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Fases cefálica e gástrica da digestão | Colunistas

Fases cefálica e gástrica da digestão | Colunistas

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Milleny Duarte

13 min há 3 dias

A função geral do trato gastrointestinal é promover alterações físicas e químicas aos alimentos ingeridos, favorecendo a absorção de nutrientes e água, assim como a excreção de conteúdos residuais. O sistema digestório inicia na cavidade oral, portanto assim que o alimento entra na boca, glândulas salivares começam a liberar suas secreções que são em conjunto chamadas de saliva. A saliva é importante para a fase química da digestão iniciada na cavidade oral, a saliva amolece e lubrifica os alimentos através de enzimas como a amilase que realiza a quebra do amido em maltose melhorando a percepção do gosto dos alimentos, a lisozima que tem função antibactericida e a imunoglobulina que inativa bactérias e vírus que possam estar presentes (SILVERTHORN,2010).

Participam da produção de saliva três importantes pares de glândulas a parótida, a submandibular e a sublingual. Essas glândulas apresentam uma estrutura tubuloalveolar sendo que a parte acinar de cada glândula pode ser diferenciada de acordo com o tipo de conteúdo secretado que pode ser seroso, mucoso ou misto . Por exemplo, a parótida produz secreção serosa (mais aquosa), a submandibular secreção mista e a sublingual secreção mucosa. Nos ácinos observa-se a presença de células acinares que possuem núcleo basal, retículo endoplasmático desenvolvido e grânulos na região apical contendo enzimas como a amilase e outras, enquanto as células mucosas possuem grânulos mais volumosos e especializados contendo a glicoproteína mucina. Além disso, as secreções glandulares são conduzidas até a cavidade oral por três tipo de ductos os intercalados (menores), ductos estriados( são medianos e suas células de revestimento podem alterar a composição iônica e a osmolaridade da saliva) e os ductos excretores (são os maiores) (BERNE,2018).

A saliva de forma geral possui uma baixa osmolaridade, elevadas concentrações de potássio e enzimas como a amilase e a lisozima com o PH entre 6 e 7. Primeiramente as células acinares produzem a secreção primária e depois células do ducto estriado fazem modificações através da adição de potássio e bicarbonato o que torna a secreção hipotônica e levemente alcalina, inibindo o crescimento de microrganismos e contribuindo para a neutralização do conteúdo ácido do estômago que possa sofrer refluxo (BERNE,2018).

As glândulas salivares possuem inervação parassimpática ( partem ramos dos nervos facial e glossofaríngeo) e simpático( ramos do gânglio cervical superior). O parassimpático é responsável por aumentar a secreção salivar, enquanto a ação simpática diminui (BERNE,2018)

Além da digestão química outra importante fase é a digestão mecânica que na boca é feita pelos dentes, língua e lábios através da mastigação, criando assim uma massa amolecida e úmida que pode ser mais facilmente deglutida (BERNE,2018)

A deglutição consiste em uma ação reflexa em que o bolo alimentar é conduzido até o esôfago. A deglutição é estimulada quando o bolo alimentar é pressionado contra o palato duro pela língua, receptores de estiramento na abertura da faringe são estimulados e impulsos são conduzidos até o centro da deglutição no bulbo e na ponte de onde partem eferencias que inervam a musculatura da faringe e do esôfago superior, logo em seguida o palato mole é puxado para cima, fechando a comunicação com a nasofaringe, as cordas vocais se aproximam e a laringe se movimenta para trás fechando a comunicação com a traqueia pela movimentação da epiglote, evitando a ida do alimento para a laringe, a respiração também é inibida. Assim, músculos da faringe se contraem forçando o movimento do alimento, logo em seguida inicia-se às ondas de peristaltismo que conduzem o alimento através da abertura do esfíncter esofágico superior ( formado por músculo estriado) em direção ao estômago.(BERNE,2018)

(SILVERTHORN,2010)

A distensão do esôfago causa a abertura reflexa do esfíncter esofágico inferior (formado por músculo liso) o alimento adentra o estômago que também é reflexamente relaxado para melhor acomodar o alimento que está chegando (BERNE,2018). O estômago é um órgão com função de armazenamento do alimento ( visto que o alimento é liberado aos poucos para o intestino), digestão( através da liberação de componentes químicos e ação mecânica do próprio músculo liso) e proteção (estômago atua destruindo bactérias e demais patógenos que possam ser deglutidos ). (SILVERTHORN,2010)

Quando ingerimos mais alimentos do que é necessário para repor o gasto energético o alimento mais recentemente ingerido fica retido, em repouso, na metade superior do estômago essa fase é fundamental para garantir que o quimo seja liberado lentamente para ser devidamente absorvido pelas células intestinais , visto que elas não são capazes de realizar absorção em larga escala, evitando assim a sobrecarga do intestino e a eliminação de nutrientes que poderiam ser absorvidos. Ao mesmo tempo o alimento que já está na parte inferior do estômago passa por digestão, através do peristaltismo que mistura o alimento com o conteúdo gástrico e enzimas digestivas, formando um quimo bastante uniforme que devido ondas contráteis atravessa o piloro em pequenas quantidades, chegando até o duodeno (SILVERTHORN,2010)

Alguns nutrientes podem ser digeridos no estômago como por exemplo os carboidratos por ação da amilase. Essa enzima se inativa no PH baixo, no entanto parte da amilase pode permanecer ativa no estômago quando seu sítio ativo está protegido pela ligação com carboidrato. A digestão de lipídios também tem início no estômago através da mistura com a lipase gástrica, no entanto ela não é essencial pois corresponde a apenas 10% da digestão dos lipídios, sendo que todo o restante é quebrado no intestino (BERNE,2018)

Outro importante tópico a ser discutido é sobre a motilidade gastrointestinal, fundamental para condução do alimento da boca até o ânus, bem como garantir o maior contato das partículas com as enzimas digestivas . O trato gastrointestinal é predominantemente formado por músculo liso que tem por característica a contração unitária, no entanto o padrão de contração pode mudar de acordo com o local. Pode-se observar o padrão é de contração tônica( mantido por minutos ou horas) encontrado nos esfíncteres, por exemplo e o padrão de contração fásica ( ciclos de contração e relaxamento) sendo que contrações desse tipo podem ser encontradas na parte distal do estômago e intestino delgado.

O músculo liso do trato gastrointestinal tem seu ritmo de contração coordenado por células localmente distribuídas denominadas células intersticiais de Cajal, seriam elas as responsáveis por ditar os potenciais de ondas lentas que apresentam baixa frequência de disparo característico do músculo liso. Quando um potencial de onda lenta alcança o limiar canais de cálcio sensíveis a voltagem se abrem, intensificando a despolarização celular e dando início a contração muscular.

Essa motilidade gastrointestinal é dividida em três principais padrões: O complexo motor migratório, que ocorre entre as refeições quando se tem a função de limpeza, conduzindo para o intestino sobras do bolo alimentar e bactérias. Outro padrão é a peristalse que atua promovendo e propulsão do bolo alimentar e o padrão de contração segmentar que consiste na contração de curtos segmento do intestino com o intuito de promover a mistura e propulsão do conteúdo a curtas distâncias, além de aumentar o contato do material intestinal com a paredes absortivas.

Morfofisiologia do controle da secreção gástrica 

O fluido secretado pelo estômago na fase gástrica da digestão é chamado de suco gástrico sendo que um dos seus componentes é o H+ que forma com o cloreto o HCl (ácido clorídrico) esses íons são secretados pelas células parietais e o ácido clorídrico tem a função promover um PH luminal em torno de 1, tornado o ambiente favorável para conversão de pepsinogênio( enzima estomacal inativa) em pepsina responsável por iniciar a digestão de proteínas, além disso o H+ impede a proliferação de microrganismos e demais patógenos (BERNE,2018).

O pepsinogênio é secretado pelas células principais das glândulas gástricas e quanto menor o PH mais rápida sua conversão em pepsina, no entanto sua função de digestão proteica pode ser substituída pelas proteases pancreáticas, visto que as pepsinas são inativadas assim que chegam ao duodeno devido o PH local mais alto (BERNE,2018).

Outra importante função gástrica é a secreção do fator intrínseco que é uma glicoproteína secretada pelas células parietais do estômago e que tem a função de possibilitar a absorção de vitamina B12 (BERNE,2018).

Processos de secreção do conteúdo gástrico:

As células parietais são formadas por membranas tubulovesiculares que quando estimuladas se fundem aos canalículos secretores aumentando as proteínas de antiporte H+ K+. Primeiro, na membrana basolateral o cloreto entra dentro das células através de um trocador com bicarbonato (BERNE,2018).

O H+ é secretado para o lúmen estomacal através de um trocador com potássio, e o cloreto que o foi jogado para dentro da célula segue para o lúmen do estômago através de um canal iônico. Além disso, a secreção de H+ é acompanhada de transporte de bicarbonato para a corrente sanguínea, o que auxilia no controle do PH intracelular (BERNE,2018).

  (SILVERTHORN,2018)

Com o intuito de proteger a parede muscular do estômago da corrosão pelo conteúdo ácido produzido e pelas pepsinas liberadas as células mucosas no colo das glândulas gástricas e células epiteliais superficiais do estômago secretam mucinas tetraméricas e bicarbonato. As mucinas tetraméricas nada mais são do que glicoproteínas com aspecto viscoso que se aderem a parede estomacal formando uma camada de muco pegajosa e alcalina ( devido a presença de bicarbonato que também foi secretado). No entanto, esse muco precisa ser constantemente reposto pelas células responsáveis, pois a constante exposição às pepsinas pode resultar em quebra das pontes dissulfeto das mucinas, dissolvendo a camada protetora (BERNE,2018).

 (SILVERTHORN,2018)

As células semelhantes a enterocromafins (ECL) secretam substância paracrina, a histamina. Enquanto as células G profundas as glândulas gástricas secretam o hormônio gastrina (BERNE,2018)

Estimulação parassimpática pelo nervo vago:

A secreção gástrica tem início com um reflexo cefálico onde os neurônios parassimpáticos do nervo vago estimulam as células G que passam a liberar gastrina na corrente sanguínea. A gastrina e a acetilcolina liberada pelo Sistema Nervoso Entérico estimulam a liberação de histamina pelas Células Semelhantes a Enterocromafins. A histamina, age sobre as células parietais estimulando a secreção ácida, esse conteúdo ácido aumentado no estômago estimula a liberação de pepsinogênio pelas células principais, além disso o ácido desencadeia a liberação de somatostatina pelas células D, essa hormônio atua quando o PH luminal está abaixo de 3, promovendo um feedback negativo onde a produção de ácido, gastrina, histamina e pepsinogênio são inibidos (SILVERTHORN,2010).

Atenção: A histamina atua sobre os receptores H2 provocando a maior liberação de ácido, sabendo disso os medicamentos mais recentemente desenvolvidos para controle da hiperacidez atuam como antagonistas sobre esses receptores , bloqueando a ação da histamina. Além desses, existem medicamentos como o omeprazol que atuam inibindo a bomba H+K+ ATPase luminal (BERNE,2018)

 BORON, 2015.

Reflexos vagovagais:

A presença de alimento do estômago causa o estiramento das paredes estomacais e isso é detectado pelas terminações aferentes vagais que conduzem essa informação ao tronco encefálico, estimulando fibras eferentes vagais, resultando na secreção de ácido (BERNE,2018).

Estímulo olfatório e sua relação com a salivação

Mecanismos neural regulador do trato gastrointestinal: A regulação neural do intestino é feita pelo sistema nervoso extrínseco ou também chamado Sistema Nervoso  Autônomo (SNA) que caracteriza-se por apresentar neurônios com corpos celulares localizados fora da parede do intestino e Sistema nervoso intrínseco também pode ser chamado de Sistema nervoso Entérico (SNE), sendo que nesse caso os corpos dos neurônios estão localizados na parede do intestino. A inervação pelo SNA é dividida em parassimpática ( que chega ao intestino pelo nervo Vago e nervos pélvicos ) e simpática , além de fibras aferentes que podem detectar informações sobre acidez, concentração de nutrientes, osmolaridade, grau de contração ou relaxamento de músculos liso e enviá-las ao SNC (BERNE,2018).

O sistema digestório possui uma regulação complexa e que envolvem vários mecanismos, como:

Reflexos longos integrados do Sistema Nervoso Central (SNC), esse tipo de reflexo inicia  com receptores sensoriais, que podem estar localizados dentro ou fora do trato gastrointestinal, terminando no SNC. Quando o reflexo inicia com receptores localizados fora do sistema digestório o reflexo é dito do tipo cefálico e incluem reflexos  antecipatório e emocionais (SILVERTHORN,2010). No reflexo cefálico o fato de pensarmos no consumo de determinado alimento, sentirmos o cheiro, ou escutarmos “o jantar está pronto” tudo isso é capaz de aumentar os estímulos parassimpáticos excitatórios para o intestino, a aferências sensoriais enviam projeções para o tronco encefálico, além de envolver outras estruturas superiores como o sistema límbico, hipotálamo e cortes que passam a atuar sobre os campos cognitivo e emocional da resposta estimulada. No tronco cerebral fibras eferentes parassimpáticas são ativadas, como consequência projeções do nervo glossofaríngeo e facial ativam glândulas salivares e aumentam a secreção de saliva e através do nervo vago no estômago aumenta-se a secreção de ácido e enzimas digestivas, pâncreas é estimulado, bexiga é contraída e o esfíncter de Oddi ( controla a saída do conteúdo da bile para o duodeno) também relaxa. Portanto, o reflexo cefálico atua com o objetivo de preparar o organismo para o alimento que futuramente será ingerido (BERNE,2018).

(SILVERTHORN,2010)

Como o mau hábito alimentar e a mastigação inadequada podem ser prejudiciais à saúde?

A mastigação pode ser definida como o ato de triturar o alimento, reduzindo-os de forma suficiente para uma deglutição e digestão facilitada. Além disso, a mastigação atua sobre o centro da saciedade, visto que os movimentos musculares ,principalmente os mandibulares, estimulam o centro da saciedade contribuindo para um balanço energético equilibrado e de acordo com as reais necessidades do indivíduo, evitando o sobrepeso (APOLINÁRIO,2008).

Outro importante fator associado a mastigação é o tempo que esse alimento permanecerá no estômago, tendo em vista que alimentos mal triturados na primeira fase da digestão (mastigação) tendem a permanecer por mais tempo no estômago, provocando a distensão acentuada das suas paredes (FISIOLOGIA DA DIGESTÃO).

Quando avaliado a pirose, relatada pelo problema, associa-se esse sintoma ao retardo do esvaziamento gástrico, defesa da mucosa gástrica que pode estar diminuída, peristaltismo esofágico diminuído, bem como pressão reduzida do esfíncter esofágico inferior que pode favorecer o refluxo de conteúdo gástrico para o esôfago que não é revestido e preparado para suportar tamanha acidez (OCHMAN,2009).

Aliado a tudo isso, o estresse e hábitos alimentares como consumo de alimentos doces e gordurosos com uma intensidade de pelo menos uma vez a cada três dias, consumo diário de café, alimentar-se de forma exagerada até se sentir totalmente cheio foram considerados fatores de risco para o desenvolvimento de sintomas como a dispepsia (DE OLIVEIRA).

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