Coronavírus

Fake News: tratamento precoce contra COVID-19 não funciona

Fake News: tratamento precoce contra COVID-19 não funciona

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Sanar

8 min há 205 dias

Falamos bastante sobre o tema aqui na Sanar, mas parece que a indicação de medicamentos contra o SARS_CoV_2 ainda tem fôlego. Na última terça-feira (23/02), as versões impressas de pelo menos oito jornais brasileiros publicaram um informe publicitário que faz a defesa tratamento precoce contra a COVID-19.

O material foi assinado por uma desconhecida associação de médicos de Pernambuco, Associação de Médicos pela Vida. O site do grupo está fora do ar.

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As agências de checagem rapidamente acusaram a fake news: não há tratamento precoce contra COVID-19 e nem remédio capaz de prevenir a contaminação pelo novo coronavírus.

Por enquanto, o distanciamento social, o uso de máscaras, a higienização das mãos e a aplicação das vacinas são os únicos métodos disponíveis para se proteger durante a pandemia do novo coronavírus.

“Essas são as informações médicas, científicas, oficiais e mais recentes divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). São posições baseadas em dados técnicos, também defendidos por centenas de entidades séries de saúde em todo o planeta”, descreveu a agência de fact-checking Lupa ao rebater o conteúdo do anúncio.

Ainda segundo a agência, no último ano foram pelo menos 46 verificações que indicam que cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina não têm eficácia comprovada contra o novo coronavírus. Nesse post, nós também trouxemos algumas evidências científicas que descartam o tratamento precoce contra a COVID-19.  O vídeo abaixo traz um resumo sobre a fake news sobre tratamento precoce contra COVID-19:

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Estudos com problemas metodológicos

O anúncio com o manifesto pelo “tratamento precoce” cita alguns sites desconhecidos como referência, como c19study, ivmmeta, hcqmeta, c19ivermectin e c19legacy. Eles teriam, supostamente, realizado estudos sobre medicamentos com efeito benéfico contra a COVID-19.

A agência de checagem Aos Fatos aponta para ausência de métodos precisos, o que coloca em xeque a credibilidade das informações fornecidas. “Análises fundamentadas aparecem em meio a outras sem o mesmo rigor, como pesquisas preliminares ou que não foram revisadas por outros cientistas”, descreve o site.

“Há casos ainda de pesquisas que tiveram seus resultados totalmente alterados, ou seja, que concluíram que medicamentos não funcionam para tratar a infecção, mas que, nas plataformas, aparecem com um resultado distorcido em favor do uso das mesmas drogas”, aponta ainda a Aos Fatos.

Além disso, os sites têm autores anônimos e não apresentam claramente as metodologias que usam para gerar os materiais. A reunião de dados de diferentes países também é problemática por ignorar as particularidades de cada região, como idade média da população.

“Países com população mais jovem, por exemplo, tendem a ter menos mortes do que nações com mais idosos, o que pode interferir na análise de mortalidade de um determinado medicamento”, explica a Aos Fatos.

Conclusões distorcidas sobre tratamento precoce contra COVID-19

A agência de checagem levantou, ainda, que muitas das conclusões de pesquisas robustas publicadas nos sites listados no anúncio publicitário como “bases de dados confiáveis” foram distorcidas em benefício do uso de remédios como a hidroxicloroquina.

Foi o caso de um estudo publicado no Clinical Infectious Diseases, que não encontrou benefícios ao avaliar o uso do medicamento para casos leves de COVID-19, nem redução da carga viral no corpo ou do risco de hospitalizações. Porém, o site c19study alega que o estudo mostrou que houve redução das internações em 25%.  

O mesmo aconteceu com outro estudo, publicado no New England Journal of Medicine, que concluiu que a hidroxicloroquina não preveniu a infecção pelo novo coronavírus ao ser ministrada até quatro dias após a exposição ao vírus. O c19study, no entanto, descreve uma redução de até 49% no número de casos e alega que outros seis estudos independentes teriam confirmado a eficácia do medicamento, sem citar as fontes.

Tudo no mesmo balaio

Outro ponto em comum nos sites citados pelo grupo de médicos de Pernambuco é o descompromisso com a descrição de diferentes tipos de pesquisa. Estudos duplo-cego multicêntricos randomizados, por exemplo, têm mais peso do que estudos observacionais ou relatos de casos.

Há também preprints de qualidade duvidosa citados como estudos confiáveis, como apontam os especialistas consultados pelo Aos Fatos. “Eles pegam tudo que aparece sobre um assunto, como a hidroxicloroquina, e não fazem uma análise se a metodologia é adequada, se o nível de evidência é adequado, se a análise e condução foi adequada”, disse Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Estudos sem resultados

Como se não bastasse a indicação de sites com toda a sorte de problemas em relação à compilação de estudos e divulgação de dados, a Associação de Médicos pela Vida citou também no manifesto um estudo que sequer tem conclusão.

O estudo foi apresentado no site britânico COPCOV, que propunha um ensaio clínico financiado pela Universidade de Oxford com 40 mil pacientes para avaliar a eficácia da hidroxicloroquina para prevenir a infecção pelo SARS-CoV-2.

Como mostrou a agência Aos Fatos, o ensaio foi registrado em maio de 2020, mas até hoje não divulgou nenhum resultado. E pior: foram recrutados apenas 226 voluntários até o processo de seleção ser interrompido no Reino Unido, sem qualquer justificativa.

No próprio site da pesquisa consta ainda que dois grandes ensaios clínicos concluíram que a hidroxicloroquina não proporciona benefícios a pacientes hospitalizados

Entidades brasileiras descartam “kit-covid”

O grupo de médicos que publicou o anúncio com fake news nos jornais, infelizmente, não é o único que advoga a favor de remédios sem eficácia comprovada.

Em janeiro, o próprio Ministério da Saúde lançou um aplicativo que recomendava o uso do “kit Covid”, composto por medicamentos como hidroxicloroquina, antimaláricos, ivermectina e azitromicina. Um dia depois, o aplicativo saiu do ar.

O fato sofreu retaliação de várias entidades brasileiras, inclusive da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

“As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘tratamento precoce’ para a COVID-19 até o presente momento. Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil”, publicou a SBI em informe de 19 de janeiro de 2021.

Especialistas do mundo todo também alertam para consequências futuras provocadas pelo o uso de medicamentos sem eficácia comprovada. Entre elas estão reações adversas graves, resistência bacteriana e o consequente surgimento de “superdoenças”.

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