Coronavírus

Fake news: tratamento precoce não zerou internações por COVID-19 em 15 cidades brasileiras

Fake news: tratamento precoce não zerou internações por COVID-19 em 15 cidades brasileiras

Compartilhar

Sanar

7 minhá 12 dias

Algumas publicações circulam pelas redes sociais apresentando uma lista de 15 municípios brasileiros que teriam zerado internações por COVID-19 graças à adoção do chamado “tratamento precoce”.

Entre as cidades que integram a lista estão Cascavel (PR), Rancho Queimado (SC), Uberaba e São Lourenço (MG) e Porto Seguro (BA). Mas uma consulta às bases de dados epidemiológicos dessas e de outras cidades e estados mencionados nas postagens não deixa dúvidas de que a informação é falsa.

Uberaba, por exemplo, adotou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada em julho do ano passado. Mas até dia 22 de março, data da publicação da fake news, a cidade estava com 90% de ocupação dos leitos hospitalares reservados para a COVID-19.

Sobre COVID-19, leia também:

Porto Seguro (BA) também adotou as supostas drogas de ação preventiva, como a cloroquina, em julho de 2020. Em 24 de março deste ano, a prefeitura divulgou o recebimento de uma doação de remédios para a COVID-19, como o vermífugo ivermectina, que já teve o uso contra o SARS-CoV-2 descartado pela fabricante.

O Portal da Transparência do Estado da Bahia revela que a taxa de ocupação de leitos de UTI para COVID-19 em Porto Seguro está em 74% e que o município tem leve tendência de alta no número de óbitos.

Outro município citado na postagem falsa foi Búzios, no Rio de Janeiro. Recentemente, nós já fizemos um post desmentindo as informações de que a cidade teria zerado casos de COVID-19 após adoção de “tratamento precoce”.

Sem dados públicos sobre internações por COVID-19

O trabalho de checagem do Aos Fatos revelou que pelo menos 10 das 15 cidades mencionadas na postagem falsa tinham pacientes hospitalizados com COVID-19. As outras cinco cidades não tinham dados públicos sobre a situação da rede hospitalar na data da verificação.

Todos eles foram contatados pelo Aos Fatos, mas somente Rancho Queimado (SC) respondeu. Por telefone, o secretário da Saúde Nazareno Floriano explicou que os pacientes com COVID-19 que precisam de hospitalização são enviados para Angelina, município vizinho.

O secretário disse que não tem conhecimento de que havia habitantes internados no dia 22 e na semana anterior, mas que nos dias 23 e 24 duas pessoas foram enviadas para Angelina e já receberam alta.

Não foram encontrados dados sobre internações nos sites das prefeituras de Pilar (AL) e de São Pedro dos Crentes (MA). Além disso, os painéis das secretarias estaduais de Saúde de Alagoas e do Maranhão não separam os números de hospitalizações por cidades, algo que impede a análise individual da situação nos hospitais municipais.

Também não foram encontradas informações sobre adoção de “tratamento precoce” em Pilar. Em São Pedro dos Crentes, o prefeito Lahesio Bonfim, que é médico, já se pronunciou publicamente a respeito das drogas e disse que “o que não mata, engorda”.

Os dados de internações de moradores de Braço do Norte (SC) e São João Nepomuceno (MG) foram encontrados nos painéis das secretarias estaduais de Saúde, mas não foi possível verificar a ocupação do dia 22 porque as plataformas não disponibilizam o histórico.

Em Braço do Norte, o painel mostra que na segunda-feira (29) havia 18 pacientes de COVID-19 em leitos de enfermaria. Também foi possível verificar que a cidade distribuiu hidroxicloroquina, zinco e vitamina D em julho do ano passado.

Já em São João Nepomuceno, outro município sem informações sobre a adoção do “tratamento precoce”, havia 3,4% de ocupação de leitos de enfermaria na manhã desta terça-feira (30). Não há dados sobre ocupação de UTIs para os dois municípios.

Banimento do tratamento precoce contra COVID-19

Como se não bastasse as informações falsas sobre internações por COVID-19 dessas 15 cidades citadas, você que nos acompanha por aqui já consegue identificar a fake news somente pelas palavras “tratamento precoce”. Isso porque, não existe qualquer medicamento recomendado para prevenir ou tratar a COVID-19.

Recentemente, a Associação Médica Brasileira divulgou um comunicado pedindo o banimento do uso de qualquer medicação para tratamento ou prevenção da infecção por SARS-CoV-2 que não tenha eficácia comprovada em estudos científicos.

“Reafirmamos que, infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da COVID-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida”, diz o texto, assinado por mais de 80 entidades médicas brasileiras.

O posicionamento é o mesmo de outras entidades de saúde do Brasil e do mundo, como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

Vale lembrar que o Brasil é hoje o país com mais contaminações e mortes por COVID-19 do mundo, responsável por 25% dos óbitos, segundo informações da Organização Mundial da Saúde. A pandemia por aqui segue fora de controle.

Veja neste vídeo mais informações sobre tratamento precoce contra COVID-19:

Complicações começam a aparecer

Faz algum tempo que especialistas ao redor do mundo alertam para as consequências futuras provocadas pelo uso dos medicamentos sem eficácia comprovada para a COVID-19. Entre elas estão reações adversas graves, resistência bactéria e o consequente aparecimento de “superdoenças”.

Recentemente, o Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) confirmou o primeiro caso de paciente diagnosticado com hepatite tóxico-medicamentosa relacionada ao uso dos remédios do chamado “kit Covid”, como azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina.

O paciente tinha histórico de atleta e não tinha comorbidades. Agora, aguarda na fila do transplante de fígado. Outros casos foram detectados, mas os pacientes morreram antes de receber o tratamento adequado.  

Estamos perdendo 80% dos pacientes internados na UTI, quando o usual é de 20 a 50%, dependendo da faixa etária. Será que nossa mortalidade não está associada ao uso de remédios que têm sua hora de serem usados? Essa é a pergunta que temos feito”, disse Ilka Boin, professora e médica da unidade de transplante hepático do HC da Unicamp.

Quer as principais notícias da Sanar no seu celular todos os dias? Então faça parte do canal Sanar News no Telegram agora mesmo!

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.