Coronavírus

Fake news: uso de ivermectina contra COVID-19 não apresentou bons resultados

Fake news: uso de ivermectina contra COVID-19 não apresentou bons resultados

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Sanar

7 minhá 213 dias

Há alguns meses, o antiparasitário ivermectina ganhou o centro do debate sobre COVID-19 como uma das promessas no combate ao novo coronavírus. No entanto, já noticiamos aqui que a informação é falsa e que não há qualquer tratamento precoce capaz de frear a ação do vírus e muito menos de prevenir o contágio. Ou seja: não existe comprovação de que usar ivermectina contra COVID-19 funciona.

Mesmo assim, algumas pessoas insistem em advogar a favor da droga, lançando mão de informações falsas ou distorcidas. Foi o caso do médico pediatra e prefeito de Itajaí (SC), Volnei Morastoni.

Em julho de 2020, ele gravou um vídeo anunciando a distribuição gratuita do medicamento no município e justificou a iniciativa alegando que a ivermectina apresentou bons resultados contra a COVID-19 em outros países.

“Vamos oferecer gratuitamente a toda a população de Itajaí um medicamento para prevenção e tratamento ao coronavírus”, disse ele. “Trata-se da ivermectina, um antiparasitário que tem apresentado atividade antiviral considerável contra o vírus causador da doença. Isso já vem sendo observado através de evidências clínicas pelo mundo afora onde já se usa a ivermectina com bons resultados, como no continente africano, República Dominicana, Nova Zelândia, Austrália, Bolívia e no Brasil também. No nosso país temos resultados positivos registrados no Amapá, Belém do Pará, Porto Feliz, em São Paulo.”

Trata-se, é claro, de fake news. Não há estudos que indiquem que a droga seja eficaz contra a doença ou que tenha reduzido o contágio nesses locais, como atestam diversas entidades, como OMS, a Anvisa e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

O vídeo foi publicado no Facebook e viralizou, mas logo recebeu o selo de FALSO da ferramenta de verificação da rede social. O conteúdo também foi checado pelo Aos Fatos.

Veja no vídeo um resumo sobre a ineficácia da ivermectina contra COVID-19:

Abaixo você confere os principais pontos do trabalho realizado pela agência de checagem:

1. A pandemia avançou nos países citados

Os exemplos internacionais citados por Morastoni não corroboram com sua defesa da ivermectina. Embora o vermífugo seja amplamente utilizado em países da África (no Programa de Controle da Oncocercose), a droga não impediu o avanço da pandemia de COVID-19.

Em junho, a Organização Mundial da Saúde alertou que os casos da doença mais do que dobraram em 22 países do continente.

Dados do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, consultados pelo Aos Fatos em 19 de julho, mostravam que os casos confirmados chegavam a 720.622 e as mortes no continente eram da ordem de 15 mil, com grandes chances de serem muito maiores devido a problemas com o registro dos óbitos.

A Bolívia decidiu adotar a ivermectina em maio de 2020 para tratar vítimas de COVID-19, mas a situação da pandemia no país continuou crítica, com recordes diários de mortes e hospitais e funerárias com superlotação. Nos números atuais (05/03/21), o país registra mais de 115 milhões de casos e 2.569.422 mortes.

Situação parecida ocorreu também na República Dominicana, também citada por Morastoni. Apesar de o governo ter adotado o medicamento, a Sociedade Dominicana de Infectologia manifestou, em maio, preocupação pelo uso da droga sem comprovação científica. Em julho, o país registrava recordes de contágio.

2. Os países que controlaram bem a pandemia NÃO adotaram a ivermectina contra COVID-19

Austrália e Nova Zelândia, também citadas pelo médico, realmente apresentaram bom desempenho na minimização de contágios de COVID-19, mas não adotam a ivermectina como protocolo de tratamento oficial.

Austrália implementou uma quarentena logo que apareceram os primeiros casos no país. Além de não recomendar uso de medicamentos para combater o SARS-CoV-2, a página oficinal do Ministério da Saúde do país enfatizava que não há tratamento específico para a doença.

Já a Nova Zelândia investiu em testagem em massa e em um isolamento social rígido. Em abril de 2020, o Ministério da Saúde publicou nota na qual “recomendava fortemente” que a população não compre nem se trate com ivermectina para conter a COVID-19.

3. No Brasil, não há estudos que comprovam o benefício

Como destaca o Aos Fatos, os defensores brasileiros da ivermectina, assim como fez Morastoni, costumavam usar exemplos supostamente bem-sucedidos em Porto Feliz (SP), Belém (PA) e Amapá. No entanto, não há qualquer estudo sistemático sobre o uso do medicamento nesses locais.

No caso de Porto Feliz, a ivermectina é usada na rede pública, mas os números epidemiológicos da cidade eram, na data de divulgação do vídeo de Morastoni, piores do que a média de outras cidades do mesmo porte.

No Amapá, cidades como a capital Macapá aplicam a droga e o contágio no estado estava em queda. Contudo, sem estudos não é possível atribuir a redução ao seu uso. O Aos Fatos lembra que, em maio, o estado adotou medidas rígidas de confinamento, essas, sim, balizadas pela ciência.

Passados alguns meses da publicação do vídeo com conteúdo falso, o cenário brasileiro é um dos piores do mundo, com a pandemia fora de controle e caminhando para se tornar endêmica.

Até o fabricante refutou uso para COVID-19

No início de fevereiro de 2021, a farmacêutica alemã Merck, responsável pela fabricação da droga, afirmou que seus cientistas estavam “examinando cuidadosamente as descobertas de todos os estudos disponíveis e emergentes de ivermectina” para o tratamento da COVID-19, mas que, até o momento, a empresa identificou:

  • Nenhuma base científica para um efeito terapêutico potencial contra COVID-19 de estudos pré-clínicos;
  • Nenhuma evidência significativa para atividade clínica ou eficácia clínica em pacientes com COVID-19;
  • A preocupante falta de dados de segurança na maioria dos estudos.

Por que, apesar da falta de evidências, a ivermectina é tão falada?

O antiparasitário ganhou fama a partir de uma interpretação errônea de resultados preliminares de um estudo in vitro feito na Austrália. Explicamos os detalhes dessa história neste post.

Revisões posteriores do estudo provaram que o fármaco só teria algum efeito contra a COVID-19 se fosse utilizado em doses muito altas, com efeitos colaterais gravíssimos e até risco de overdose em pacientes.

Entenda melhor as evidências científicas que descartam a eficácia da ivermectina e de outros medicamentos contra a COVID-19.

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