Coronavírus

Fake news: retratação em estudo sobre hidroxicloroquina não atesta eficácia contra COVID-19

Fake news: retratação em estudo sobre hidroxicloroquina não atesta eficácia contra COVID-19

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Sanar

6 minhá 16 dias

No fim de 2020, uma das principais revistas científicas do mundo, The Lancet, divulgou uma retratação sobre um estudo sobre hidroxicloroquina não ter efeito para tratar a COVID-19.

A retratação aconteceu depois que pesquisadores apontaram falhas metodológicas no estudo observacional. A máquina das fakes news não perdeu tempo e usou esse fato para afirmar que isso seria um indicativo de que a hidroxicloroquina é eficaz contra a infecção provocada pelo SARS-CoV-2.

Diz a postagem: “Peraí, na boa, DESCULPAS??? Quantas pessoas morreram do v1rus sh1nê1s POR TEREM ACREDITADO que a Hidroxicloroquina NÃO FUNCIONAVA contra o vírus??? Quantas pessoas morreram POR ACREDITAREM na OMS, em médicos, artistas, políticos, “especialistas”, blogueiros, “jornalistas”, TV, rádio, TODOS ESSES QUE DISSERAM QUE A HIDROXICLOROQUINA NÃO FUNCIONAVA E FAZIA MAL?”

O post reuniu mais de 10 mil compartilhamos pouco tempo depois de circular no Facebook, mas foi marcada com o selo DISTORCIDO pela ferramenta de verificação da própria rede social. Isso porque pesquisas mais robustas divulgadas após a invalidação da análise da revista científica também confirmaram a ineficácia do medicamento.

O trabalho de checagem de notícias do Aos Fatos explicou em detalhes o que aconteceu com o estudo da hidroxicloroquina publicada na The Lancet e por que o medicamento, de fato, não funciona contra a COVID-19.

Confira a seguir os principais pontos levantados:

Estudo original tinha falhas metodológicas

O estudo citado no recorte de jornal divulgado pelas postagens foi publicado na The Lancet em maio do ano passado e foi guiado por dados de 96.032 pacientes internados entre 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020.

A análise comparava a situação dos que haviam sido tratados com cloroquina ou hidroxicloroquina com os não medicados e concluía que o uso dos medicamentos não influenciou no estado de saúde dos enfermos.

Após a publicação, a comunidade científica observou inconsistências no estudo que geraram questionamentos sobre sua confiabilidade. Entre os erros apontados estavam a ausência de informações sobre quais países ou hospitais tinham fornecido os dados.

Além disso, havia diferença entre o número de infectados citados na pesquisa e os dados oficiais de algumas regiões. Os cientistas exigiram, então, uma nova análise dos dados por especialistas independentes.

Estudo sobre hidroxicloroquina foi descartado

A revisão da pesquisa exigia uma nova análise dos dados por especialistas independentes, mas a empresa que havia fornecido a base de dados, chamada Surgisphere, não concordou, alegando que o acesso às informações violaria acordos de confidencialidade com os clientes.

Sem a possibilidade de revisão, o estudo foi invalidado e retirado da revista científica no início de junho de 2020. Na retratação, os cientistas afirmaram que não poderiam assegurar a veracidade dos resultados originais.


Mas os outros estudos também apontaram para a ineficácia do medicamento

Como apontou o Aos Fatos, esse, porém, não foi o único estudo realizado sobre hidroxicloroquina. Outras investigações científicas mais robustas, conduzidas por diferentes grupos e revisados por pares também concluíram que cloroquina e hidroxicloroquina não são eficazes para tratar a COVID-19.

Ainda em junho do ano passado, a revista Science noticiou que três grandes pesquisas clínicas, randomizadas e controladas não haviam mostrado benefícios dos medicamentos em pacientes gravemente doentes ou em pessoas expostas ao SARS-CoV-2.

Um deles era o do Recovery, maior ensaio clínico do Reino Unido, que fez testes em um grupo de 1.542 pacientes internados com COVID-19 e não encontrou benefícios da droga na redução da mortalidade.

A última publicação feita pelo Recovery, em outubro, manteve a avaliação de ineficácia da droga.

O segundo estudo citado pela Science era da Universidade de Minnesota, nos EUA, que verificou o potencial de prevenção da hidroxicloroquina.

Nele, 821 voluntários que tiveram contato próximo com infectados de COVID-19 no país e no Canadá receberam o medicamento ou placebo. A conclusão, publicada no The New England Journal of Medicine, foi que os participantes não ficaram protegidos da doença.

Em outubro, outra publicação da equipe mostrou ineficácia do chamado “tratamento precoce”.

Há ainda um estudo conduzido por várias instituições em Barcelona, na Espanha, que avaliou 2.300 pessoas expostas ao vírus com risco de contaminação e não encontrou diferença significativa entre o estado de saúde do grupo que tomou hidroxicloroquina e do que tomou o placebo.

Em julho, esse estudo também mostrou que a hidroxicloroquina não trouxe benefícios quando ministrada a pacientes com quadro leve da COVID-19.

Hidroxicloroquina não é indicada por entidades sanitárias

Por não ter apresentado redução na mortalidade de pacientes hospitalizados, a hidroxicloroquina também foi retirada em junho de 2020 do Solidarity Trial, programa de pesquisas de remédios que possam agir contra COVID-19

O programa é coordenado pela Organização Mundial da Saúde e acontece em 21 países.

Atualmente, o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina contra a COVID-19 não é recomendado pelas principais entidades médicas e sanitárias do mundo.

Entre elas, a Sociedade de Doenças Infecciosas da América (IDSA, na sigla em inglês), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), além da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Recentemente, a Associação Médica Brasileira, que reúne mais de 80 entidades médicas do Brasil, divulgou comunicado pedindo que a utilização de qualquer um dos fármacos que integram o chamado “tratamento precoce” seja banida.

“Reafirmamos que, infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da COVID-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida”, diz o texto da Associação Médica Brasileira (AMB).

Mesmo assim, o medicamento figura com frequência como protagonista de postagens falsas que circulam nas redes sociais. Nós já desmentimos algumas delas aqui e aqui.

Abaixo, veja informações sobre cloroquina e hidroxicloroquina:

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