes para cada 100 mil habitantes.

Neste post, explicamos melhor a diferença entre número absoluto de mortes e proporção em relação ao número de habitantes do país.

Isolamento social: diferenças entre distanciamento, quarentena e lockdown

Na ausência de medicamentos e tratamentos capazes de combater a COVID-19 e de vacinação para toda a população, o isolamento social foi uma das principais medidas adotadas ao redor do mundo para contenção da pandemia do novo coronavírus.  

Ele pode ser feito de forma vertical, em que somente pacientes que compõem o grupo de risco para a doença ficam isolados, ou horizontal, no qual somente os serviços essenciais são mantidos.

Dentro desse cenário, há outros dois termos que podem ser tratados como sinônimos de isolamento social, mas que possuem conceitos diferentes: quarentena e distanciamento social.

A quarentena é utilizada quando as pessoas são expostas a doença contagiosa, mas não estão necessariamente doentes, pois pode se tratar de um período de incubação. Ela pode durar, no máximo, 14 dias.

Já o distanciamento social consiste na diminuição de interação entre as pessoas de uma comunidade visando amenizar a velocidade de transmissão da Covid-19. Geralmente ele é aplicado nos países e regiões onde há transmissão comunitária.

O chamado lockdown, por sua vez, é tido como uma estratégia mais extrema, adotada apenas em situação de grave ameaça ao sistema de saúde. Isso porque a medida isola um determinado perímetro, com bloqueio de todas as entradas por profissionais de segurança. Em outras palavras, ninguém saí ou entra do perímetro isolado sem autorização.

A medida custa alto para a economia. Em contrapartida, é eficaz para reduzir a curva de casos e dar tempo para o sistema de saúde se reorganizar em caso de aceleração descontrolada de casos confirmados e óbitos.

Relatório do Ministério da Saúde brasileiro aponta que os países que o implementaram num momento crítico conseguiram sair mais rápido daquele cenário.

Em janeiro de 2021, com o recrudescimento da pandemia da COVID-19 no Brasil, a estratégia passou a ser adotada por diversos estados do país para tentar barrar o colapso no sistema de saúde.

No vídeo abaixo, falamos mais sobre isolamento social: